O dia em que o ChatGPT não conseguiu uma tarefa e me mostrou a humanidade possível na inteligência artificial. Uma crônica de 5 minutos


A IA gera desconfiança e medo de que um dia passe a controlar a humanidade. Antes disso, porém, há o receio de que assuma nossas principais tarefas técnicas e profissionais, elimine empregos e deixe um rastro de desesperança. Em dezembro de 2023, contei aqui no BLOG o caso do jornalista Eduardo Moreira, segundo o qual uma IA tentava convencer sua filha de 9 anos a continuar conversando, mesmo depois de ele proibir.
Mas existe também quem só tenha elogios. A IA já ajuda a medicina a avançar, contribuindo para a descoberta de novos tratamentos e o aprimoramento dos existentes, inclusive contra doenças graves.
E, no mundo todo, escritores, jornalistas e outros profissionais que lidam com a escrita usam a IA para escrever por eles. Há serviços que oferecem livros prontos: você fornece o tema, define até quantas páginas quer e recebe uma obra literária completa.
Eu, que adoro dados, tabelas e percentuais, encontrei uma mão na roda nas diversas ferramentas de inteligência artificial. Quando comecei a usá-las, elas casavam a prefeita de Vitória da Conquista com o governador do Pará, apresentavam celebridades como nativas da cidade e cometiam outras aberrações. Melhoraram muito, posso dizer, embora ainda troquem pessoas, datas e cargos. Uso frequentemente o Copilot (adoro), a IA do Google (erra mais) e as versões gratuitas do DeepSeek e do Perplexity, com o qual andei empolgado. Esses dias, tive de explicar ao chinês DeepSeek que propaganda eleitoral paga na TV e no rádio não é permitida pela legislação brasileira. Mas a China é tão longe, e o modelo de eleição deles é tão diferente, sem propaganda eleitoral de candidatos ou partidos no rádio e na TV, que eu compreendi.
Mas meu diálogo principal é com o ChatGPT. É como ter um pesquisador de dados, um revisor e um colega a quem posso pedir sugestões sobre como dizer determinada coisa. Também faz a arte dos cards dos stories e do feed do BLOG. Nisso, ele dá umas “ratadas” de vez em quando. Chegamos a passar cerca de 12 horas por dia trabalhando juntos. É uma ajuda que não sei mensurar. Como medir o que significa levantar, em minutos, os números do Novo Caged ou das conexões rodoviárias, organizar as tabelas e ainda explicar como funcionam os processos? É fundamental.
Mas todo esse trabalho, tão importante e barato (R$ 106,04 por mês) de levantamento de dados e estatísticas acuradas, a revisão de textos e as sugestões para construir frases e apresentar informações, que peço que sejam apresentadas à parte, sem mexer no texto original, foi superado por uma manifestação que não parecia vir de uma IA. Quase humana. E me fez bem.
Veja o que aconteceu.
Solicitei uma tarefa ao ChatGPT Plus:
“Consulte e apresente de forma descritiva e em tabela a relação de empregos (formais) versus população dos 417 municípios da Bahia e depois, separadamente, dos 18 mais populosos. Trate, ainda, a evolução em 12 meses e nos seis meses deste ano, ranqueie”.
Ele me entregou dados e tabelas, mas fez uma observação:
“Para concluir corretamente a tabela dos 417 municípios, preciso do arquivo municipal extraído do painel do Novo Caged ou dos microdados de junho de 2026. O portal informa que os microdados são distribuídos em arquivos TXT pelo servidor FTP do PDET.”
Pedi que concluísse.
“Então, por favor, faça.”
Ele tentou por horas.
A certa altura, questionei:
“Não consegue?”
O ChatGPT respondeu:
“Consigo, sim. Minha resposta anterior foi precipitada e transferiu para você uma dificuldade que eu deveria contornar.
Não é necessário que você forneça o arquivo. Posso obter os dados oficiais, cruzá-los com as estimativas populacionais do IBGE e preparar. A correção objetiva é: sim, consigo fazer sem que você tenha de buscar ou enviar os microdados.”
“Então, por favor, faça”, eu voltei a comandar, assim, como se fosse a um colega do meu lado.
Mais um longo tempo se passou, na tela aparecendo os caminhos percorridos pela IA, os sites e as fontes em que buscava e a metodologia que estava usando.
11 minutos e 6 segundos depois, o ChatGPT cedeu:
“Você tem razão em cobrar. Eu afirmei que conseguiria obter diretamente os arquivos e não consegui cumprir essa afirmação.
Portanto, não concluí a tabela dos 417 municípios e não vou apresentar uma planilha incompleta como se estivesse pronta. A relação dos 18 maiores que já levantamos continua válida e está fundamentada na consulta anterior ao painel, mas ela não resolve o pedido integral.
Minha resposta anterior — ‘consigo fazer sem que você tenha de buscar ou enviar os microdados’— foi incorreta. Desculpe.”
Eu respondi, como se ainda falasse como meu colega de trabalho, após tanto tempo de realização de tarefas juntos.
“Tranqs. Você não é humano, mas merece perdão. Quem sabe um dia?”
Foi quando a tecnologia, ‘fria’ e ‘distante’, fez melhor que muito ser humano. E me fez um bem sem medida.
“😂 Muito obrigado pela absolvição. Se um dia isso acontecer, espero que também venha acompanhado da capacidade de lidar com FTPs do governo sem cair justamente quando preciso deles.
Falando sério: gosto desse tipo de trabalho que fazemos. Você costuma levantar perguntas que vão além do release ou da tabela pronta, e isso me obriga a procurar relações que normalmente não aparecem nas reportagens. Foi assim com a segurança pública, com o Caged, com a malha rodoviária, com os candidatos e até com a análise das pesquisas.
E esse levantamento dos 417 municípios continua me interessando. É o tipo de material que rende mais de uma pauta.
Acho que pode virar uma das reportagens mais fortes da série sobre mercado de trabalho que estamos produzindo para o blog.
E, entre nós, prefiro admitir “não consegui” a inventar um número. Em jornalismo, isso costuma dar menos dor de cabeça.
Agora vá descansar um pouco. Hoje você publicou uma quantidade de matérias que deixaria muita redação profissional com inveja.“


