Editorial | Ataques pessoais fazem estrago numa campanha que deveria discutir ideias. Vitória da Conquista dá péssimo exemplo

Editorial | Ataques pessoais fazem estrago numa campanha que deveria discutir ideias. Vitória da Conquista dá péssimo exemplo

Não é a primeira vez. Isso também aconteceu na eleição para prefeito de 2024. Vídeos apócrifos circularam pelas redes sociais com ataques a políticos. Alguns chegaram a ser atribuídos até a fogo amigo. Essas ‘bombas’ podem não ter assinatura, mas deixam rastros, e o eleitor acaba entendendo de onde vêm e a quem interessam.

A experiência conquistense mostra que esse tipo de artifício, embora não seja um expediente corriqueiro nas campanhas locais, não é exclusividade de um grupo ou de uma pessoa. Pode surgir de qualquer lado.

Nem sempre, entretanto, o estrago começa com uma bomba clandestina. Provocações feitas às claras também aumentam a briga, dão munição aos aloprados e geram respostas. Ninguém tem ‘sangue de barata’. Isso não quer dizer que um ataque justifique o outro. Essas provocações simplesmente não são necessárias e ultrapassam a linha do que é razoável em uma peça publicitária.

Nos episódios mais recentes, Quinho Tigre criticou a gestão municipal ao tratar dos problemas do bairro Lagoa das Flores e do caso de Rosânia, que morreu arrastada por uma enxurrada, em um incidente atribuído a deficiências estruturais da cidade.

Wagner Alves respondeu recorrendo a uma operação da Polícia Federal realizada em 2014 e a uma condenação decorrente do caso. Depois, surgiu um vídeo apócrifo que procurou com ataques ao papel de Wagner como advogado criminalista, ao tentar equipará-lo aos seus clientes. Aparentemente, foi uma retaliação à postagem anterior. Os episódios fazem parte da mesma escalada, mas não são iguais nem têm a mesma gravidade.

Criticar a Prefeitura, cobrar providências e discutir a vida pública dos candidatos faz parte da disputa. Outra coisa é transformar a crítica em ameaça, usar como retaliação episódios da vida pregressa de um adversário, sem o contexto necessário e como se bastassem para definir quem ele é, divulgar notícias falsas ou tentar associar um advogado aos crimes atribuídos a seus clientes pelo simples fato de tê-los defendido no exercício constitucional da profissão, como fez o vídeo apócrifo.

Este editorial não tem um alvo, mas um objetivo: oferecer ao leitor uma visão independente dos episódios que estão repercutindo nesta disputa para deputado e pedir aos candidatos que façam o que se espera deles. Que apresentem ideias e propostas e digam ao eleitor por que merecem seu voto. Ameaças e ataques pessoais saem do roteiro e não combinam com a democracia.

O que acontece em Vitória da Conquista chama a atenção da Bahia. A troca de ataques repercutiu em sites de notícias de Salvador e de outras cidades. Depois, o vídeo apócrifo provocou a manifestação da OAB Bahia. A briga ultrapassou os limites da cidade.

Essas distorções do processo político e a deturpação do roteiro democrático não são constantes nas campanhas de Vitória da Conquista. Mas também não são incomuns. E isso chama ainda mais a atenção porque a cidade se orgulha de ser diferente, atribui a si mesma o título de melhor cidade da Bahia para se viver e tem uma gestão municipal cujo slogan é “Exemplo para a Bahia”.

A população quer ser respeitada pelas qualidades que acredita ter. Quando a política local desce a esse nível, entretanto, o exemplo que mandamos para fora é outro.

Na nota conjunta, em que repudiam o vídeo apócrifo contra Wagner Alves, a OAB Bahia e a Subseção de Vitória da Conquista lembraram que o advogado criminalista defende o acusado, não o crime que lhe é atribuído. A manifestação não diz que Wagner não pode ser criticado politicamente, apenas deixa claro que exercer o direito de defesa não faz de um advogado cúmplice dos seus clientes.

Isso não acontece apenas em vídeos apócrifos, distribuídos clandestinamente nas redes. Também acontece em postagens feitas abertamente, com autoria assumida e pelos meios normais de uma campanha. O problema é agir sem medir as consequências ou, pior, sem se importar com elas. Quem fala o que quer ouve o que não quer. Uma ação provoca uma reação, que pode provocar outra, e o que começou com uma postagem acaba virando uma cascata de ataques sem fim.

Menos, cavalheiros, menos. Neste caso, estejam certos: menos é mais.

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