A amizade em tempos de solidão. Crônica de Joaquim Oliveira


Joaquim Oliveira é publicitário e desenhista gráfico. Conquistense, mora atualmente em Campinas (SP), deixando em Vitória da Conquista marcas de uma trajetória profissional aplaudida e saudade entre amigos e parentes.
Vivemos uma era paradoxal: nunca estivemos tão conectados virtualmente, mas, ao mesmo tempo, tão desconectados emocionalmente. A quantidade de contatos cresce, mas a qualidade dos laços diminui. Conversas que antes aconteciam em torno de uma mesa, em um café ou durante uma caminhada, agora se resumem a curtidas, emojis e mensagens apressadas. É como se a amizade estivesse sendo terceirizada para telas e algoritmos, transformando vínculos profundos em interações superficiais.
Esse fenômeno silencioso tem um preço alto. O isolamento se instala sem alarde, camuflado na rotina cheia, nas obrigações intermináveis e na desculpa recorrente de que “depois eu ligo”. Só que esse “depois” muitas vezes nunca chega. Aos poucos, relações que antes eram sólidas vão se enfraquecendo, até se perderem completamente. A amizade verdadeira — aquela que nos sustenta nos momentos difíceis e multiplica a alegria nos momentos felizes — não se mantém sozinha. Ela exige presença, dedicação e escolhas conscientes.
E não se trata apenas de companhia. A ciência vem reforçando, de forma contundente, algo que sempre soubemos intuitivamente: laços afetivos são fundamentais para a saúde. Pesquisas apontam que o isolamento social aumenta o risco de doenças cardíacas, demência e até de morte precoce. A solidão pode ser tão nociva quanto fumar diariamente. Em contrapartida, amizades profundas têm o poder de reduzir o estresse, fortalecer a imunidade e melhorar a saúde emocional.
Ainda assim, vivemos em uma cultura que prioriza produtividade, metas e obrigações acima de tudo, relegando a amizade a um plano secundário — quase como se fosse um luxo. Hoje, muitas pessoas só encontram os amigos quando “sobra tempo”, o que quase nunca acontece. Perdemos também espaços tradicionais que favoreciam encontros espontâneos: clubes, grupos comunitários, esportes em equipe e até as reuniões de família diminuíram drasticamente.
Se não formos intencionais, a tendência é que essa crise de vínculos se aprofunde. É preciso resgatar o hábito de cultivar relações com a mesma disciplina com que cuidamos da saúde física ou das finanças. Mandar uma mensagem carinhosa, fazer uma visita inesperada, ligar para perguntar “como você está de verdade” — pequenos gestos que têm o poder de aquecer corações e reatar conexões.
A verdadeira amizade é como um investimento valioso: quanto mais atenção, tempo e afeto se dedicam, mais ela cresce e floresce. Por isso, em meio à correria e ao barulho do mundo, talvez valha parar e refletir: você tem dedicado tempo suficiente aos seus amigos de verdade ultimamente?
Texto revisto pelo autor.
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