Coluna de Ronnie Peterson | A inércia histórica da falta de investimento em drenagem e o oportunismo (ou oportunidade) política


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

Semana passada abordei o oportunismo com que temas centrais são discutidos por nossos políticos. Pois bem, em Vitória da Conquista, a cena se repete, com uma Audiência Pública marcada após mais uma chuva provocar imensos prejuízos em nossa cidade.
As cenas se repetem a cada verão: ruas transformadas em rios, carros submersos, comércios inundados e famílias perdendo seus bens. O que antes era visto como um evento atípico, hoje se torna uma crônica anunciada dos impactos das chuvas intensas. Se nas metrópoles os problemas são crônicos, nas cidades médias, o desafio é exponencial. Conquista experimenta um crescimento acelerado, encontrando-se numa encruzilhada crítica: ou investem agora em infraestrutura de drenagem, ou pagaremos um preço social e econômico cada vez mais alto.
Recentemente passamos por uma discussão e aprovação de um PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano), que, em tese, deveria prever investimentos nessa área. Porém, as discussões foram superficiais e aprovadas sem a devida mobilização de técnicos e sociedade civil, sendo apressadas por ser fim de legislatura.
Agora vimos uma verdadeira onda de vídeos nas redes sociais (prefeita e vereadores), tanto da situação quanto da oposição, abordando este problema histórico, todavia sem apresentar soluções definitivas, agindo apenas em busca do engajamento nas mídias.
Não é de agora que a expansão urbana de Vitória da Conquista não foi acompanhada de obras de infraestrutura. É perceptível a falta de micro e macrodrenagem. A microdrenagem é o sistema que o cidadão vê (ou deveria ver) no dia a dia. É a rede de captação inicial: sarjetas, bocas de lobo (“bueiros”), galerias e tubulações que coletam a água das ruas, calçadas e telhados. Basta uma volta na maioria dos bairros para perceber a inexistência desta importante estrutura.
Agora, a Câmara irá discutir, no bojo de uma possibilidade de novo empréstimo, a inclusão da drenagem nas obras que virão. É necessário pensar na Conquista do futuro, adotando projetos que caminhem com o que há de mais sustentável. É preciso adotar Sistemas Urbanos de Drenagem Sustentável (SUDS), também conhecidos como “cidades-esponja”. Isso inclui incentivar pavimentos permeáveis (que deixam a água infiltrar), criar telhados verdes, jardins de chuva e pequenas bacias de infiltração nos bairros. Essas medidas “atacam” o problema na origem, retardando o fluxo da água e reduzindo o pico de vazão que chega aos sistemas principais.
O Município está requisitando um verdadeiro “cheque em branco” sem qualquer projeto ou detalhamento para o uso do valor do empréstimo, o que pode ser uma oportunidade para nossos vereadores. A audiência, ouvindo especialistas e a comunidade, pode ser o marco para a elaboração de um projeto sério.
Fica aqui um manifesto de esperança para que, ao contrário do que ocorre em Brasília, nossa cidade aproveite o momento, que nossos políticos, sobretudo os vereadores, deixem egos e brigas de lado e pensem na necessidade real de Conquista, principalmente ajudando a elaborar um projeto e um plano que englobam as melhores práticas de desenvolvimento urbano com ênfase na drenagem.
Texto revisado pelo autor.
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