A educação como trincheira: o desmonte do sonho no Dandara dos Palmares. Coluna de Ronnie Peterson

A educação como trincheira: o desmonte do sonho no Dandara dos Palmares. Coluna de Ronnie Peterson

Por uma perspectiva crítica sobre o acesso ao ensino superior

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

No Brasil, a meritocracia é um mito que se sustenta apenas para quem ignora a linha de partida. Enquanto uma parcela da sociedade se prepara para o vestibular com amparo integral, outra luta diariamente contra a fome, o transporte precário e o racismo estrutural apenas para chegar à sala de aula. É nesse abismo social que os cursinhos pré-vestibulares populares e comunitários, como o Projeto Pré-Vestibular Dandara dos Palmares, deixam de ser apenas espaços de ensino para se tornarem ferramentas indispensáveis de reparação histórica e justiça social.

A importância desses cursinhos para a população negra e periférica transcende a simples aprovação em uma universidade. Eles representam a quebra de um ciclo de exclusão que perdura desde o período colonial. Para o jovem negro e pobre, ingressar no ensino superior não é apenas uma conquista individual; é um ato político que reposiciona famílias inteiras na pirâmide social e desafia a lógica de que certos espaços de poder e saber não lhes pertencem. O cursinho é um dos pioneiros em Vitória da Conquista, fruto de luta de personalidades como nossa amada Beta Preta, que faleceu há poucos dias.

Nesse contexto, as comunidades quilombolas enfrentam uma camada adicional de invisibilidade. Frequentemente localizadas em áreas rurais ou periféricas, com acesso limitado a serviços básicos, essas comunidades dependem vitalmente de redes de apoio que compreendam suas especificidades culturais e territoriais. O acesso à educação superior para um jovem quilombola é a garantia de que sua comunidade terá advogados, médicos, engenheiros e professores formados com a consciência de suas raízes, prontos para defender seus territórios e direitos.

Portanto, a notícia da retirada de apoio da Prefeitura de Vitória da Conquista ao Projeto Dandara dos Palmares não pode ser lida apenas como um corte orçamentário ou remanejamento administrativo. Trata-se de uma escolha política que sinaliza o descaso com a democratização do ensino. Quando o poder público municipal nega transporte, alimentação ou estrutura a um projeto que atende, majoritariamente, jovens negros e quilombolas, ele está ativamente decidindo quem tem o direito de sonhar com a universidade e quem deve permanecer à margem.

O Dandara dos Palmares, em sua essência, realiza o trabalho que o Estado falhou em fazer: acolher, preparar e impulsionar aqueles que o sistema educacional tradicional deixou para trás. Retirar o suporte a essa iniciativa é fechar as portas da universidade pública para quem mais precisa dela. É dizer à juventude da periferia e da zona rural de Vitória da Conquista que a educação de qualidade é um privilégio, não um direito constitucional.

A ausência de políticas públicas consistentes de permanência e acesso obriga a sociedade civil a carregar um peso desproporcional. As redes de apoio quilombola e os movimentos negros resistem bravamente, mantendo as aulas e o incentivo moral, mas a boa vontade do voluntariado não substitui a responsabilidade do Estado. Sem o suporte logístico da prefeitura, a evasão torna-se inevitável, não por falta de capacidade intelectual dos alunos, mas por inviabilidade material de frequentar as aulas.

Em suma, atacar com inverdades ou negligenciar projetos como o Dandara dos Palmares é atacar o futuro de Vitória da Conquista. Uma gestão que vira as costas para a educação popular está fadada a perpetuar a desigualdade e a pobreza. É urgente que a sociedade conquistense cobre a retomada imediata do apoio, entendendo que investir no jovem negro e quilombola não é “gasto”, mas a única via possível para a construção de uma cidade verdadeiramente justa e desenvolvida. A educação não pode ser uma trincheira onde os mais pobres lutam sozinhos; ela deve ser a ponte que o poder público tem a obrigação de construir e manter.

Texto revisado pelo autor

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