Artemis II: o brilho da Ciência sobre as sombras do caos terrestre. Coluna de Ronnie Peterson

Artemis II: o brilho da Ciência sobre as sombras do caos terrestre. Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

​Sempre fui movido por uma curiosidade inquieta sobre o que existe além da nossa atmosfera. Para mim, o conhecimento científico não é apenas um conjunto de dados, mas uma ferramenta de libertação intelectual. Cresci sob a influência das palavras de Carl Sagan, que nos ensinou que “somos feitos de poeira de estrelas” e que a busca pelo nosso lugar no cosmos é, em última análise, a busca por nós mesmos. Essa paixão me levou querer observar o céu sendo atualmente membro da Associação de Astrônomos Amadores da Bahia (AAAB) onde compartilho com meus pares o deslumbramento pelo infinito.

Minha memória afetiva é permeada pelos relatos dos meus pais. Eles descreviam, com um brilho nos olhos que o tempo não apagou, a comoção global de julho de 1969. O mundo parou para ver, em imagens granuladas, o primeiro passo de Neil Armstrong. Naquela época, eu não conseguia processar por que, após um feito tão grandioso, simplesmente paramos de ir.

Por décadas, convivi com o vácuo da exploração tripulada e, pior, com o crescimento de um ceticismo corrosivo. Ao longo dos anos, ouvi de muitas pessoas que tudo não passava de um “truque de cinema”, uma encenação em algum deserto de Nevada. Para um entusiasta da ciência, ver o maior marco da engenharia humana ser reduzido a uma teoria da conspiração sempre foi um exercício de paciência e resiliência pedagógica.

Agora, em pleno fevereiro de 2026, estamos diante de uma resposta histórica: a Missão Artemis II.

​É fascinante — e ao mesmo tempo sintomático — observar como um evento dessa magnitude tem sido relegado ao rodapé das notícias. Enquanto a NASA realiza os ensaios finais para o lançamento do poderoso foguete SLS (Space Launch System), previsto para março, o olhar do mundo está compreensivelmente saturado pelo caos. As manchetes são dominadas pelas tensões persistentes em Gaza e no Irã, pela exaustiva guerra da Rússia contra a Ucrânia e pelas profundas divisões internas nos Estados Unidos.

O silêncio relativo da mídia sobre Artemis II esconde, no entanto, uma camada política complexa. Com o retorno de Donald Trump ao poder, a corrida espacial ganha novos contornos. Não é difícil prever que o lançamento será utilizado como um poderoso instrumento de propaganda para ofuscar as manifestações e crises políticas que fervem dentro e fora do território americano. A Lua, outrora um símbolo de união da “humanidade”, volta a ser um palco onde o nacionalismo tenta brilhar mais que a ciência.

​Diferente do programa Apollo, Artemis II não é apenas uma visita; é o prelúdio de uma estadia. Com uma tripulação diversa — incluindo Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen — a missão orbitará o satélite para testar os sistemas que permitirão, em breve, a construção de uma base sustentável e o salto definitivo rumo a Marte.
​”A ciência é muito mais do que um corpo de conhecimento; é uma maneira de pensar.” — Carl Sagan.

​Em meio ao pessimismo que os conflitos geopolíticos nos impõem, a visão da cápsula Orion subindo aos céus nos oferece um breve, mas necessário, entorpecente contra os dramas diários. É o lembrete de que, apesar de nossa incrível capacidade de destruição mútua, ainda somos a espécie capaz de calcular trajetórias orbitais e sonhar com outros mundos.

Talvez, ao olharmos para cima nesta semana, possamos esquecer por alguns instantes as fronteiras traçadas com sangue na Terra e lembrar que, vistos de lá, somos apenas um “pálido ponto azul”. A Missão Artemis II pode até servir a propósitos políticos imediatos, mas para nós, admiradores do cosmos, ela é a prova de que a curiosidade humana, mesmo sob o peso do caos, se recusa a ficar presa ao chão.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

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