Futebol, machismo e misoginia: uma semana em que a “paixão nacional” expôs sua pior face. Coluna de Ronnie Peterson

Futebol, machismo e misoginia: uma semana em que a “paixão nacional” expôs sua pior face. Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

O futebol brasileiro, paixão nacional e elemento indissociável da nossa cultura, frequentemente funciona como um espelho da sociedade. Infelizmente, esse reflexo ainda expõe facetas sistêmicas e muito sombrias: o machismo estrutural e a misoginia. Longe de serem incidentes isolados, episódios recentes de violência e preconceito escancaram como o ambiente do esporte mais popular do país muitas vezes atua como um escudo, relativizando agressões e descredibilizando mulheres, sejam elas vítimas, profissionais ou torcedoras.

​Um dos exemplos mais chocantes dessa triste realidade ocorreu nestes últimos dias de fevereiro, com a Associação Desportiva Vasco da Gama, o Vasco-AC. A diretoria do clube acriano não apenas chancelou o retorno ao esporte do goleiro Bruno — condenado por homicídio qualificado, sequestro e ocultação de cadáver no brutal caso de feminicídio de Eliza Samudio —, como viu o próprio clube afundar em um gravíssimo escândalo policial. Ainda neste mês de fevereiro, quatro jogadores do elenco foram presos sob a denúncia de estupro coletivo contra duas mulheres dentro do alojamento do time.

A extrema gravidade do caso, por si só, já exigiria uma postura rigorosa, mas a reação do clube conseguiu aprofundar a ofensa. Antes do início de uma partida eliminatória pela Copa do Brasil contra o Velo Clube, realizada no último dia 19/2, os atletas do Vasco-AC entraram no gramado segurando as camisas em homenagem aos colegas presos preventivamente pelos supostos estupros.

Com a anuência da diretoria e a participação do goleiro Bruno na foto posada, a equipe transformou o campo em um palco de solidariedade a investigados por violência sexual. Essa atitude envia uma mensagem estarrecedora de impunidade e desprezo pelas vítimas, reforçando um perigoso pacto de cumplicidade masculina no esporte.

E a misoginia seguiu se manifestando abertamente no mundo futebolístico. ​O machismo no futebol não se limita à tolerância com a violência física; ele também opera para invalidar a capacidade feminina nos espaços de autoridade. No sábado 21/2, o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, disparou falas abertamente misóginas contra a árbitra Daiane Muniz após a eliminação de sua equipe no Campeonato Paulista para o São Paulo.

Frustrado com a derrota, o atleta declarou em entrevistas que a Federação não deveria “colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”, reduzindo a competência técnica da profissional unicamente ao seu gênero. Embora o clube tenha aplicado uma pesada multa salarial e o jogador tenha vindo a público pedir perdão e alegar “cabeça quente”, o ataque evidencia a forte e agressiva resistência em aceitar que as mulheres exerçam poder de decisão dentro das quatro linhas.

​Para compreender a naturalização desses eventos, é fundamental olhar para a história de exclusão do futebol no Brasil. A aversão à presença feminina não é mero acaso, foi uma política de Estado. Durante a Era Vargas, o Decreto-Lei 3.199 de 1941 proibiu formalmente as mulheres de praticarem esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”, tendo o futebol como alvo principal. Essa proibição legal durou quase quatro décadas, sendo derrubada apenas em 1979. Esse apagamento forçado atrasou estruturalmente a modalidade feminina e cristalizou o futebol como um feudo de dominação masculina.

A herança desse machismo institucionalizado reverbera intensamente também nas arquibancadas. Mulheres que frequentam os estádios para apoiar seus times relatam, de forma corriqueira, casos de importunação sexual, assédio, agressões verbais e físicas. O ambiente, que deveria ser de celebração, exige que as torcedoras lutem continuamente pelo direito básico de existir e torcer em segurança, precisando provar a todo momento que “entendem das regras”, um teste de fogo que jamais é imposto aos homens.

​Fatos como a grotesca homenagem promovida pelo Vasco-AC e a fala discriminatória do zagueiro do Bragantino evidenciam que notas oficias de repúdio, embora necessárias, já não são o bastante. A engrenagem do futebol ainda protege e acolhe agressores enquanto afasta e violenta as mulheres. O esporte possui um poder de transformação social imenso e, para ser verdadeiramente de todos, precisa urgentemente romper esse ciclo. O campo, o apito, a arquibancada e as diretorias são, irrevogavelmente, lugares de mulher.

FOTO DESTAQUE: VASCO-AC FAZ HOMENAGEM A JOGADORES ACUSADOS DE ESTUPRO COLETIVO

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

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