Coluna de Ronnie Peterson | 2 de maio: o dia em que a crise esqueceu de aparecer em Conquista



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.
Saí de casa no dia dois de maio com a alma preparada para o silêncio. Sabe aquele clima de “ressaca” de feriado? Pois é. Sendo o dia seguinte ao Dia do Trabalhador, e emendando com o final de semana, a lógica ditava que Vitória da Conquista estaria submersa em uma calmaria profunda. Imaginei-me deslizando pelas avenidas, encontrando estacionamento fácil na porta de qualquer lugar e vendo as persianas de ferro das lojas devidamente baixadas, como pálpebras de quem dorme o sono dos justos. O choque de realidade, porém, veio antes mesmo de eu alcançar a descida da Rua Maximiliano Fernandes.
Ao me aproximar do Centro, a tranquilidade que eu havia projetado se desfez no primeiro engarrafamento. O que era para ser uma cidade fantasma parecia mais uma metrópole em dia de liquidação geral. Buzinas, o vai e vem frenético de pedestres e uma energia que pulsava contra qualquer expectativa de “feriadão”. Se o comércio estava parado, esqueceram de avisar aos conquistenses, que ocupavam cada centímetro quadrado das calçadas com sacolas nas mãos e pressa no passo.
Decidi descer até o Ceasa. Se há um lugar que serve como termômetro da alma econômica desta cidade, é ali. O cenário era de uma efervescência quase carnavalesca: barracas cheias, o cheiro forte das frutas frescas misturado ao aroma do café próximo às barracas de biscoitos, e uma multidão que parecia ignorar solenemente o conceito de descanso. Onde estavam as ruas vazias? Onde estava o comércio desolado? Não ali.
O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi um ponto geográfico específico que, para muitos, simbolizaria uma “baixa” comercial. Passei em frente ao imenso imóvel onde funcionou, por anos, a Le Biscuit. Muitos profetas do caos estavam dizendo por aí: “Vejam, um gigante fechou, a crise chegou”. Mas a realidade é teimosa. O ponto já está alugado. O movimento de operários, o cheiro de tinta e a movimentação interna deixam claro que o espaço está sendo preparado para um novo empreendimento. Numa área tão valorizada como a Lauro de Freitas, o vácuo comercial não dura; ele é preenchido antes mesmo da placa de “aluga-se” desbotar sob o sol (ou a neblina) da Suíça Baiana.
Diante desse cenário, a gente começa a confrontar os discursos. Frequentemente ouvimos alardes sobre crises profundas e colapsos econômicos, mas os dados oficiais — e a visão das ruas — contam uma história diferente. Com índices de desemprego em baixa e números de crescimento no comércio que desafiam a média nacional, Vitória da Conquista parece viver em uma bolha de resiliência. Conquista absorve muitos operários da construção civil vindos de vários lugares, estes, com carteira assinada e salário na conta, correm para consumir no comércio local, movimentando a roda da fortuna (dos comerciantes, claro).
Talvez o que falte a quem analisa de longe, ou a quem se apega ao pessimismo, seja notar que o comércio da cidade passou por uma metamorfose silenciosa, porém radical. O “Centro” não é mais apenas o quadrilátero histórico. A riqueza e o consumo se pulverizaram: Hoje, bairros como Brasil, Candeias e Patagônia possuem centros comerciais próprios, tão vibrantes quanto o principal. Galerias modernas, com arquitetura arrojada e propostas de nicho, surgem em vários bairros, trazendo o consumo para mais perto de onde as pessoas vivem. Os dois grandes shoppings da cidade seguem como âncoras de entretenimento e consumo, absorvendo uma demanda que o Centro antigo, por sua natureza geográfica, já não comportaria sozinho.
Resumo da Ópera
A conclusão que tirei daquele 2 de maio é simples: Conquista não sabe o que é parar (pelo menos não como os pessimistas dizem). Enquanto o país debate os rumos da macroeconomia, por aqui o micro se resolve na base da iniciativa. A “crise”, se existe com a força que pregam, parece não ter encontrado endereço fixo nestas paragens.
O ritmo é de crescimento. O ritmo é de obra, de prateleira cheia e de trânsito lento — este último, um incômodo necessário que atesta a nossa vitalidade. Conquista segue firme, ignorando os falsos alardes e provando que, entre o boato e o fato, a gente prefere o trabalho.
FOTO DESTAQUE: CENTRO DE VITÓRIA DA CONQUISTA, NAS PROXIMIDADES DA ESTAÇÃO HERZEM GUSMÃO, NO DIA 2 DE MAIO (INSTAGRAM DE RONNIE PETERSON)
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
As opiniões manifestadas pelos artigos publicados não representam, necessariamente, a opinião deste BLOG. São uma forma de estimular o debate e o pensamento, estando o espaço aberto para outras manifestações de articulistas (independente de partido ou ideologia política) interessados em discutir o momento da vida nacional.


