Nas águas de março, a prefeita Sheila Lemos enfrenta seus maiores desafios. Coluna de Ronnie Peterson


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática
“São as águas de março fechando o verão”. Os versos imortalizados na música popular brasileira ganham um tom de urgência e tensão em Vitória da Conquista neste ano de 2026. Para a gestão municipal, março não representa apenas uma mudança de estação, mas o soar do gongo no calendário eleitoral. Este é o último mês completo para os gestores que planejam a desincompatibilização de seus cargos visando as eleições estaduais e federais de outubro. No centro deste furacão político e climático está a prefeita Sheila Lemos, que vê a chuva trazer à tona desafios que podem redefinir seu capital político.
As águas que desde fevereiro vêm provocando estragos significativos e avançam por março, também têm causado fortes dores de cabeça ao Executivo municipal. Os impactos provocados pelas chuvas intensas nas ruas e bairros periféricos de Vitória da Conquista, agravados por uma série de obras inacabadas, compõem um cenário de insatisfação popular. O desgaste na mobilidade urbana e os transtornos diários enfrentados pelos conquistenses ameaçam provocar uma baixa significativa nos índices de aprovação da prefeita.
A situação financeira adiciona uma camada extra de complexidade. A expectativa de que grandes obras pudessem alavancar a imagem de “boa gestão” esbarra em um obstáculo temporal: o robusto empréstimo já aprovado para o município provavelmente só terá seus recursos liberados no segundo semestre. Com isso, a prefeitura se vê obrigada a “se virar” com o orçamento atual, realizando manobras contábeis e priorizando ações emergenciais para reorganizar a cidade afetada pelas intempéries.
Enquanto a água sobe em Conquista, a agenda política da prefeita tem exigido atenção fora dos limites do município. A peregrinação de Sheila Lemos por Salvador, em uma campanha aberta e estratégica para consolidar seu nome como indicada à vice-governadoria na chapa de ACM Neto, tem sido alvo de escrutínio. Analistas políticos e opositores apontam que o foco na articulação estadual, no exato momento em que problemas de zeladoria e infraestrutura eclodem na cidade, cria uma dissonância indesejada com o eleitorado local.
Como se o clima e o asfalto não bastassem, uma verdadeira “batata quente” caiu nas mãos da gestão: o encerramento dos atendimentos via Sistema Único de Saúde (SUS) do Hospital Unimec. A perda de acesso a um serviço essencial preocupa profundamente a comunidade e exige respostas imediatas. A prefeita tem pouco mais de um mês para resolver, ou ao menos amenizar, essa crise de saúde pública antes de tomar a decisão final sobre sua renúncia
Todo esse cenário de desgaste ameaça respingar diretamente nas pretensões do grupo governista. Os problemas acumulados podem se tornar um ponto negativo de forte impacto para a viabilidade eleitoral de seu companheiro e aliado, Wagner Alves. A percepção de abandono ou de ineficiência na gestão das crises recentes é o combustível perfeito para a oposição.
Além disso, os bastidores revelam um racha cada vez mais público e notório na base aliada. A falta de sintonia entre os possíveis candidatos locais e as disputas internas por espaço geram um clima de instabilidade. A prefeita precisará de grande habilidade para pacificar seu grupo político antes de decidir se entregará a chave do cofre e o comando do município ao seu vice-prefeito, Aloísio Alan. A transição de poder, caso ocorra, precisará ser milimetricamente calculada para não fragmentar de vez os apoios locais.
Resta saber se as fortes águas de março serão capazes de “depurar” a imagem da administração, servindo como uma oportunidade para a prefeitura demonstrar agilidade e capacidade de resposta, ou se acabarão lavando de vez o verniz de boa gestão construído nos últimos anos. Os próximos trinta dias serão decisivos não apenas para a infraestrutura de Vitória da Conquista, mas para o futuro político de toda uma liderança regional.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
As opiniões manifestadas pelos artigos publicados não representam, necessariamente, a opinião deste BLOG. São uma forma de estimular o debate e o pensamento, estando o espaço aberto para outras manifestações de articulistas (independente de partido ou ideologia política) interessados em discutir o momento da vida nacional.


