Delírio coletivo: o fenômeno da “pós-verdade” no consumo da extrema direita. Coluna de Ronnie Peterson

Delírio coletivo: o fenômeno da “pós-verdade” no consumo da extrema direita. Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.

O cenário político brasileiro dos últimos anos transcendeu o debate de ideias para ocupar um espaço inusitado: o carrinho de compras. O que antes era uma escolha baseada em custo-benefício tornou-se um campo de batalha ideológico onde o “delírio coletivo” — a desconexão profunda entre crenças de nicho e a realidade factual — dita boicotes fervorosos e idolatrias súbitas. Casos envolvendo as marcas Havaianas, Ypê e a ascensão de produtos “ideologicamente puros” ilustram como a desinformação e a paranoia moldam o comportamento de uma parcela da extrema direita.

O gatilho para a fúria contra as Havaianas no ano passado surgiu de uma interpretação puramente conspiratória de uma campanha publicitária de fim de ano estrelada pela atriz Fernanda Torres. No comercial, a atriz brincava com as superstições de virada de ano, afirmando que entraria no ciclo seguinte não apenas com o “pé direito”, mas com os “dois pés”.

O que era um texto leve sobre otimismo e equilíbrio foi rapidamente transmutado em grupos de extrema direita como uma mensagem subliminar comunista. A lógica operada pelo delírio foi a de exclusão: se a atriz não enfatizou o “pé direito” (termo associado à direita política), ela estaria sutilmente promovendo o “pé esquerdo”.

Esse fenômeno demonstra como a semiótica do cotidiano é sequestrada pela polarização; uma propaganda de chinelos deixa de ser sobre calçados para se tornar, na mente do radicalizado, uma ferramenta de engenharia social e doutrinação ideológica.

Se no caso das Havaianas o delírio foi simbólico, no caso da Ypê ele assumiu contornos de saúde pública. Em 2024 e agora em 2026, a Anvisa determinou o recolhimento de lotes de detergentes da marca após detectar o risco de contaminação biológica por microrganismos. Em um cenário de normalidade institucional, o consumidor agiria com cautela. Contudo, o viés de confirmação da extrema direita inverteu a lógica.

Como os proprietários da Ypê são historicamente ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a fiscalização técnica da Anvisa foi lida como “perseguição política” do atual governo. O delírio coletivo atingiu níveis alarmantes quando influenciadores e usuários de redes sociais passaram a defender o consumo dos produtos supostamente contaminados como um ato de resistência patriótica.

Houve relatos de pessoas que, em um surto de fervor messiânico e paranoia, chegaram a ingerir ou exaltar a “pureza” do detergente, acreditando que a bactéria era uma invenção estatal para falir empresários aliados. O instinto de preservação foi anulado pela necessidade de validar uma narrativa de martírio.

A resposta a esse cenário de exclusão autoimposta foi a criação de um ecossistema comercial paralelo. O lançamento de uma marca de sandálias com o nome explícito de Pé Direito, tendo o deputado Nikolas Ferreira como garoto-propaganda, é o fechamento perfeito desse ciclo de isolamento.

A estratégia é clara: se as marcas tradicionais são “contaminadas” pelo progressismo ou “perseguidas” pelo Estado, cria-se um refúgio de consumo onde o cliente nunca precisa sair da sua bolha. A sandália “Pé Direito” não vende apenas conforto; vende a garantia de que o comprador está em um ambiente “seguro” contra o que ele considera a degradação moral do mercado global. É a mercantilização definitiva da polarização.

Esses episódios revelam uma fragilidade social profunda. O delírio coletivo não é apenas acreditar em notícias falsas; é a construção de uma identidade que se nutre da rejeição sistemática ao fato científico e à lógica comercial. Quando a fiscalização de um detergente ou o roteiro de um comercial de 30 segundos são interpretados como ataques existenciais, a sociedade perde o chão comum necessário para a convivência. O “Pé Direito” pode até caminhar, mas caminha para dentro de um isolamento que prefere o risco sanitário e a paranoia ao convívio com a pluralidade.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

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