Articulação e sobrevivência: o triunfo da prefeita Sheila Lemos diante do racha político – Coluna de Ronnie Peterson

Articulação e sobrevivência: o triunfo da prefeita Sheila Lemos diante do racha político – Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.

O cenário político de Vitória da Conquista vive um momento de intensas transformações e paradoxos que desafiam as lógicas tradicionais partidárias. No centro dessa tempestade está a prefeita Sheila Lemos. Enfrentando um período de desgaste político e lidando com fissuras evidentes em seu próprio núcleo de apoio, a gestora municipal demonstrou uma surpreendente capacidade de articulação ao aprovar projetos de alta impopularidade na Câmara de Vereadores. O que mais chama atenção nesse arranjo, contudo, não é apenas a vitória em si, mas a origem do oxigênio que garantiu a sobrevivência de sua agenda: a própria oposição.

​Recentemente, a base governista sofreu um forte abalo decorrente das movimentações de bastidores para viabilizar a futura candidatura de Wagner Alves, esposo da prefeita. Essa estratégia familiar provocou um racha explícito entre aliados históricos, que enxergaram a manobra como uma centralização excessiva de poder, preterindo lideranças que há muito aguardavam seu espaço. O descontentamento interno sugeria um isolamento político iminente para Sheila, criando o ambiente perfeito para uma derrota acachapante no legislativo.

​O teste de fogo dessa vulnerabilidade veio com a votação do projeto que criava diversos cargos comissionados na estrutura municipal. Em ano eleitoral, a proposta carrega intrinsecamente o estigma do fisiologismo, sendo amplamente interpretada pela opinião pública como um mecanismo para acomodar aliados e inflar a máquina, em detrimento da eficiência administrativa. Era o cenário ideal para a oposição impor um revés histórico à prefeita.

Contudo, o pragmatismo das urnas e os acordos de bastidores ditaram outro ritmo. Em uma reviravolta que surpreendeu os analistas locais, a prefeita conseguiu blindar o projeto graças ao apoio decisivo de parlamentares que, teoricamente, deveriam liderar o embate contra o governo. Os vereadores Luciano Gomes e Ricardo Babão, ambos do PCdoB, e Ricardo Gordo, do PSB, tornaram-se os (in)fiéis da balança. Ao votarem favoravelmente à criação dos cargos, eles estenderam uma mão salvadora ao Executivo, evitando uma derrota que seria desastrosa para a imagem de Sheila Lemos.

​Essa movimentação, no entanto, cobrou o seu preço em termos de coerência partidária. Ao marcharem com a prefeita em uma pauta tão sensível, os parlamentares comunistas e o socialista agiram em total desacordo com as orientações de suas respectivas legendas. Essa infidelidade partidária não passou despercebida pelos caciques do PCdoB e do PSB, que já manifestaram descontentamento com a postura de seus correligionários. O episódio escancara que, muitas vezes, as conveniências mandatórias e regionais atropelam as diretrizes programáticas dos partidos.

​A capacidade de Sheila em cooptar votos no campo adversário, justamente quando parecia mais fraca, prova que a prefeita ainda detém um forte poder de sedução política e controle sobre o jogo institucional. Em pleno ano eleitoral, o principal esteio para as pretensões de continuidade do seu grupo político veio de onde menos se esperava.

​Engana-se, porém, quem pensa que essa articulação visa apenas o pleito imediato. Embora a disputa atual mobilize as paixões e os recursos do momento, o horizonte das forças políticas locais já está fixado em 2028. O xadrez jogado hoje em Vitória da Conquista é pavimentação pura para o futuro a médio prazo. Ao fragmentar a oposição e expor suas contradições, Sheila Lemos não apenas sobrevive ao mau momento atual, mas envia um recado claro ao mercado político: sua capacidade de articulação ultrapassa as barreiras ideológicas e as crises domésticas, redesenhando as fronteiras do poder local para as próximas temporadas.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

As opiniões manifestadas pelos artigos publicados não representam, necessariamente, a opinião deste BLOG. São uma forma de estimular o debate e o pensamento, estando o espaço aberto para outras manifestações de articulistas (independente de partido ou ideologia política) interessados em discutir o momento da vida nacional.

Deixe uma resposta

Você não pode copiar conteúdo desta página

Descubra mais sobre BLOG DE GIORLANDO LIMA

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading