Coluna de Ronnie Peterson | Para além do ‘Ouro de Tolo’: soberania, trabalho e a identidade de um país

Coluna de Ronnie Peterson | Para além do ‘Ouro de Tolo’: soberania, trabalho e a identidade de um país

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças

A busca por uma identidade nacional que nos una para além das fronteiras físicas do mapa sempre foi um dos maiores desafios da história brasileira. Não nascemos do consenso pacífico, mas do choque de uma colonização predatória que usurpou a soberania econômica, saqueou riquezas naturais e tentou silenciar tradições ancestrais. Numa terra já habitada por povos originários, a ambição mercantilista trouxe outros tantos povos (sobretudo da África negra) para serem submetidos a um dos processos de desumanização mais cruéis da história: a escravidão. Essa matriz violenta não apenas moldou a economia colonial, mas estruturou a hierarquia social que ainda projeta suas sombras sobre o Brasil contemporâneo.

A abolição formal da escravatura foi um passo histórico fundamental, mas não extinguiu a mentalidade da exploração. Hoje, essa herança se manifesta em tons suavizados, frequentemente maquiados pelo discurso reluzente do “empreendedorismo de si mesmo”. Vende-se a ilusão da autonomia irrestrita e do controle do próprio tempo quando, na realidade, a necessidade premente de sobrevivência empurra milhões de trabalhadores para jornadas exaustivas de 10, 12 e até 14 horas diárias.

Sem descanso garantido, sem proteção social e abrindo mão de direitos trabalhistas consolidados a custa de muitas lutas, a força de trabalho vê a precarização ser rebatizada como “liberdade”. Trata-se de uma maquiagem moderna para a vulnerabilidade, na qual a ausência de garantias básicas é apresentada como mérito individual.

O cenário torna-se ainda mais alarmante na arena política. Com a proximidade das eleições gerais, emergem candidatos que trazem na ponta da língua a apologia a esse modelo precarizado, combinada a uma forma aberrante de patriotismo invertido. É uma retórica que ostenta a bandeira nacional nos palanques enquanto bajula potências externas, prontificando-se a entregar patrimônios estratégicos e recursos naturais a interesses estrangeiros. Esse nacionalismo de fachada repete o erro histórico de trocar a soberania real pelas promessas vazias do “ouro de tolo”.

Diante desse panorama, o processo eleitoral não pode ser reduzido a um mero espetáculo publicitário. É um momento de profunda reflexão sobre as fundações da nossa sociedade e algumas perguntas devem ser minimamente respondidas pelos candidatos e por nós mesmos: Desejamos uma soberania apenas formal ou uma emancipação concreta que assegure tecnologia, soberania alimentar, educação e saúde de qualidade para toda a população? Como garantir que o desenvolvimento econômico ande de mãos dadas com a dignidade, a proteção social e o descanso do trabalhador? Quais valores éticos e morais devem reger a convivência social — a solidariedade e a justiça ou a competição predatória e a desumanização?

Mais de um século de conquistas sociais e trabalhistas não podem ser sacrificados no altar do mercado desregulamentado. A cidadania exige, hoje mais do que nunca, a capacidade de ler nas entrelinhas dos discursos messiânicos e identificar os projetos que representam o retrocesso a um novo arranjo colonial. Escolher com consciência histórica é a única via para interromper o ciclo da exploração e, finalmente, edificar uma nação onde a dignidade humana seja o pilar central da nossa identidade.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

FOTO DE CAPA: ILUSTRAÇÃO CRIADA PELO CHATGPT (A costura da bandeira representa a construção da identidade nacional pelo trabalho; ao fundo, o porto e o embarque remetem à retirada das riquezas do país)

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