Entre apoios, identidade, críticas e até romantismo, candidaturas a deputado estadual por Conquista mostram estratégias diferentes nas redes


Dos nove candidatos a deputado estadual ligados a Vitória da Conquista, sete mantêm nos perfis do Instagram conteúdo suficiente para uma leitura do caminho escolhido na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia: Wagner Alves (União), Doutora Lara Fernandes (Republicanos), Marcos Adriano (PDT), Fabrício Falcão (PCdoB), Zé Raimundo (PT), Quinho Tigre (PSD) e Isaac Nolasco (Missão). Tiago Correia (PSDB) e Vítor Azevedo (Avante), que vivem em Salvador e pouco atualizam o feed, não entram nesta análise.
A rede social, naturalmente, não mostra toda a campanha. Há reuniões que não são publicadas, conversas reservadas, articulações partidárias e trabalho feito em outras redes ou diretamente com os eleitores. O feed, entretanto, revela o que cada candidato escolheu mostrar e, principalmente, qual imagem pretende construir.
WAGNER: MOSTRAR APOIOS
Wagner Alves vem fazendo uma campanha de demonstração de força. Em vez de aparecer apenas falando sobre si, tem publicado declarações de vereadores, ex-vereadores, políticos, lideranças e outras pessoas que explicam por que decidiram apoiá-lo.
O objetivo aparente é demonstrar que sua candidatura não depende somente do apoio da prefeita Sheila Lemos (União), sua esposa, e que há uma rede política sendo formada em torno de seu nome. As declarações funcionam como uma espécie de confirmação pública de que a candidatura é viável e possui sustentação para além do núcleo familiar.
Essa construção também ajuda a enfrentar uma dificuldade natural de quem disputa uma eleição pela primeira vez. Wagner nunca teve o nome colocado na urna, enquanto vários dos seus concorrentes já foram candidatos, vereadores, prefeitos ou deputados. Ele e Isaac Nolasco são os únicos estreantes entre os 19 candidatos a deputado estadual e federal com base em Vitória da Conquista.
Nos últimos dias, Wagner também passou a intercalar a demonstração de apoios com uma comunicação mais leve. Aparece ao lado de Sheila, explora a relação do casal e apresenta a candidatura como uma caminhada compartilhada. O tom, com uma boa dose de romantismo, é diferente daquele adotado em momentos recentes, quando fez críticas mais duras aos adversários e entrou diretamente em confrontos políticos mais duros.
Isso não significa que Wagner abandonou a disputa mais intensa. A mudança indica uma tentativa de equilibrar os papéis: Wagner continua respondendo aos ataques e marcando posição, mas também procura construir uma imagem mais próxima, familiar e menos beligerante. Em publicações recentes, ele aparece ao lado de Sheila e de integrantes da chapa estadual da oposição, além de agradecer apoios políticos, como o do candidato a vice-governador Zé Cocá, que esteve em Conquista ontem (4) e também fez uma declaração de apoio a Wagner.
DRA. LARA: BOLSONARISMO
Doutora Lara Fernandes segue uma estratégia diferente. Casada com o vice-prefeito, Dr. Alan Fernandes (Republicanos), Lara faz diferente de Wagner Alves, marido da prefeita, e pouco mostra o marido em sua rede social depois que decidiu ser candidata.
A vereadora investe principalmente na identificação ideológica. Flávio Bolsonaro (PL) aparece como sua principal referência nacional, e as publicações procuram associá-la aos valores, princípios e posições defendidos pelo bolsonarismo. Em uma das peças, Lara se refere diretamente ao senador como seu “futuro presidente”.
Sua principal escolha é deixar claro de que lado está. A ligação com Flávio Bolsonaro, com Nikolas Ferreira (PL-MG), Dra. Raíssa Soares (PL), entre outros do campo político da direita funciona como uma forma de identificação imediata com parte do eleitorado. Mais do que apresentar uma rede de apoios locais ou explorar a posição política do marido, Lara procura consolidar uma identidade ideológica própria.
MARCOS: CONFRONTO COM A PREFEITURA
Marcos Adriano continua conduzindo uma campanha muito ligada aos problemas de Vitória da Conquista e às críticas à gestão da prefeita Sheila Lemos.
O advogado fala sobre impostos, arrecadação, saúde, infraestrutura, buracos nas ruas, transporte escolar eMesmo disputando um cargo estadual, sua comunicação permanece fortemente municipal. Em alguns momentos, a impressão é de continuidade da campanha de 2024, quando concorreu à Prefeitura. Também sustenta que Vitória da Conquista precisa ampliar sua representação política.
A Embasa aparece eventualmente nesse discurso. Marcos procura explicar a responsabilidade da empresa estadual e da Prefeitura pelos problemas deixados depois das intervenções nas ruas, usando sua formação jurídica para apresentar contratos, competências e obrigações de cada parte.
Aqui e ali, há publicações destinadas a apresentar sua trajetória profissional e política. O eixo principal, contudo, continua sendo a oposição à administração municipal. Marcos tenta preservar o espaço conquistado como candidato a prefeito e se apresentar como uma voz de fiscalização, mesmo buscando agora uma vaga na Assembleia.
FABRÍCIO E ZÉ: CONSERVAR E AMPLIAR BASES
Fabrício Falcão e Zé Raimundo partem de uma posição diferente dos demais. Os dois estão no quarto mandato e tentam permanecer na Assembleia Legislativa. Não precisam convencer o eleitor de que suas candidaturas existem ou de que possuem condições mínimas de disputar uma cadeira.
Em 2022, Zé Raimundo recebeu 87.695 votos na Bahia, sendo 32.009 em Vitória da Conquista. Fabrício foi eleito com 57.903 votos no estado e teve 11.315 no município.
Os perfis dos dois mostram uma campanha de afirmação e consolidação. Há reuniões em Vitória da Conquista, contatos com lideranças municipais, visitas a cidades da região, participação em festas, encontros políticos e agendas relacionadas aos mandatos.
Fabrício tem dado destaque à organização de apoiadores e às relações construídas com representantes de diferentes municípios. Uma plenária realizada em Vitória da Conquista, apresentada com a expressão “Tô com Fabrício”, foi divulgada como um encontro de lideranças e articulação política regional.
Zé Raimundo combina a atuação parlamentar, a presença em municípios e os compromissos partidários. O perfil reforça sua ligação com o PT, o governador Jerônimo Rodrigues e o presidente Lula, além da parceria política mantida com o deputado federal Waldenor Pereira.
Nos dois casos, a tarefa é conservar os espaços já construídos, recuperar eventuais perdas e ampliar as alianças. A campanha não começa do zero: parte de mandatos, votações anteriores e relações políticas mantidas durante os quatro anos entre uma eleição e outra.
QUINHO: ACESSO AO GOVERNO
Quinho Tigre também apresenta uma rede de reuniões, viagens e contatos políticos. Sua principal mensagem, entretanto, é a capacidade de articulação junto ao governo do estado.
Ex-prefeito de Belo Campo e ex-presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Quinho procura demonstrar proximidade com o governador Jerônimo Rodrigues, o ministro Rui Costa (PT), o senador Otto Alencar (PSD) e prefeitos da região. As publicações associam essa presença política à obtenção de obras, equipamentos e investimentos para os municípios.
A mensagem transmitida é relativamente simples: por conhecer o funcionamento do governo e ter acesso às principais autoridades estaduais, Quinho teria condições de abrir portas e encaminhar demandas.
Ao mesmo tempo, ele procura mostrar que sua candidatura não está limitada a Belo Campo ou aos municípios onde construiu relações como prefeito e dirigente da UPB. Reuniões, eventos e aparições em Vitória da Conquista servem para afirmar que também possui presença e capacidade de articulação no maior colégio eleitoral do Sudoeste.
Sua comunicação, portanto, reúne duas necessidades. A primeira é preservar a imagem de liderança regional. A segunda é convencer o eleitor conquistense de que não se trata apenas de um candidato de uma cidade vizinha tentando buscar votos no município.
ISAAC PRECISA SE APRESENTAR
Isaac Nolasco ocupa o ponto mais inicial dessa disputa. Aos 28 anos, ele concorre pela primeira vez, mudou-se para Vitória da Conquista em 2025 e passou a atuar como porta-voz local do Movimento Brasil Livre. Sua candidatura foi homologada pelo Missão, partido criado por integrantes do MBL e registrado pelo TSE no fim do ano passado
O perfil ainda não mostra uma rede ampla de apoios, uma agenda territorial extensa ou uma movimentação comparável à dos candidatos com maior experiência. As publicações estão mais voltadas para a apresentação do próprio Isaac, para críticas aos grupos políticos tradicionais e para as posições defendidas pelo novo partido,
Isso não impede que a candidatura cresça durante a campanha, mas mostra que Isaac ainda precisa cumprir uma etapa que os demais já superaram total ou parcialmente: tornar-se conhecido, explicar por que é candidato e construir uma base política e eleitoral identificável.

ILUSTRAÇÕES PRODUZIDAS COM AUXÍLIO DO CHAPGPT, QUE TAMBÉM PARTICIPOU DA MATÉRIA


