Anitta, a mulher necessária: a coragem de ser livre em um Brasil intolerante – Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças
Não sou público-alvo das músicas de Anitta, admito sem rodeios. Se você me pedir para nomear três álbuns da sua discografia, provavelmente vou titubear. Sua sonoridade não preenche meus fones de ouvido no dia a dia e seu estilo musical passa longe do meu gosto pessoal. No entanto, é absolutamente impossível ignorar o fenômeno sociocultural que essa mulher representa. Para além das métricas de streaming e dos recordes internacionais, Anitta se consolidou como uma figura profundamente necessária no debate público brasileiro.
A polêmica da vez gira em torno de sua turnê Equilibrivum. Ao levar para os palcos uma concepção estética e performática fortemente enraizada no Candomblé, com coreografias que evocam elementos ritualísticos e a simbologia da incorporação, a cantora reacendeu uma fogueira de opiniões inflamadas. De um lado, setores cristãos mais conservadores manifestam o preconceito histórico e o racismo religioso que infelizmente ainda estruturam boa parte da nossa sociedade, enxergando na manifestação da fé alheia algo a ser combatido. Do outro, até mesmo entre praticantes do Candomblé surgem debates acalorados sobre os limites entre o sagrado e o profano, a espetacularização e o respeito às tradições dos terreiros.
É justamente no centro desse furacão que a presença de Anitta se faz indispensável. Não porque ela precise agradar a gregos e baianos, mas porque ela se recusa a pedir licença para existir em sua totalidade. Em um país que ocupa lugares vergonhosos nos índices de intolerância religiosa e feminicídio, ver uma artista de massa expor sua fé de matriz africana sem amarras e sem medo do boicote é um ato de coragem política indisfarçável. Ela não esconde sua religiosidade para parecer mais palatável ao mercado; ela a escancara.
Essa postura diante da religião é apenas o desdobramento de uma atitude que Anitta sempre adotou em relação ao próprio corpo e à sua sexualidade. A artista vive sua liberdade de forma ostensiva e sem desculpas, algo que o patriarcado brasileiro custa a perdoar. Quando uma mulher assume o controle de sua narrativa, ganha o próprio dinheiro e fala abertamente sobre seus desejos, ela quebra a estrutura machista que prefere mulheres recatadas e submissas. O ódio desmedido que ela muitas vezes desperta não é por conta da qualidade de um refrão ou da batida de um funk, mas pela audácia de ser livre num sistema que lucra com a culpa feminina.
Não é preciso ser fã de sua arte para admirar a inteligência estratégica e a espinha dorsal de quem enfrenta batalhas gigantescas de queixo erguido. Anitta apanha diariamente na arena pública, mas devolve os golpes pautando discussões relevantes sobre liberdade de expressão, racismo religioso, empoderamento e autonomia corporal. Sua caminhada é um lembrete incômodo e urgente de que as mulheres podem, devem e têm o direito de ocupar todos os espaços exatamente como são, sem pedir permissão ao julgamento moralista da sociedade.
Anitta incomoda porque escancara as contradições de um Brasil que se diz aberto, mas que ainda se amedronta diante da força de uma mulher dona de si. Queira o público ou não, sua existência no topo da cultura pop é um ato de resistência e um sopro de liberdade que beneficia a todas as mulheres, inclusive aquelas que a criticam.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE: REPRODUÇÃO INSTAGRAM DE ANITTA
As opiniões manifestadas pelos artigos publicados não representam, necessariamente, a opinião deste BLOG. São uma forma de estimular o debate e o pensamento, estando o espaço aberto para outras manifestações de articulistas (independente de partido ou ideologia política) interessados em discutir o momento da vida nacional.


