Em artigo ‘Da rejeição ao patrimônio’ Fábio Sena comenta a saga do Cristo da Serra do Periperi, obra de Mário Cravo, e o trata pelo seu melhor nome

Em artigo ‘Da rejeição ao patrimônio’ Fábio Sena comenta a saga do Cristo da Serra do Periperi, obra de Mário Cravo, e o trata pelo seu melhor nome

No artigo “Da rejeição ao patrimônio: a saga do Cristo de Mário Cravo”, publicado na edição do jornal A Tarde deste sábado (12), o jornalista Fábio Sena dá uma contribuição sem medida à história do monumento e de Vitória da Conquista. Historiador, museólogo e um dos líderes do processo de tombamento da obra, ele percorre os mais de 60 anos entre a concepção da escultura e seu reconhecimento como patrimônio para mostrar como aquilo que nasceu sob estranhamento e rejeição acabou incorporado à identidade da cidade.

Fábio faz uma leitura que só poderia ser construída por quem se dedicou a estudar a concepção da obra, a personalidade de Mário Cravo Júnior e as circunstâncias em que o monumento foi pensado, interrompido, retomado e finalmente instalado na Serra do Periperi, em 1980.

O artigo explica por que aquele Cristo magro, de ossos aparentes, músculos tensionados, pés enormes e rosto marcado pelo sofrimento contrariava a representação religiosa a que as pessoas estavam acostumadas. A rejeição inicial, com direito a apelido de “Cristo feio”, medo entre crianças e até pedradas, não era um efeito imprevisto da obra. Havia nela uma intenção de romper com a imagem serena e harmoniosa de Cristo e provocar reflexão.

Fábio recupera também um personagem fundamental nessa história. Em 1963, quando a escultura ainda era projeto, Camillo de Jesus Lima escreveu no mesmo A Tarde que aquele Cristo não poderia sorrir. Deveria ser um “feixe de ossos”, expressão do sofrimento e das injustiças sociais. O poeta percebeu antes de muita gente o que Mário Cravo pretendia colocar no alto da serra.

Décadas fizeram o restante do trabalho. O monumento deixou de provocar apenas estranhamento e passou a integrar fotografias, romarias, caminhadas, cartões-postais e a memória de gerações. Nas palavras de Fábio, tornou-se “referência afetiva da cidade” e passou “a definir a própria identidade visual de Vitória da Conquista”.

É nesse ponto que o artigo encontra uma defesa que faço há anos e sobre a qual escrevi em agosto: reconhecer Mário Cravo Júnior como autor não exige transformar o nome do escultor no nome do monumento. O Cristo é obra de Mário Cravo, mas pertence simbolicamente à cidade, à serra e às gerações que fizeram dele uma referência de Vitória da Conquista.

Fábio tem lido Mário Cravo até arder os olhos, sensíveis como sua alma de pertencimento. Talvez por isso, depois de demonstrar a importância do artista e defender que o tombamento é também uma homenagem definitiva ao seu gênio criador, tenha escolhido no último parágrafo uma denominação que diz muito.

“Tombar o Cristo da Serra do Periperi significa prestar uma homenagem definitiva ao gênio criador de Mário Cravo Júnior”, escreveu.

Está tudo aí: o autor é Mário Cravo Júnior, a homenagem ao artista é incontestável. Mas o monumento, quando Fábio precisa nomeá-lo justamente no momento em que fala de sua incorporação definitiva ao patrimônio da cidade, é o Cristo da Serra do Periperi.

No meu artigo de agosto, lembrei que o próprio Mário Cravo o chamou de “Cristo Crucificado de Vitória da Conquista” e defendi que autoria e denominação não precisam disputar espaço. O nome do artista deve estar nas placas, nos livros, nos guias e em toda narrativa sobre a obra. O nome do monumento pode dizer onde ele nasceu para o mundo e a quem passou a pertencer afetivamente.

O artigo de Fábio expõe seu rico vocabulário sobre a história da arte e acrescenta elementos preciosos à história da escultura. Mas termina também como uma assinatura de pertencimento.

Viva o Cristo da Serra do Periperi.

Fábio Sena é esse de verde, entre amigos: Matheus Silveira, o saudoso Frarley Nascimento, o autor deste artigo e o eterno Massinha

LEIA O ARTIGO DE FÁBIO SENA COMO SAIU EM A TARDE

Da rejeição ao patrimônio: a saga do Cristo de Mário Cravo

O Conselho de Cultura acatou recomendação do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico de Vitória da Conquista para tombamento do Monumento ao Cristo de Mário Cravo. Poucos monumentos brasileiros nasceram cercados por tamanho estranhamento.

Concebido em 1963, por iniciativa do então prefeito José Pedral Sampaio, o projeto permaneceu interrompido durante quase duas décadas, até ser instalado em 1980, no alto da Serra do Periperi. O que se viu erguer-se naquele 9 de novembro não era apenas uma escultura monumental: era um discurso pregado na cruz.

Enquanto a tradição sacra ocidental impregnara a subjetividade católica de um Cristo harmonioso, sereno e idealizado, Mário Cravo fez justamente o contrário: um Cristo macérrimo, de ossos aparentes, pés enormes, músculos tensionados e rosto consumido pela dor.

A ruptura estética provocou reações intensas e não foram poucos os que o chamaram de “Cristo feio”; houve quem o considerasse assustador e até quem o apedrejasse. Crianças tinham horror à escultura. Parte da população rejeitava uma imagem que contrariava séculos de uma gramática visual construída para suavizar o sofrimento de Cristo. E era justamente esse o propósito do artista: romper com a contemplação passiva para provocar reflexão.

Décadas antes de o patrimônio ser oficialmente discutido, o escritor Camillo de Jesus Lima compreendeu a grandeza daquela proposta e, em artigo publicado aqui neste A Tarde, em 1963, afirmou que a escultura não poderia ser de um Cristo sorrindo, mas um “feixe de ossos”, “todo angústia, todo sofrimento”, expressão da religiosidade de um povo marcado pelas injustiças sociais.

O tempo fez aquilo que a polêmica inicial não permitiu: o monumento deixou de ser apenas uma escultura para converter-se em referência afetiva da cidade; tornou-se cenário de romarias, caminhadas, fotografias, cartões-postais e memória compartilhada entre gerações. O que antes causava estranhamento passou a definir a própria identidade visual de Vitória da Conquista.

O tombamento – diga-se – não é instrumento para preservar concreto, fibra de vidro e aço, mas uma ideia, reconhecendo que o patrimônio nasceu da ousadia, da ruptura estética e da capacidade de desafiar consensos que pareciam inabaláveis.

Tombar o Cristo da Serra do Periperi significa prestar uma homenagem definitiva ao gênio criador de Mário Cravo Júnior, cujo Cristo nunca pretendeu confortar os olhos ou a mera contemplação passivo-religiosa. Queria – e conseguiu – inquietar consciências. E talvez seja exatamente por isso que, passados mais de quarenta anos, continua tão vivo quanto no dia em que começou a assombrar (e, depois, a representar) a cidade.

Fábio Sena é historiador, museólogo e doutorando em Linguística/Análise do Discurso

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