Em menos de 24 horas, Brasil perde Laura Cardoso, aos 98, e Glória Menezes, aos 91, duas pioneiras da televisão


Em menos de 15 horas, a dramaturgia brasileira perdeu duas mulheres que ajudaram a construir a televisão quando ela ainda aprendia a existir no país. Laura Cardoso morreu às 23h24 de segunda-feira (17), aos 98 anos, em sua casa, em São Paulo. Glória Menezes morreu na tarde desta terça-feira (18), aos 91 anos.
Não eram apenas duas atrizes que envelheceram diante das câmeras. Laura já fazia rádio quando a televisão brasileira foi inaugurada e entrou para o elenco pioneiro da TV Tupi em 1952. Glória começou profissionalmente no fim dos anos 1950 e, em 1963, protagonizou ao lado de Tarcísio Meira 2-5499 Ocupado, considerada a primeira telenovela diária do país. As duas chegaram a trabalhar juntas em Um Lugar ao Sol, na Tupi, em 1959, e voltariam a aparecer na mesma novela 45 anos depois, em Senhora do Destino.
As mortes quase consecutivas produziram uma sucessão de homenagens de atores, autores e profissionais que conviveram com elas. Luis Miranda resumiu o sentimento ao falar em “duas gigantes, duas histórias eternas”, enquanto Beth Goulart registrou simplesmente: “Que dia triste”.
Laura Cardoso
Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu em São Paulo em 13 de setembro de 1927, filha de imigrantes portugueses. Ainda menina, no Bixiga, gostava de recitar e representar para a família e os colegas. Aos 15 anos, contrariando inicialmente a resistência dos pais, começou como atriz de radionovelas na Rádio Cosmos. Passou também pelas rádios Tupi, Bandeirantes e Cultura e chegou a fazer pequenas apresentações em circos da periferia de São Paulo, numa época em que o rádio era a principal escola dos atores que depois formariam a primeira geração da televisão brasileira.
Em 1952, Laura estreou na recém-inaugurada TV Tupi em Tribunal do Coração e integrou por 15 anos o elenco fixo de teleteatros da emissora. Participou de programas como TV de Vanguarda, TV de Comédia e Grande Teatro Tupi, todos feitos sob as limitações e a tensão da televisão ao vivo. Trabalhou também na Excelsior, Record, Bandeirantes e Cultura antes de chegar à Globo, em 1981, como Alda Sampaio, de Brilhante, novela de Gilberto Braga.
Foi na televisão que se tornou um rosto familiar a sucessivas gerações. Entre dezenas de personagens estão Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel em Mulheres de Areia; a perturbada Guiomar de A Viagem; Sinhana em Irmãos Coragem; a avó Carmem de Chocolate com Pimenta; a matriarca indiana Laksmi de Caminho das Índias; a beata Dorotéia de Gabriela; Dona Sinhá, a vilã de Sol Nascente; e Matilde, de A Dona do Pedaço, sua última novela, em 2019. Laura participou de mais de cem trabalhos para a televisão e é apontada como recordista de novelas no país.
A televisão lhe deu popularidade, porém Laura nunca tratou o teatro como atividade secundária. Estreou nos palcos profissionais em 1959 e recebeu dois prêmios Shell de melhor atriz, por Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, em 1990, e Vereda da Salvação, em 1993. No cinema, fez mais de 20 filmes, entre eles Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas, Através da Janela, de Tata Amaral, e Copacabana, de Carla Camurati. Em 2006 recebeu a Ordem do Mérito Cultural e, em 2023, o Troféu Oscarito pelo conjunto da obra no Festival de Gramado. Mesmo depois de deixar as novelas, voltou a atuar no curta Dona Rosinha, lançado em 2025.
A longevidade de Laura não era apenas biológica. Ela conservou até muito tarde a disposição de aprender textos, estudar personagens e voltar ao set, resistindo à ideia de aposentadoria. Defendia uma atuação subordinada ao personagem e ao que havia sido escrito pelo autor, postura que a Folha definiu como uma espécie de “humildade operária” diante do ofício. Em outubro de 2025, aos 98 anos, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.
Laura foi casada com o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, que conheceu na Rádio Tupi e morreu em 1980. O casal teve Fátima Carolina, Fernanda e José, que morreu apenas três dias depois de nascer. Laura deixou duas filhas, duas netas, Cláudia e Adriana, e o bisneto Fernando Faria, responsável nos últimos anos por suas redes sociais e por comunicar publicamente a morte da bisavó. As filhas viviam no mesmo prédio que ela, em Perdizes, e permaneceram próximas durante seus últimos anos.
A comoção entre os colegas expôs a dimensão que Laura tinha dentro da própria profissão. Tony Ramos, que a conheceu quando ainda era adolescente na TV Tupi, disse que não conseguiria retirá-la “da retina” nem da alma e a chamou de “rainha da TV”. Fernanda Montenegro, que contracenou com ela em O Outro Lado do Paraíso, repetiu duas vezes uma palavra para defini-la: “insubstituível”. Gloria Pires, sua filha em Mulheres de Areia, lembrou a “mãe postiça” como parceira irreverente, humana, generosa e sábia, e agradeceu pelo que aprendeu com ela.

Glória Menezes
Glória Menezes nasceu Nilcedes Soares de Magalhães em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934. O prenome resultava da combinação dos nomes dos pais, Nilo e Mercedes. Aos seis anos, mudou-se com a família para São Paulo e, já adulta, ingressou na Escola de Arte Dramática, onde ajudou a criar o grupo Jovens Independentes. Em 1959, no início da carreira profissional, recebeu prêmio de atriz revelação e fez seu primeiro trabalho na televisão, em Um Lugar ao Sol.
A projeção veio rapidamente e em diferentes meios. Antunes Filho a dirigiu no teatro, inclusive em As Feiticeiras de Salém, de Arthur Miller. Anselmo Duarte a levou para o cinema como Rosa, mulher de Zé do Burro, interpretado por Leonardo Villar, em O Pagador de Promessas. Lançado em 1962, o filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebeu indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, colocando Glória também dentro de uma das páginas mais importantes da história do cinema brasileiro.
No ano seguinte, Glória e Tarcísio Meira protagonizaram 2-5499 Ocupado, na TV Excelsior, primeira novela diária da televisão brasileira. Os dois haviam se conhecido nos bastidores da TV Tupi, apaixonaram-se e construíram uma parceria profissional que se confundiria com a vida pessoal. Casaram-se e permaneceram juntos por 59 anos, até a morte de Tarcísio, em 2021, por complicações da Covid-19.
Na Globo, onde estreou em 1967, Glória atravessou mais de cinco décadas e atuou em mais de 40 novelas. Fez Doña Sol em Sangue e Areia, interpretou três personalidades diferentes, Lara, Diana e Márcia, em Irmãos Coragem, viveu Ana Preta em Pai Herói, participou de Guerra dos Sexos e Brega & Chique e criou uma de suas personagens mais lembradas, a aristocrata falida Laurinha Figueroa, vilã de Rainha da Sucata. Também esteve em Deus nos Acuda, A Próxima Vítima, Torre de Babel, O Beijo do Vampiro, Senhora do Destino, Páginas da Vida e A Favorita.
Sua importância não se resume à quantidade de personagens. Críticos e historiadores da televisão apontam Glória como uma das atrizes que ajudaram a abandonar a interpretação excessivamente marcada herdada do rádio e a consolidar diante das câmeras uma atuação mais contida, apoiada em gestos econômicos, modulação de voz, silêncios e expressão no close. Em Irmãos Coragem, a passagem entre três personalidades dentro da mesma personagem tornou-se uma demonstração dessa técnica.
Glória deixou as novelas depois de interpretar Stelinha em Totalmente Demais, exibida entre 2015 e 2016, embora posteriormente ainda tenha feito participações na televisão e recebido homenagens. Em 2025 foi tema da série documental Tributo. Seis dias antes de morrer, ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Não compareceu à cerimônia e foi representada por Tarcísio Filho, que explicou que a mãe se emocionaria demais naquele 12 de agosto, data que marcava exatamente cinco anos da morte de Tarcísio Meira.
Glória era mãe de três filhos. Maria Amélia e João Paulo nasceram de seu primeiro casamento, com Arnaldo Brito. Tarcísio Filho, que seguiu a carreira dos pais como ator, nasceu da união com Tarcísio Meira. Depois da morte do marido, Glória passou a viver mais próxima dos filhos e fez poucas aparições públicas. Morreu em casa, no Rio, e, até o início da noite desta terça-feira, a família ainda não havia divulgado informações sobre velório e despedida.
As mensagens publicadas poucas horas depois da morte mostraram a força da memória deixada entre os colegas. Tony Ramos, que trabalhou com Glória em Pai Herói e Rainha da Sucata, disse que o Brasil perdia “uma de suas maiores atrizes e uma referência”. O autor Silvio de Abreu afirmou dever a ela muito de sua própria carreira e de seus sucessos, lembrando trabalhos que fizeram juntos desde Jogo da Vida. Susana Vieira escreveu que sentiria saudade de “Glorinha”, enquanto Bruna Lombardi a definiu como “uma força de mulher” e disse que a televisão lhe devia um busto em praça pública.
As duas que se despediram em dias consecutivos já tinham se encontrado quando quase tudo ainda estava por ser inventado. Em 1959, Laura Cardoso e Glória Menezes estavam juntas diante das câmeras da TV Tupi em Um Lugar ao Sol. Mais de quatro décadas depois, em 2004, ambas chegaram a Senhora do Destino, agora dentro de uma televisão consolidada, em cores, nacional e transformada em indústria. Entre uma imagem e outra cabe praticamente a história inteira da teledramaturgia brasileira.

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