Opinião | Sobre pesquisas eleitorais: não deixe a boca do jacaré engolir você; pesquisa é o retrato de um momento, não uma sentença

Opinião | Sobre pesquisas eleitorais: não deixe a boca do jacaré engolir você; pesquisa é o retrato de um momento, não uma sentença

Entre sábado e esta segunda-feira (24), o eleitor recebeu duas informações sobre a disputa para o governo do estado que, se tratadas como um simples placar, parecem pertencer a eleições diferentes. Uma pesquisa do Instituto Veritá mostrou ACM Neto (União Brasil) com 56,1% e Jerônimo Rodrigues (PT) com 35,8%, uma vantagem de 20,3 pontos para o primeiro. Hoje, levantamento do Opnus/BNews apresentou Jerônimo com 43% e Neto com 40% em um dos cenários estimulados, empate técnico.

É quase impossível fugir às perguntas diante de dois quadros tão diferentes. Qual fato novo aconteceu na Bahia capaz de produzir tamanha mudança no humor do eleitorado? Que acontecimento político teria retirado mais de 20 pontos de diferença entre os dois principais candidatos em tão pouco tempo? As perguntas ganham mais força quando se observa que não estamos comparando uma pesquisa feita no começo do mês com outra realizada agora. O Veritá foi a campo entre os dias 15 e 19 de agosto; o Opnus, entre 17 e 22. Nos dias 17, 18 e 19, os dois levantamentos estavam sendo realizados simultaneamente.

E há mais um ingrediente nessa salada de números. A Data Trends ouviu 1.200 eleitores entre os dias 15 e 17 e encontrou ACM Neto com 43% e Jerônimo com 41%, diferença de apenas dois pontos, também dentro da margem de erro. Ou seja, enquanto uma pesquisa encontrava uma vantagem superior a 20 pontos para Neto, outra, realizada em parte exatamente nos mesmos dias, mostrava os dois tecnicamente empatados. Depois veio uma terceira apontando, também dentro da margem de erro, Jerônimo numericamente à frente.

Não vou entrar aqui na discussão sobre qual das três está certa, qual está errada ou qual está mais perto da realidade. Nem acho que esse seja o ponto mais importante para o eleitor. Empresas diferentes usam metodologias diferentes, constroem amostras diferentes, fazem ponderações, selecionam áreas, definem procedimentos de campo e abordam os entrevistados de formas que podem produzir resultados distintos. Uma ouviu 2.020 pessoas, as outras duas 1.200. Quanto maior a amostra, em princípio menor a margem de erro amostral, mas quantidade de entrevistas, sozinha, não é atestado de qualidade nem garantia de acerto.

O que me chama mais a atenção é o poder que demos às pesquisas eleitorais e, principalmente, aos dois ou três números que ganham as manchetes. Para boa parte do público, pesquisa virou placar. É 3 a 1, 5 a 4, abriu dez, caiu cinco, encostou, passou, disparou. Poucos vão além. E isso não acontece apenas com o eleitor que recebe a notícia pelo WhatsApp, pelo Instagram, por um blog ou pela televisão. Nos gabinetes, nos comitês, entre dirigentes, candidatos, aliados e militantes, não é raro que a primeira reação também seja ao placar.

Só que pesquisa não é jogo de futebol. Num jogo, se está 3 a 1, alguém fez três gols e o adversário fez um. Não existe margem de erro capaz de transformar aquele resultado em 2 a 2. Na pesquisa eleitoral, 43% a 40%, por exemplo, não significa que um candidato esteja efetivamente três pontos à frente do outro. Há margem de erro, há indecisos, há eleitores que podem mudar de opinião e, muito além disso, há todo um conjunto de informações que quase nunca participa da conversa que se forma depois da divulgação.

Quantos eleitores escolheram espontaneamente o candidato? Quantos só o escolheram depois que receberam uma lista de nomes? Qual é a rejeição? Quantos dizem que o voto é definitivo e quantos admitem mudar? Como os candidatos aparecem nas diferentes regiões do estado? O desempenho muda por gênero, renda, idade, escolaridade? Como foi montada a amostra? Onde as entrevistas foram realizadas? Tudo isso dá profundidade ao levantamento, mas quase sempre perde a corrida para o número que vai para a manchete.

E é justamente esse número que produz euforia ou depressão. A boca do jacaré apareceu escancarada para ACM Neto na semana passada. Fechou em um sorriso para Jerônimo nesta segunda-feira. De um lado, correligionários se animam, militantes ganham combustível, aliados reaparecem e a campanha recebe um impulso psicológico importante. Do outro, pode se instalar a dúvida, a militância perder entusiasmo e aparecerem cobranças sobre estratégia. Pesquisa mede o ambiente eleitoral, mas, depois de divulgada, também passa a fazer parte dele.

Por isso é tão importante não receber pesquisa como sentença. Não faz sentido um eleitor de Jerônimo comemorar hoje como se a eleição estivesse ganha porque o Opnus o colocou numericamente na frente. Da mesma forma, não fazia sentido um eleitor de ACM Neto olhar para os 20,3 pontos mostrados pelo Veritá e concluir que a disputa estava resolvida. E menos sentido ainda faz o eleitor que ainda está decidindo em quem votar escolher um candidato apenas porque lhe disseram que ele está ganhando na pesquisa.

Não há motivo para colocar todas as empresas no mesmo saco nem para considerar que toda pesquisa é uma fraude por definição. Há institutos de grande competência, profissionais qualificados e levantamentos feitos com rigor. Também existem pesquisas melhores e piores, métodos que funcionam mais ou menos em determinadas situações e, como em qualquer atividade humana, possibilidade de erro. O problema é transformar um retrato, feito dentro de determinadas condições e em determinado período, na fotografia definitiva de uma eleição que continua em movimento.

Talvez a melhor utilidade de pesquisas tão diferentes, realizadas praticamente ao mesmo tempo, seja exatamente esta: lembrar que nenhuma delas é a urna. Quem quiser entender melhor a disputa pode olhar todas, comparar tendências, observar metodologia, acompanhar séries e esperar os levantamentos seguintes. O que não parece razoável é escolher a pesquisa de que mais gosta, comemorar a que favorece o seu candidato e declarar imprestável aquela que traz o resultado contrário.

Para quem já colocou adesivo no carro, praguinha na camisa, balança bandeira e vai a todos os eventos, talvez os números sirvam apenas para aumentar ou diminuir o entusiasmo. Mas existe um eleitor que não está em comitê, não participa de grupo político, não tem candidato de estimação e ainda está formando sua opinião, e a esse, pesquisa pode informar, nunca deveria comandar.

A pesquisa mais importante para esse eleitor continua sendo o que ele conhece dos candidatos, o que vê ao seu redor, o que pensa das propostas apresentadas, o que sabe da trajetória de cada um e aquilo que considera melhor para a Bahia. Os levantamentos podem ajudar a compreender o momento, mas são possibilidades restritas às condições em que foram feitos.

Daqui a alguns dias, outros números virão. A boca do jacaré poderá aparecer mais aberta, mais fechada ou virada para o outro lado. E começarão novamente os fogos, as explicações, a festa de uns e a ducha de água fria nos outros.

Calma. É só pesquisa. A eleição ainda será decidida pelo eleitor, que espero que não se deixe engolir pela boca do jacaré antes da hora.

Quer saber o que é a boca do jacaré?

No jargão das pesquisas e dos marqueteiros políticos, a “boca do jacaré” é a distância entre os dois principais candidatos. Quanto maior a diferença percentual, mais aberta a boca; quanto mais eles se aproximam, mais ela se fecha.

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