Além dos limites, sem sair de Vitória da Conquista: Jardel Couto amplia projeto do pai e leva a VCA longe, mas deixar a cidade está fora de cogitação


Era noite de quinta-feira (20), havia muita gente na frente da sede da empresa, na Avenida Olívia Flores, onde dominavam a música e um clima alegre que já se parece com a VCA dos comerciais de televisão e dos anúncios de outdoor. Era o Esquenta FIB, evento realizado 24 horas antes do Festival de Inverno Bahia, que começaria no dia seguinte, em Vitória da Conquista.
Jardel Couto, CEO da construtora, chegou perto das 20h00 para falar com Antônio Sena, do Blog do Sena, o mais acessado da cidade. E o BLOG DE GIORLANDO LIMA pegou carona.
A entrevista não estava marcada, embora fosse um plano antigo do BLOG. À vontade, blusa de moletom com a marca VCA estampada, calça jeans e tênis, como o momento de festa autorizava e parece ser sua marca pessoal, o empresário nos conduziu por um elevador até uma sala espaçosa, mais afastada do som alto e do burburinho da festa lá embaixo. No lugar, fica uma versão ampliada dos micro-markets que a empresa instala em seus condomínios.
A conversa durou meia hora, com 21min12 de gravação. Segundo crenças das redes sociais, sem qualquer embasamento científico, os números invertidos da hora podem ser associados ao fechamento de um ciclo e início de outro (por juntar ‘encerramento’ do 21 com ‘renovação’ do 12); a equilíbrio entre razão e intuição; sinal para confiar mais no próprio caminho/decisões que já foram tomadas. Nem falei disso com Jardel, porque me arriscaria a me deparar com a reação do publicitário que vê leveza nas situações, ou do engenheiro incorporado, cartesiano, que poderia esboçar apenas um “quá!”.
Curiosidades da numerologia à parte, no bate-papo com o BLOG DE GIORLANDO LIMA, Jardel Couto falou da VCA como quem continua desenhando, com traços próprios e cada vez mais largos, um projeto cujos primeiros riscos foram feitos pelo pai, Gedel Couto. Fundador e idealizador da construtora criada em Vitória da Conquista em 2012, Gedel definiu a base de uma empresa que relacionava moradia a conforto, qualidade de vida e família. Em 2026, 14 anos depois, o filho acrescenta ao desenho a visão de quem quer levá-lo muito além dos limites da cidade onde nasceu, mas sem apagar a origem nem mudar o endereço de onde partem as decisões.
Nos pouco mais de 20 minutos de conversa, Jardel trocou de papel sem cerimônia: o publicitário que pensa a marca e a forma de conversar com públicos diferentes, o homem da construção que discute terreno, quintal, luz solar e verticalização, o executivo que passa por juros, governança, crédito e Faria Lima e o conquistense que, depois de levar a VCA a 16 cidades do Nordeste, diz que transferir a sede de Vitória da Conquista está “fora de cogitação”.
A empresa chegou em 2026 à 16ª posição entre as maiores construtoras do Brasil, a terceira do Nordeste e a primeira da Bahia no Ranking INTEC. Vitória da Conquista, porém, ainda representa entre 22% e 24% de toda a operação, segundo Jardel. “Estamos aqui, somos conquistenses, filhos da terra e conhecemos profundamente o mercado”, afirma. Ao explicar a força que a empresa mantém na cidade, ele também volta ao pai e à credibilidade construída por Gedel ao longo da vida empresarial. É dessa base que pretende continuar crescendo.
Jardel conta que a VCA recebe convites para atuar em grandes capitais, em cidades do Centro-Oeste e do Sudeste, mas escolheu concentrar a expansão principalmente nas cidades médias do Nordeste. Em Ilhéus, está no terceiro empreendimento e, segundo ele, outros cinco ou seis já estão “engatilhados”. Petrolina e Caruaru estão entre os mercados que recebem maior atenção, enquanto Porto Seguro e Prado integram a presença da construtora no litoral.
A FARIA LIMA
Quando a conversa passou pela transformação da VCA em sociedade anônima, o BLOG quis saber se isso significava abertura de capital e entrada na Bolsa de Valores. Jardel responde que não, que a VCA é uma S.A., mas de capital fechado, e resume outra etapa do crescimento em uma frase: “Eu fui buscar a Faria Lima”, em referência é ao principal centro do mercado financeiro brasileiro.
O executivo explica que, como toda empresa, a VCA precisa realizar operações financeiras e, no caso de nossos empreendimentos, é isso o que significa buscar a Faria Lima. E faz questão de enfatizar que, em nenhum momento, pensa na Avenida Faria Lima, na capital paulista, ou em qualquer outro endereço como destino da empresa, mas como ferramenta para aproximar a VCA de estruturas financeiras capazes de viabilizar empreendimentos e ampliar as alternativas oferecidas aos compradores.
“Hoje, mais do que você falar de localização, de qualidade do produto, é necessário você falar de recurso financeiro para fazer o empreendimento imobiliário acontecer”, diz. Com taxas de juros que classifica como “proibitivas”, Jardel afirma que a aproximação com o mercado financeiro se tornou essencial para uma construtora que pretende continuar crescendo sem depender apenas das formas tradicionais de financiamento.
A profissionalização, segundo ele, inclui a condição de sociedade anônima de capital fechado, balanço auditado pela KPMG e um nível maior de governança. Jardel diz que essa estrutura busca dar segurança ao mercado e aos clientes. Foi buscar a Faria Lima para aproximá-la de uma empresa comandada a partir de Vitória da Conquista, não para aproximar a VCA de uma mudança para São Paulo.
DOIS EXTREMOS
É também olhando para o crédito que Jardel identifica um espaço que considera pouco atendido. De um lado, estão os empreendimentos voltados ao Minha Casa, Minha Vida, beneficiados por crédito mais barato e subsídios. No outro extremo, os imóveis de altíssimo padrão, comprados por um público menos sensível aos juros porque dispõe de mais recursos próprios.
Entre essas duas pontas, diz ele, existe um consumidor que quer melhorar de moradia, mas precisa de produtos e condições financeiras adequados. A VCA atua em uma faixa ampla de compradores: desde quem recebe um salário mínimo e pode ter acesso a até R$ 55 mil de subsídio federal até quem busca imóveis que se aproximam de R$ 1 milhão.
BOLHA
Publicitário de formação, ele descreve quase como etapas de construção de reputação. Primeiro, o mercado pergunta se a empresa vai entregar. Depois, se o produto terá qualidade. Mais adiante, se conseguirá manter o ritmo. “Só há uma forma de superar tudo isso: trabalho e paciência”, afirma. Também cita a relação com a Caixa, a estrutura financeira da empresa e a posição alcançada entre as maiores construtoras do país.
Quando o termo ‘bolha’ entra na discussão, Jardel é didático. Ele se refere à dúvida de quem olha para a quantidade de novos empreendimentos e questiona se Vitória da Conquista tem gente suficiente para ocupar tantas moradias. “Muitas pessoas não conseguem dimensionar o tamanho do mercado imobiliário. Já ouvi pessoas de grande capacidade intelectual perguntarem onde vamos colocar tantas pessoas para morar, diante da quantidade de casas construídas em Vitória da Conquista.”
Ele responde comparando o mercado local ao de Caruaru, cidade do Agreste pernambucano, com uma população parecida com a de Conquista mas um mercado três vezes maior. Também lembra o déficit habitacional existente aqui e diz que a demanda não se limita a quem ainda não tem casa. Inclui quem mora em um imóvel menor e busca outro maior ou melhores condições de vida.
Quando fala dos condomínios da própria VCA, chama atenção para outro detalhe: são poucas, às vezes quase inexistentes, as placas de “vende-se” ou “aluga-se”. A observação interessa não apenas como sinal de ocupação, mas também como evidência, na leitura dele, de que quem compra permanece no imóvel. A casa não seria apenas um produto que passa rapidamente de mão em mão, mas um lugar em que o comprador decide ficar.
“Não existe bolha no mercado imobiliário de Vitória da Conquista. Muito longe disso”, afirma. Para Jardel, há uma demanda latente que ainda pode ser atendida.
MAIS CASAS
Essa maneira de pensar a moradia também ajuda a explicar por que a VCA constrói muito mais casas do que apartamentos. Em Vitória da Conquista, especialmente, Jardel não demonstra pressa para entrar na verticalização. Enxerga uma cidade assentada sobre um planalto, relativamente plana e ainda capaz de oferecer boas localizações para condomínios horizontais.
Ele enumera o que considera vantagens difíceis de reproduzir em um apartamento: quintal, incidência de luz solar, espaço e maior liberdade dentro da própria moradia. Para Jardel, a verticalização ganha força principalmente onde a localização obriga a concentrar mais gente em áreas menores. Em Conquista, ele ainda vê espaço para fazer diferente.
A escolha tem mercado, cálculo e leitura urbana, mas também revela como ele pensa o produto. A casa, para Jardel, não termina quando a engenharia entrega paredes e cobertura.
360 GRAUS
É quando fala do que acontece depois da entrega das chaves que o publicitário reaparece quase inteiro. Jardel diz que a VCA tenta olhar o negócio em “360 graus” e que deixou de pensar que uma construtora vende apenas metro quadrado.
A casa que descreve é também a árvore que vai crescer, a piscina em que os filhos vão brincar, o animal de estimação incorporado à família e os hábitos, consumos e lembranças que se formarão naquele endereço. Construção, na visão que apresenta, não é apenas bloco, tijolo ou concreto.
É aí que entram associações que, vistas apenas de fora, poderiam parecer improváveis para uma construtora. Fini, Cimed, Lavanderia OMO, Dux, Snoopy e a Turma do Chaves aparecem no que Jardel chama de “universo VCA”. A empresa procura marcas e personagens capazes de ocupar alguma parte da experiência que imagina para quem vai morar em seus empreendimentos.
Chaves talvez seja a imagem mais evidente da leveza que o publicitário tenta colocar sobre um negócio feito também de concreto, contratos, juros e planilhas. A vila mexicana que atravessou gerações cabe na mesma empresa que busca governança e recursos na Faria Lima.
SEVERINO
Quando a conversa chega à formação de Jardel, publicitário, lembro o “Engenheiro que Virou Suco”, expressão que ficou conhecida a partir da história do engenheiro que, sem emprego na profissão, abriu uma lanchonete na Avenida Paulista. A provocação é saber se, no caso dele, o publicitário teria sido engolido pelo construtor.
“O publicitário sobrevive”, responde. O que aconteceu, segundo Jardel, foi uma multiplicação de papéis. Empreender no Brasil exige ser um “Severino”. No cotidiano da VCA, diz precisar passar pela arquitetura, engenharia, publicidade, financeiro, acompanhamento de obras, aprovação de projetos e relação com órgãos públicos.
A conclusão é de que o publicitário, não virou engenheiro: incorporou um. Incorporou também o executivo que olha juros, financiamento e planilhas. Jardel diz que hoje talvez dedique mais tempo à engenharia do que à comunicação, mas sua forma de falar dos empreendimentos mostra que a cabeça do publicitário continua trabalhando.
A planilha do executivo, a prancheta da construção e Chaves passaram a caber na mesma mesa e, de algum modo, na mesma cabeça.
A CIDADE NO NOME
Essa mistura também ajuda a explicar uma empresa que cresceu para além da cidade sem demonstrar desejo de romper com ela. VCA são as três letras que identificam a construtora e também a abreviação pela qual Vitória da Conquista é reconhecida em aeroportos, estradas, documentos e conversas de quem vive ou circula pela região.
Hoje, essas letras estão em 16 cidades, chegaram ao ranking das maiores construtoras do país e, pelas mãos de Jardel, foram “buscar a Faria Lima”. O projeto iniciado por Gedel Couto ganhou novas linhas, outros mercados, uma estrutura financeira mais complexa e uma comunicação que tenta acompanhar as mudanças da própria sociedade.
Mas, quando pergunto se todo esse crescimento pode levar a VCA a transferir sua sede para uma cidade maior, Jardel não fala em projeções, oportunidades ou cenários futuros. A resposta é curta: “Está fora de cogitação”.





