O cenário eleitoral baiano e o labirinto de ACM Neto – Coluna de Ronnie Peterson


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças-feiras. Esta semana saiu na quarta por erro do editor.
Acompanho o desenrolar das campanhas eleitorais na Bahia com a nítida sensação de estar diante de um déjà-vu estratégico, mas com peças dispostas em um tabuleiro consideravelmente mais adverso. À medida que as carreatas ganham as ruas e o tom dos palanques se eleva, o ex-prefeito ACM Neto parece reeditar o seu mais desconfortável dilema: a incapacidade, ou a deliberada recusa, de fincar bandeira ao lado de qualquer um dos candidatos ao Palácio do Planalto.
Não se trata de uma novidade. Na disputa anterior, o herdeiro carlista já havia optado pelo malabarismo da neutralidade para tentar capitalizar a avassaladora popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva no estado, flertando abertamente com o eleitorado que casa o voto federal no PT com uma alternativa local. Ocorre que, desta vez, a conjuntura nacional impõe custos muito mais elevados à omissão.
Ao olhar para o leque presidencial, vejo Neto acuado. Sua aproximação tímida com Ronaldo Caiado pouco empolga o eleitor baiano; pelo contrário, o governador goiano dá mostras de perda de fôlego e definha nas pesquisas de intenção de voto. Paralelamente, o restante de sua chapa majoritária e parte de sua base caminham a passos largos rumo ao palanque de Flávio Bolsonaro, figura que amarga rejeição expressiva e performa muito mal no território baiano. Neto fica, assim, comprimido entre a anemia eleitoral de Caiado e a toxidade regional do bolsonarismo, sem poder abraçar nem um nem outro com convicção.
Essa hesitação se reflete visual e simbolicamente no próprio material de rua. Chamo atenção para um detalhe que considero revelador: a redução gradual do peso da lendária sigla “ACM”, herdada do avô, para dar lugar e centralidade quase exclusiva ao prenome “Neto”. Trata-se de uma tentativa calculada de suavizar a herança do carlismo tradicional e torná-lo um produto político mais palatável e autônomo.
Por trás dessa engenharia de imagem está a assinatura de João Santana. Contudo, nem mesmo a reconhecida genialidade do veterano marqueteiro tem conseguido operar o milagre esperado. A estratégia de descolamento e a tentativa de “descaracterização controlada” não surtiram o efeito desejado. Os números das principais pesquisas apontam para uma incômoda estabilização de Neto, travado pela forte polarização nacional que cobra posições nítidas e não perdoa o meio-termo.
Do outro lado da trincheira, o cenário se inverteu. Jerônimo Rodrigues soube usar o tempo e o peso da máquina estatal para reverter a desvantagem que o acompanhou durante toda a pré-campanha. Hoje, o governador petista alcança uma situação de empate técnico, mas com uma vantagem psicológica e estrutural decisiva: a aprovação da sua gestão se consolidou na casa dos 55%. Esse patamar de avaliação positiva é o combustível que costuma decidir pleitos equilibrados, pois confere a Jerônimo uma capacidade de atração desproporcionalmente maior sobre os eleitores indecisos, segmento que costuma migrar para a continuidade quando a percepção geral de governo é favorável.
A partida, portanto, chega ao seu momento mais crítico. A grande incógnita reside na entrada do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral no rádio e na televisão. Historicamente, a TV é o palco onde o marketing de João Santana costuma brilhar e onde a máquina governamental costuma cobrar a fatura com fartura de entregas e tempo de tela. Resta saber se o guia eleitoral terá força suficiente para alterar a correlação de forças na Bahia ou se apenas consolidará o favoritismo de quem já domina a narrativa e o sentimento do eleitorado.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE MERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA COM AUXÍLIO DO CHATGPT
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