Coluna de Ronnie Peterson | O paradoxo da blindagem moral: quando o escândalo e a corrupção já não definem o voto


Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças-feiras.
Olho para o cenário político brasileiro às vésperas de mais uma eleição geral e me pego diante de uma pergunta incômoda: as denúncias de corrupção ainda movem o ponteiro das urnas? Houve um tempo em que manchetes estampando negociatas e escutas telefônicas implodiam candidaturas da noite para o dia. Hoje, assisto a um filme completamente diferente, cujo roteiro ganhou contornos quase inacreditáveis desde que o escândalo do Banco Master veio a público. A liquidação da instituição financeira capitaneada por Daniel Vorcaro expôs um rastro de relações perigosas com figuras de proa do Congresso, mas as pesquisas eleitorais insistem em desafiar a lógica tradicional.
A começar pela Bahia, onde o ex-governador Jaques Wagner se viu tragado pelas apurações da Polícia Federal sobre o suposto recebimento de um imóvel. A suspeita recai sobre a aquisição e operação do cartão Credcesta, negócio vinculado aos tentáculos de Vorcaro. Em qualquer cartilha clássica da comunicação política, uma acusação desse porte desestabilizaria a campanha. No entanto, ao acompanhar os números consolidados, constato que Wagner caminha com folga como um dos favoritos à reeleição para o Senado. Para o seu eleitorado, a memória de entregas e a força da máquina parecem falar infinitamente mais alto do que o noticiário policial.
Do outro lado do espectro ideológico, a anestesia não é diferente. Vejo Flávio Bolsonaro flagrado em ligações nada ortodoxas, nas quais cobrava e articulava dezenas de milhões de reais, montantes que chegaram a superar R$ 150 milhões, para o financiamento do filme Dark Horse, obra destinada a exaltar a trajetória de seu pai. Apesar da ausência de prestação de contas transparente e dos repasses não contabilizados apontados pelos órgãos de controle, a base bolsonarista pouco se abalou. Embora o senador tenha oscilado negativamente em levantamentos recentes, ele preserva musculatura suficiente para disputar com chances reais um segundo turno presidencial contra Lula. A indignação moral, que antes era o combustível da direita, parece ter sido engolida pela disciplina partidária.
E o que dizer de Nikolas Ferreira? O parlamentar que construiu seu capital político detonando adversários na internet viu seu discurso de pureza colapsar com a revelação de áudios diretos com Daniel Vorcaro. Depois de reiterar que sequer conhecia o banqueiro, o teor das gravações expôs um grau de intimidade incompatível com o de estranhos, incluindo a atuação direta para tentar destravar um negócio milionário em favor de seu advogado particular. Em outras épocas, a incoerência seria fatal. Hoje, transforma-se em mero ruído de redes sociais, devidamente relativizado por seus seguidores como perseguição do sistema.
Ao analisar esses fatos, sou forçado a admitir que o tema da corrupção perdeu o protagonismo absoluto na decisão do eleitorado brasileiro. As pesquisas qualitativas e quantitativas indicam que fatores como taxa de rejeição pura, identidade ideológica, custo de vida e o medo da vitória do adversário pesam muito mais do que a lisura dos postulantes. O combate à corrupção, transformado tantas vezes em arma de conveniência, acabou esvaziado pelo cansaço do próprio cidadão, que passou a enxergar as suspeitas sob o filtro polarizado de “nossos erros contra os deles”.
As ramificações do caso Banco Master continuam a emergir e prometem aprofundar ainda mais a desconfiança popular nas instituições. Contudo, enquanto o cinismo coletivo ditar as regras do jogo, permanece uma incerteza profunda sobre até que ponto novos fatos serão capazes de furar a bolha da apatia eleitoral. Se nada mudar, teremos um pleito decidido não pela busca de governantes probos, mas pela conformação com os escândalos de estimação de cada um.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE MERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA COM AUXÍLIO DO CHATGPT
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