Do sonho da vice ao isolamento: a dura realidade da articulação política de Sheila – Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças-feiras. Esta semana saiu na quarta por (mais um) erro do editor
Em Vitória da Conquista, o calendário da política parece ter uma pressa quase doentia. Mal assimilamos o calor da disputa estadual e os ares de 2028 já sopram com uma intensidade desmedida, antecipando movimentações que deveriam amadurecer com o tempo. Como observador atento e parte desse ecossistema político, vejo com enorme preocupação a encruzilhada diante da prefeita Sheila Lemos. Impossibilitada por lei de encabeçar a chapa principal daqui a dois anos, a mandatária conquistense tomou decisões que não apenas precipitaram o debate sucessório, mas colocaram em xeque a própria solidez de sua liderança.
O primeiro grande revés veio no xadrez estadual. Sheila colocou-se abertamente como postulante à vaga de vice na chapa majoritária de ACM Neto. Foi uma aposta de alto risco. Ao ver o prefeito de Jequié, Zé Cocá, consolidar o espaço e assumir o posto, o resultado prático para a sucessora de Herzem Gusmão não foi apenas a perda de uma cadeira estratégica, mas um evidente constrangimento político. Essa frustração regional expôs uma fragilidade de articulação para além dos limites do município e repercutiu imediatamente em seu quintal.
No front doméstico, os sinais de esfacelamento da base aliada tornaram-se evidentes e barulhentos. Uma liderança que pretende conduzir um processo de transição necessita, antes de tudo, de coesão interna. O que assistimos, contudo, é a perda de sustentação, o vereador mais votado da cidade desembarcou do projeto, a relação institucional e política com o vice-prefeito sofreu desgastes profundos e irreparáveis, e outros parlamentares governistas já marcham abertamente com candidaturas adversárias.
O estopim dessa crise interna tem nome e sobrenome: a candidatura de Wagner Alves, esposo da prefeita. Ao tentar forçar um alinhamento irrestrito em torno do companheiro, Sheila viu sua base rachar. A recusa de vereadores tradicionais em apoiar Wagner não apenas revelou o limite da fidelidade política, mas desaguou em acusações públicas de favorecimento da máquina e privilégios de campanha. Essa exposição pública de disputas internas escancarou feridas que vinham sendo tratadas nos bastidores, implodindo a imagem de harmonia e expondo um grupo em franca autofagia.
A missão de Wagner Alves nas urnas é hercúlea. A concorrência interna dentro da chapa proporcional do União Brasil é brutal, com nomes consolidados disputando voto a voto o mesmo eleitorado. Não há folga, tampouco garantia de triunfo. É exatamente nesse ponto que reside o nó górdio do futuro político da prefeita.
A eleição de Wagner tornou-se um plebiscito pessoal sobre a força de Sheila Lemos. Uma vitória expressiva de seu esposo poderá funcionar como o freio de arrumação necessário para retomar as rédeas do tabuleiro, rearticular os descontentes e demonstrar que a máquina ainda dita os rumos do poder local.
Por outro lado, um insucesso nas urnas terá efeito devastador. A derrota sacramentará o isolamento de Sheila, definhando de vez a pretensão de consolidar-se como a grande timoneira de uma frente ampla de direita no sudoeste baiano. A política não tolera o vácuo nem perdoa o erro de cálculo; e o preço dessas escolhas começará a ser cobrado bem antes de 2028.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUEMERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA COM AUXÍLIO DO CHATGPT
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O CONTRAPONTO



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