O insuportável brilho de uma mulher: a vaidade machista e o machismo estrutural contra Sheila Lemos – Artigo de Padre Carlos

O insuportável brilho de uma mulher: a vaidade machista e o machismo estrutural contra Sheila Lemos – Artigo de Padre Carlos

Padre Carlos, como é conhecido Carlos Roberto Pereira, é articulista e analista político que assina textos de cunho filosófico, cultural e conjuntural no blog Política e Resenha. Escreveu este artigo a convite do BLOG DE GIORLANDO LIMA como contraponto à coluna de Ronnie Peterson que analisa o momento político da prefeita Sheila Lemos.


​A política conquistense é pródiga em produzir análises que vestem o manto da “isenção”, mas carregam nas entrelinhas o cheiro rançoso do preconceito. O conteúdo da coluna publicada neste blog sob o título “Do sonho da vice ao isolamento: a dura realidade da articulação política de Sheila” é um exemplar límpido dessa narrativa: disfarçado de pragmatismo analítico, revela a dor de cotovelo de um ecossistema político tradicional que jamais engoliu, digeriu ou aceitou o fato de Vitória da Conquista ser governada por uma mulher forte, firme e vitoriosa.

A tentativa de desenhar a prefeita Sheila Lemos como “isolada” ou acusá-la de ter uma “liderança em xeque” é um exercício pueril de retórica. O que incomoda o clube dos “super-homens” da política local não é o xadrez sucessório, mas sim a incontestável realidade de que uma mulher quebrou todos os recordes históricos das urnas na capital do Sudoeste.

O Peso de Dois Pesos e Duas Medidas

A hipocrisia salta aos olhos quando analisamos a memória seletiva dos críticos. Quando o saudoso prefeito Herzem Gusmão governava a cidade e apoiava nomes para a Assembleia Legislativa ou Câmara Federal — candidatos que obtiveram votações pífias e inexpressivas —, os mesmos analistas de plantão aplaudiam a “gestão de grupo” e a “fidelidade partidária”. Ninguém ousou questionar a liderança de Herzem ou decretar a “implosão de sua base”.

Por que, então, a exigência de prova de força constante recai apenas sobre Sheila? A resposta é dolorosamente simples: porque ela é mulher.

Quando um homem na política busca espaço estadual, ele é visto como “corajoso”, “audacioso” e “líder nato”. Quando Sheila Lemos coloca Vitória da Conquista no centro do debate baiano e postula espaço na chapa majoritária, é carimbada de “frustrada” ou acusada de sofrer “constrangimento”. É o clássico teto de vidro imposto pelo machismo estrutural, que tolera mulheres na política desde que aceitem o papel de figurantes.

A Inundação das Urnas e o Medo da Liderança Feminina

Falar em “fragilidade de articulação” e “isolamento” chega a ser cômico quando se olha para o espelho do passado recente. Sheila assumiu a prefeitura sob sobressaltos e sob desconfianças veladas da própria base. Foi chamada de “substituta”, “café com leite” e “paraquedista”. E qual foi a resposta da prefeita? Trabalhar, administrar a terceira maior cidade da Bahia e construir a maior votação da história de Vitória da Conquista em primeiro turno.

A vitória acachapante de Sheila não foi um acidente; foi a validação soberana do povo conquistense à sua competência. E é justamente esse capital político incalculável que apavora os caciques tradicionais. Eles temem a capacidade que Sheila tem de mobilizar a cidade, de articular alianças com a comunidade e de tomar decisões de forma autônoma, sem pedir licença ou curvar-se a tutoramentos.

A Parceria com o Grupo e a Normalidade Democrática

​A narrativa que tenta transformar o apoio à pré-candidatura de Wagner Alves em um “plebiscito de vida ou morte” nada mais é do que uma tentativa desesperada de criar uma narrativa de crise onde existe apenas a dinâmica natural da política.

Montar nominatas proporcionais, ver vereadores mudarem de posição ou buscarem acomodações eleitorais faz parte do jogo democrático de qualquer cidade de grande porte em ano eleitoral. O que Sheila fez foi o que qualquer líder responsável faz: colocou o seu grupo à disposição para disputar o espaço que Vitória da Conquista merece ter na Assembleia Legislativa. Falar em “favorecimento” ou “autofagia” é o recurso simplista de quem não consegue encarar a força de uma mulher que não recua diante das pressões.

O Preço de Não Se Curvar

​O ecossistema político conquistense precisa entender de uma vez por todas: a era em que mulheres serviam apenas como arranjo de palanque acabou. Sheila Lemos ocupa o cargo mais alto do município não por caridade ou concessão masculinizada, mas por mérito, capacidade de gestão e aprovação popular.

A “pressa quase doentia” não é de Sheila em antecipar 2028; é dos “super-homens” que não aguentam ver uma mulher governando com altivez, liderando a direita no Sudoeste e ditando as cartas do jogo. Sheila Lemos não está isolada — está acompanhada da maioria da população que a elegeu. E no dia em que a poeira das conjecturas baixar, a história registrará que a vaidade dos que se julgavam donos da cidade ruiu diante da determinação de uma liderança feminina que recusa o silêncio.


O PONTO INICIAL

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