El Niño aumenta risco de seca em Vitória da Conquista, mas temporais ainda podem se repetir; climatologista da Uesb chama isso de ‘efeito dominó’

El Niño aumenta risco de seca em Vitória da Conquista, mas temporais ainda podem se repetir; climatologista da Uesb chama isso de ‘efeito dominó’

Entre o fim de 2021 e o começo de 2022, Vitória da Conquista enfrentou um período de chuvas que deixou marcas na cidade e principalmente na zona rural. Barragens se romperam, estradas ficaram interrompidas, casas foram alagadas e centenas de pessoas precisaram deixar suas residências. Quando o município ainda se recuperava dos estragos, em janeiro de 2022 uma chuva de 47,6 milímetros em cerca de uma hora voltou a provocar alagamentos e enxurradas.

Situações semelhantes apareceram nos anos seguintes e voltaram a ganhar força entre 2025 e 2026. Em janeiro de 2025, somente entre os dias 11 e 15, os pluviômetros registraram média acumulada de 180,5 milímetros, com alagamentos e danos também em localidades rurais. Em fevereiro de 2026, a média mensal chegou a 200,74 milímetros e março começou com 18 dias consecutivos de chuva, acumulando até 285,67 milímetros em alguns pontos e levando Vitória da Conquista a decretar situação de emergência.

Depois desses anos de chuva intensa, a possibilidade de um El Niño forte muda a pergunta feita por quem vive em Vitória da Conquista. Os temporais dos últimos anos poderão se repetir ou o município entrará em um período de seca?

As duas situações podem acontecer durante a mesma estação, embora pareçam contraditórias à primeira vista. O El Niño aumenta o risco de menos chuva, temperaturas mais altas e períodos secos prolongados, mas não impede temporais capazes de causar alagamentos, enxurradas e outros estragos.

O professor doutor Rosalve Lucas Marcelino, geógrafo e climatologista do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), explica que o El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e interfere na circulação atmosférica muito além daquela região. “Os efeitos do fenômeno extremo climático El Niño vão muito além do que imaginamos”, afirma Rosalve, ao chamar atenção para a dimensão global do evento. Segundo ele, as alterações costumam ser mais sentidas em áreas que naturalmente já enfrentam temperaturas elevadas ou períodos de pouca chuva.

No Nordeste brasileiro, essa condição aumenta a preocupação porque muitas áreas começam o período sob vulnerabilidade hídrica maior. “O que já era seco e quente fica ainda mais crítico e, quanto mais longe do litoral, pior a situação”, afirma o climatologista.
Para Vitória da Conquista, Rosalve aponta uma tendência de redução das chuvas e de alterações nas temperaturas durante a atuação do El Niño. O município tem clima tropical de altitude e média anual próxima de 734 milímetros, mas apresenta uma distribuição muito desigual das precipitações ao longo do ano. “As chuvas tendem a ser reduzidas durante o El Niño e as temperaturas ficam desajustadas e as estações do ano ficam confusas”, afirma.

A maior parte da chuva costuma chegar justamente entre novembro e fevereiro, período que concentra perto de 60% do total anual. De abril a outubro, os sete meses juntos recebem pouco mais da metade da quantidade normalmente registrada apenas naquele quadrimestre mais chuvoso. Essa concentração ajuda a entender por que novembro, dezembro, janeiro e fevereiro serão decisivos para avaliar os efeitos do El Niño em Vitória da Conquista. Uma redução importante nesses meses pode comprometer a reposição da água no solo e diminuir a disponibilidade hídrica durante o restante do ano.

Rosalve destaca que o período de baixa umidade, normalmente mais evidente entre maio e setembro, pode durar mais durante um El Niño e aponta justamente o prolongamento do período seco como uma das consequências que mais podem atingir o município. “A umidade relativa do ar cai bastante nesse período e, durante o evento extremo, esse mesmo período é prolongado, causando mais aridez no solo, escassez de água e menor disponibilidade hídrica”, explica.

Quando afirma que “as estações do ano ficam confusas”, o professor se refere justamente à alteração desses padrões habituais. O período seco pode avançar sobre meses em que normalmente a chuva começaria a aumentar, enquanto temperaturas e umidade também podem fugir do comportamento mais frequente.

Menos chuva

O primeiro ponto importante para quem vive em Vitória da Conquista é: o El Niño aumenta o risco de seca. Isso não significa necessariamente meses inteiros sem qualquer precipitação, mas pode representar intervalos maiores entre uma chuva e outra e menor volume acumulado durante a estação.

Na zona rural, uma mudança desse tipo produz consequências que vão além da quantidade de água armazenada. A menor umidade do solo afeta pastagens, plantios e disponibilidade de água para os animais, podendo reduzir a produtividade da agricultura e da pecuária.

Rosalve chama esse processo de efeito dominó, porque uma alteração inicialmente climática alcança posteriormente diferentes áreas da economia. Menor produção pode aumentar custos, pressionar preços dos alimentos e atingir principalmente as famílias de menor renda. “É nesse ponto que geralmente perdemos a dimensão do problema”, afirma o climatologista, ao relacionar clima, produção de alimentos e condições econômicas. Para ele, a dependência da chuva aparece de maneira mais clara quando seus efeitos deixam os mapas meteorológicos e chegam à produção e ao orçamento das famílias.

Temporais continuam

O segundo ponto talvez seja o mais importante para compreender o próximo verão: menos chuva no conjunto da estação não significa ausência de temporais. Vitória da Conquista pode passar semanas praticamente sem precipitação e receber, depois, grande quantidade de água em poucas horas ou dias.

Foi exatamente a concentração das chuvas que ajudou a produzir muitos dos estragos registrados nos últimos anos. Em janeiro de 2022, por exemplo, 47,6 milímetros caíram em aproximadamente uma hora, quantidade suficiente para provocar alagamentos e enxurradas mesmo sem representar a chuva de um mês inteiro.

Outros sistemas atmosféricos continuam atuando mesmo durante um El Niño e podem mudar rapidamente o tempo sobre a região. Entre eles está a Zona de Convergência do Atlântico Sul, conhecida pela sigla ZCAS, que transporta grande quantidade de umidade e pode manter chuvas durante vários dias. A atuação da ZCAS contribuiu para as chuvas fortes registradas em Vitória da Conquista no começo de 2026. Por isso, mesmo que o próximo período termine com precipitação abaixo da média, ainda existe possibilidade de episódios semelhantes ocorrerem novamente.

A diferença está entre quantidade e distribuição, duas informações que precisam ser observadas separadamente. Uma estação pode receber menos água do que normalmente receberia e ainda concentrar parcela considerável desse volume em dois ou três temporais. Para a agricultura, essa distribuição ruim pode não ser suficiente para manter adequadamente a umidade do solo durante várias semanas. Para a área urbana, porém, uma única chuva muito concentrada pode superar a capacidade de drenagem e provocar rapidamente alagamentos e enxurradas.

Maior irregularidade

O terceiro ponto reúne os dois anteriores e indica o cenário que hoje merece maior atenção em Vitória da Conquista. A possibilidade não é simplesmente de um verão seco, mas de um período mais quente e irregular, com estiagens prolongadas entremeadas por episódios de chuva eventualmente muito forte.

O El Niño atualmente em desenvolvimento reforça essa possibilidade porque está alcançando intensidade elevada e deve permanecer ativo durante o verão brasileiro. Isso aumenta as condições favoráveis à redução e à irregularidade das chuvas em partes do Nordeste, embora seus efeitos não ocorram de maneira idêntica em todas as regiões.

Vitória da Conquista também recebe influência de outros fatores, principalmente dos sistemas formados ou alimentados pelo Oceano Atlântico. Essa combinação impede afirmar antecipadamente quanto choverá em cada mês ou se haverá repetição dos longos períodos chuvosos observados desde 2021.

O que já pode ser dito com maior segurança é que o El Niño aumenta o risco de estiagem e calor em Vitória da Conquista. Também pode prolongar condições de baixa umidade e aumentar dificuldades relacionadas ao abastecimento rural, à agricultura e à pecuária. Isso não autoriza, porém, concluir que os temporais recentes ficaram para trás enquanto o fenômeno estiver atuando.

Uma sequência de semanas secas pode ser interrompida por uma chuva de grande intensidade e, depois dela, o tempo voltar a permanecer sem precipitações significativas e esse talvez seja o aspecto mais importante dos próximos meses para Vitória da Conquista. Mais do que acompanhar apenas quanto choveu, será necessário observar por quanto tempo ficam os intervalos secos e de que maneira a chuva se distribui quando chega.

Depois de anos marcados pelo excesso de água, o El Niño coloca Vitória da Conquista diante de outro risco climático. Pode chover menos durante a estação e, ainda assim, chover demais durante algumas horas ou alguns dias.

ESTA MATÉRIA FOI PRODUZIDA COM AUXÍLIO DO CHATGPT, INCLUSIVE A FOTO, E A CONTRIBUIÇÃO ENRIQUECEDORA DO PROFESSOR DOUTOR ROSALVE LUCAS MARCELINO (UESB)

Deixe um comentário

Você não pode copiar conteúdo desta página

Descubra mais sobre BLOG DE GIORLANDO LIMA

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo