Ave Maria no Morro: quando a canção vira oração
Por Fábio Sena
Benedito Lacerda não poderia adivinhar que, naquele 1940, seu amigo Herivelto Martins o estava convidando para comporem, em parceria, uma das mais belas e consagradas obras do cancioneiro brasileiro e universal. Temendo – e com razoável razão – pela má repercussão daquele ‘sacrilégio’ junto ao clero e à comunidade católica, o exímio flautista abdicou de emprestar seu engenho e arte a Ave Maria no Morro, que Herivelto Martins comporia solitariamente, embora contrariado com a desfeita do parceiro.
Para-além do argumento contrário à melodia sacra da canção – “Meu compadre, isso é música de igreja”, Benedito Lacerda acrescentou uma perspectiva financeiramente desanimadora. “Tá bem, tá bem pra vocês cantarem no rádio, mas isso não é música pra dar dinheiro. Cadê aquele sambinha que você me mostrou outro dia? Vamos fazer música pra ganhar dinheiro, meu compadre’. Frustrado, Herivelto Martins engavetou o samba, que só seria gravado – e se tornaria sucesso absoluto – em 1942.
Interpretado originalmente pelo Trio de Ouro – formado pelo próprio Herivelto, Nilo Chagas e Dalva de Oliveira –, Ave Maria no Morro foi motivo imediato de polêmica envolvendo a alta cúpula da Igreja Católica, tendo o Cardeal Dom Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, acusado o autor de heresia e solicitado formalmente ao governo que proibisse a execução da música nas rádios. O intento do religioso não logrou êxito graças à boa relação de Herivelto com os censores. Para sorte do compositor, o cardeal morreria naquele 1942, sendo definitivamente encerrada a polêmica.
Apesar da melodia flagrantemente identificada com os cânticos sacros entoados nas missas, fato é que a belíssima poesia do samba-canção tinha o condão de realçar a beleza do morro e o cotidiano de seus habitantes – “lá não existe felicidade de arranha-céu, pois quem mora lá no morro já vive pertinho do céu”. Ao final, a Ave Maria é figura secundária: “… E o morro inteiro, no fim do dia, reza uma prece Ave Maria”.

isso.
A quase-oração – uma das canções mais gravadas por artistas brasileiros – ganharia centenas de versões mundo afora, a maioria das quais realçando sua natureza religiosa. Cantores e cantoras italianos, alemães, belgas, poloneses, filipinos, gregos, holandeses, suecos e de vários outros países interpretaram o clássico brasileiro. Aí incluem-se artistas como .
Uma versão de Ave Maria no Morro que melhor identifica a supremacia melódica foi feita em 1964 pela cantora alemã Manuela (seu nome verdadeiro é Doris Inge Wegener). O LP da berlinense foi lançado no Brasil pela Continental e sua versão para o samba-canção é de primorosa originalidade. Para melhor caracterizar o espírito religioso, a letra narra a história de um mendigo carioca, que toca violão em busca de alguns vinténs, sem merecer a atenção dos transeuntes. Mas é salvo pela santa.
Eis a letra gravada por Manuela:
Cinza envolto em farrapos
um mendigo está sentado na rua
na esquina do Rio de Janeiro
Em suas mãos ele modestamente detém uma guitarra
e suavemente bate os acordes porque ele canta essa música
Sem olhar, as pessoas estão correndo
descuidadamente e assim a placa permanece vazia
dar pão a um homem pobre
Mas de repente duas moedas de ouro caem
em seu prato, que era Maria
Donna Maria, que o viu na gruta
Ave Maria
Ave Maria
Você vai junto com as mãos abertas
nunca vamos acabar com o seu amor
Ave Maria
Maria
Maria
Como se percebe, a santa é alçada ao primeiro plano na consagrada versão alemã de Manuela, que faria estrondoso sucesso mundo afora. O morro e seus habitantes, antes personagens centrais, exaltados na narrativa, simplesmente desaparecem e dão lugar à miraculosa aparição de Nossa Senhora no Rio de Janeiro. O ingrediente sacro da dulcíssima melodia de Herivelto Martins sufoca sua sofisticada poesia.
Por fim, vale nota: Depois de assistir ao extraordinário sucesso de Ave Maria no Morro, o sempre alerta Benedito Lacerda, parceiro em tantas outras obras, apressou-se: “Ô! Herivelto, eu estou nessa parceria também, né!?” — “Não, Benedito, nesta você não está. Esta é ‘música de igreja’, lembra?”



