Crise no transporte | Vans levam um terço dos passageiros das principais linhas e Cidade Verde começa a sair

Está acontecendo tudo o que prefeito Herzem Gusmão não previa no transporte público de Vitória da Conquista. Ele imaginava fazer uma revolução no setor. Na campanha de 2008, ele chegou a prometer a implantação do VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) e em 2012 falou que a cidade poderia ter três empresas de ônibus operando e um sistema alternativo de transporte, feito por vans, regulamentado. Não previu a realidade e nem a incapacidade de sua equipe de colocar as coisas nos trilhos. E a cidade agora tem apenas uma empresa operando, as vans estão cada dia mais irregulares e o prefeito vê a crise no transporte coletivo crescer como um dos problemas que eclipsam as boas realizações de seu governo.

Quando o prefeito assumiu, havia um processo de caducidade do contrato da Viação Vitória, que prestava um serviço de péssima qualidade e não cumpria as exigências contratuais, nem mesmo a outorga (valor pela exploração das linhas) ela pagou. No final de 2016, a administração anterior tinha dado um prazo de 30 dias para o desfecho do processo, para o afastamento da Vitória. Mas, Herzem resolveu bancar a aposta da empresa quase falida, como uma resposta ao PT, “acostumado a quebrar empresas de ônibus”, segundo ele.

Não deu. A falência da Vitória não era uma ficção. O serviço foi piorando e a população sendo prejudicada, até que, de uma vez, a prefeitura lacrou 95%da frota, proibindo 74 ônibus de circularem e instalando o caos no sistema. Um prazo para regularizar a situação foi dado à Vitória, mas todo mundo sabia que isso não iria acontecer e o prefeito acabou sendo obrigado a decretar emergência no transporte coletivo. Representado pela Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob), o governo saiu procurando empresas para assumir as linhas que ficaram sem ônibus. Mas, as garantias eram frágeis, as condições incompatíveis com o investimento de colocar 80 ônibus em uma cidade sem que isso fosse definitivo. E nenhuma empresa de fora quis assumir a tarefa.

SALVADORA DA PÁTRIA

A Cidade Verde – que estava ameaçada de perder as linhas que operava por força de uma decisão judicial que considerou ilegal a licitação vencida por ela e determinou nova concorrência pública – já tinha sido apontada pelo prefeito como “prestes a sair”. O processo licitatório para contratar uma nova empresa para o lugar dela já tinha sido iniciado. Mas, diante da recusa de outras empresas em assumir a vaga deixada pela Vitória, apenas por um período emergencial, a prefeitura teve que recorrer, justamente, à Cidade Verde.

Neste tempo, a prefeitura já havia lançado edital de licitação para regulamentar o transporte clandestino feito pelas vans, já havia cancelado o mesmo edital, temendo ação do Ministério Público, que foi contra a forma como a licitação seria conduzida, e fazia uma fiscalização considerada ineficiente do transporte clandestino.

A Cidade Verde colocou cerca de 70 ônibus, vindos de outras cidades onde atua, para operar nas linhas que a Vitória deixou. Mas, a concorrência do transporte clandestino, especialmente as vans, levaram a empresa a anunciar várias vezes que seria difícil continuar prestando o serviço emergencial e até mesmo se manter na cidade, atuando no seu lote normal. Para piorar, uma liminar de um desembargador do Tribunal de Justiça (TJBA) proibiu a prefeitura de apreender veículos que estejam transportando passageiros. A decisão do TJBA teve como efeito o fim da fiscalização por blitzes.

Para compensar a queda de faturamento da Cidade Verde e evitar um novo aumento no preço da passagem, o prefeito enviou projeto de lei à Câmara de Vereadores isentando a empresa de ônibus de pagar ISS por seis meses. E, depois de uma conversa com os diretores da empresa de ônibus, o prefeito mandou que a fiscalização voltasse a acontecer. E algumas vezes, realmente, aconteceu. Poucas. Sem efeito. Continuam aumentando as vans no transporte clandestino.

REGRAS PRÓPRIAS

Com suas próprias regras, os motoristas estabelecem quem pode parar em determinados pontos e quantas vezes, quais as linhas de cada um, etc. Na terça-feira, andamos de van para saber como funciona o sistema. Conversamos com mais de um motorista. Eles negam que exista um controle central ou milícias determinando o funcionamento do serviço com pagamento de taxas e ameaças no caso de cumprimento. “Somos todos pais de família, tudo é com a gente mesmo”.  A fiscalização é uma preocupação, por causa da multa, “mas a gente é muito e eles fazem poucas blitzes, em determinados lugares, então a maioria nem é parada”. O medo era a apreensão, mas “agora, o advogado conseguiu a liminar, eles não podem prender nenhum carro”. Sobre a quantidade, calculam que sejam uns 500 a 600, mas “todo dia entra mais, principalmente na Frei Benjamin”.

Calcula-se que as vans transportem cerca de um terço dos passageiros nos principais trajetos da cidade, incluindo Olívia Flores, centro, Avenida Frei Benjamin. A maioria das pessoas que usam os serviços quer economia. São donas de casa, trabalhadores e desempregados que não têm passe livre ou direito à meia passagem. Estudantes e trabalhadores com vale-transporte só pegam uma van se estiverem com pressa. Para cada ônibus que passa na Olívia Flores, por exemplo, passam de três a quatro vans, que fazem o percurso mais rápido e deixam a pessoa onde ela pede.

A consequência do sucesso desse sistema clandestino é a desorganização do setor. Há quem diga que não há mais o que fazer e que a tendência é piorar. Para o vereador Waldemir Oliveira, o governo perdeu o controle da situação. Para a Cidade Verde, chegou a hora de começar a sair. Nesta quinta-feira a empresa anunciou que a partir de sábado (13) não atenderá mais cinco das linhas que ela assumiu emergencialmente. O sinal amarelo acendeu de novo na garagem e no gabinete do prefeito.

O executivo da Cidade Verde, Sérgio Hubner, disse ao BLOG que a situação está caótica e que não dá mais para seguir adiante com o esvaziamento o sistema. “Tentamos ajudar a cidade. Mas boa vontade por si só não resolve”, declarou Hubner. Ele garantiu, no entanto, que a empresa manterá os serviços regulares no lote que lhe cabe originalmente.

COMPENSAÇÃO

A questão levantada é que a isenção do ISS poderia compensar as perdas da Cidade Verde, mas, a empresa não entende assim. A queda no número de passageiros pagantes não é suprida pelo valor que deixará de ser pago com a isenção. O ponto é que não se trata apenas de manter os ônibus circulando, mas garantir o pagamento em dia dos trabalhadores e os investimentos na manutenção da qualidade do serviço, considerado excelente pelos usuários e pela prefeitura.

Os ônibus da Cidade Verde chegaram a Vitória da Conquista em 2013 e eram todos os 80 zero quilômetro. Seis anos depois, não são mais tão novos e passam a ter manutenção mais cara, além do que, segundo o contrato, já está na hora de renovar pelo menos um terço da frota, o que não ficaria por menos de R$ 10 milhões. Com essas exigências e com a queda progressiva na quantidade de passageiros pagantes, de 1,7 milhão previsto no edital, para 1.080.000 atualmente, a empresa chegou à conclusão de que continuar atendendo à emergência decretada pelo prefeito pode inviabilizar a operação inteira, então terá chegado a hora de parar. A partir deste sábado.


5 comentários sobre “Crise no transporte | Vans levam um terço dos passageiros das principais linhas e Cidade Verde começa a sair

  1. Essa tragédia no sistema de transporte público já era anunciada a partir do incentivo da atual administração ao transporte clandestino operado por vans. A situação atual é muito ruim, ainda que amenizada pela boa operação prestada pela Cidade Verde e a tendência natural é piorar. A prefeitura perdeu a gestão do sistema que passou a seguir sem rumo, ao sabor da ilegalidade. Isso é uma pena, pois Vitória da Conquista infelizmente entrou no rol das cidades reféns da clandestinidade com perdas irreparáveis na mobilidade urbana. Recuperar a condição anterior, se isso for possível, será um dos grandes desafios do próximo governo.

    1. Hoje mesmo comentava com uma amiga a respeito disto: o grande desafio do próximo governo será a reorganização do sistema de transporte público.

Deixe uma resposta para LucianoCancelar resposta

Você não pode copiar conteúdo desta página

Descubra mais sobre BLOG DE GIORLANDO LIMA

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading