A universidade no olho do furacão | 2023, um ano para a Uesb esquecer

A universidade no olho do furacão | 2023, um ano para a Uesb esquecer

ATUALIZAÇÃO:

A matéria foi editada. O título foi alterado para retirar a menção à música cantada pela artista no evento, bem como para excluir a letra do corpo da matéria, já que ela não tem como foco principal a performance de Tertuliana ou o conteúdo de seu trabalho como cantora, mas a sequência de episódios que teriam condição de prejudicar a imagem da Universidade Estadual do Sudoeste (Uesb) e impactar sua credibilidade como instituição de ensino superior, sendo a repercussão do vídeo o mais recente e mais polêmico, até então, embora não seja, no entendimento deste BLOG, o mais grave deles.

Perto de completar 43 anos de criada (dezembro de 1980), a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), uma das mais importantes do estado e responsável pela formação de milhares de profissionais, entre professores, jornalistas, administradores, engenheiros, médicos, advogados, cineastas e outras dezenas de profissões, está no olho do furacão, e vive um ano que, certamente, vai querer esquecer.

Em 2023, a universidade registrou diversos incidentes que a colocaram mais à vista da sociedade do que as ações desenvolvidas por sua gestão administrativa, que vem melhorando a estrutura dos campi e assegurando seu adequado funcionamento, a despeito das queixas frequentes de que o apoio financeiro do Estado está aquém do que a instituição precisa para avançar na qualidade do ensino e nas condições salariais de professores e servidores.

Ontem e hoje (17), um vídeo em que a cantora e aluna de mestrado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Tertuliana Lustosa, faz uma dança erótica durante o ‘VI Seminário Internacional Desfazendo Gênero’, realizado terça-feira (14), no campus de Vitória da Conquista, voltou a colocar a Uesb na mídia nacional e a ser um dos assuntos de destaque das redes sociais.

No vídeo que viralizou, Tertuliana canta a música ‘Murro na Costela do Viado’, do grupo ‘A Travestis’, do qual a mestranda da Ufba é vocalista. Na postagem em seus perfis de Instagram e TikTok ela diz: ‘Quando me perguntam como eu dou aula’, e provoca reações contrárias. Uma consulta rápida mostra que, embora ela tenha recebido muito apoio, as reações foram negativas em sua grande maioria.

Seria um episódio isolado, uma treta, como se diz nas redes sociais, para alimentar a guerra de narrativas e os embates nos grupos de WhatsApp, criando elementos para estudos sociológicos acerca deste tempo incrivelmente incrivelmente tenso que vivemos na política. Haja estabilidade emocional.

Mas, a dança da atriz chega em um momento em que a Uesb já está fragilidade por um histórico de confusões. Para usar um termo caro aos blogueiros conquistenses, os burburinhos se amplificam e exigem um posicionamento da tímida administração superior da instituição. O vídeo mencionado é assunto de sites nacionais de relevância inquestionável, de norte a sul do país, como não poderia deixar de ser diferente considerando a velocidade e integração proporcionada pela internet.

No exato momento em que este artigo está sendo escrito, o UOL publicou matéria sobre o assunto. A Uesb, com a graça da mestranda Tertuliana, está no mundo. Acostumada a comemorar por citações em revistas científicas, estudos e rankings de várias partes do planeta, desta vez, justa ou injustamente, o que se presencia é o escárnio.

Mas, como dito. Isso cairia na vala dos debates sobre política, gênero, liberdade de expressão, autonomia universitária, PT, Bolsonaro, Paulo Freire, Olavo de Carvalho, etc. Mas, vem na cauda de um cometa que passa deixando rastro quente na história da Uesb desde algum tempo. Nessa barafunda acomodam-se acusações de assédio moral de gestores, de professores, contendas expostas como fraturas, queda em avaliações (rankings) de desempenho acadêmico, denúncias de uso de pedagogias estranhas nos diversos cursos, e, infelizmente, até suicídio de estudante em sala de aula.

A compreensão da importância da Uesb como universidade pública, de seu papel formador de pessoas conscientes, mais do que profissionais competentes que saem de suas salas para atuar pelo país afora; o notório caráter e o inquestionável comportamento ético do reitor Luiz Otávio Magalhães, além do reconhecimento das qualidades técnicas e pessoais da imensa maioria dos seus docentes, criam uma natural parceria da imprensa com a instituição, uma relação afetiva e respeitadora, a impor uma espécie de pacto de silêncio ou, ao menos, uma tendência à parcimônia na crítica, para não parecer que se está contra a instituição, à sua direção ou aos seus professores. “A quem ou a quê interessa enfraquecer a universidade pública?”, ouve-se.

Entretanto, é preciso que a Uesb, ela mesma, antes que “estranhos”, se avalie. Que se ouçam os murmúrios que correm por seis quase 3,5 milhões de hectares, distribuídos em três cidades. Qual a dor que se silencia em seus mais de 200 prédios?

A reitoria foi acusada de, mais que se omitir, ser conivente com o suposto assédio no Sistema de Rádio e TV da Uesb (Surte). Por lá, o furacão continua girando. No Departamento de Ciências Sociais Aplicadas (DCSA) a ventania faz rodopiarem no ar currículos e relações profissionais e pessoais. A reitoria também nada disse sobre esse bafafá, provavelmente pelo respeito natural à autonomia das instâncias acadêmicas. O nó da questão é que o problema extrapolou as reuniões da sala do júri e os muros da universidade.

Professores, servidores, gestores e estudantes ouvidos pelo BLOG afirmam que não há brisa em nenhuma parte da Uesb, da cantina ao módulo IV, passando pelo RU e pela biblioteca. Até na creche haveria sopros nocivos. Quase tudo buxixo, fofoca, com certeza. E, mesmo a parte que pode ser verdade, nada que não se verifique em outra instituição que tenha esse tamanho, fisicamente e em importância falando, mas é a Uesb. E ninguém quer a Uesb fraca.

Posicionamento da Uesb

Às 14h, enviamos mensagem solicitando posicionamento da Reitoria da Uesb acerca, em especial, da repercussão do vídeo feito divulgado pela atriz Tertuliana Lustosa e questionado nas redes sociais. A assessoria do reitor Luiz Otávio de Magalhães disse que ele teria eventos hoje à tarde e à noite, mas já estava elaborando um texto sobre o assunto. Quando chegar acrescentaremos à matéria.

O que diz Tertuliana

Depois da repercussão do vídeo, Tertuliana Lustosa fez uma postagem no seu perfil do Instagram respondendo as críticas:

PRONUNCIAMENTO: que toda essa discussão inflamada abra portas para novas possibilidades de metodologias pedagógicas, onde possamos sim dançar e executar ações de prazer como modo efetivo de aprender. Aprender não precisa doer e o nosso corpo não é proibido. Muito em breve estarei anunciando a minha ESCOLINHA DO KOO e quem quiser colar estarei de portas abertas.

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