Uma jornada longa e injusta que só não é individualmente sem fim porque, em si, muitas vezes apressa o fim de quem a desempenha

Uma jornada longa e injusta que só não é individualmente sem fim porque, em si, muitas vezes apressa o fim de quem a desempenha

ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO NA EDIÇÃO 730 DO JORNAL DO SUDOESTE.

Não poderia dizer quantas pessoas pensam do mesmo jeito, mas quando provocados a falar acerca da jornada sem fim das mulheres – como o que faz agora Luiz, estimado amigo e abnegado editor do Jornal do Sudoeste, ao me honrar com um convite para escrever sobre o tema -, creio que, para muitos de nós, vem logo à mente as mulheres por perto: mãe, esposa…

Apenas muitos de nós, não todos, porque o histórico da sociedade brasileira apresenta uma cegueira no nível de multidão. Gente demais que não vê ou não reconhece nem o que acontece perto de si, em casa. Gente, homens, nem sempre todos nós, mas sempre muitos de nós, incapazes de reconhecer a importância da contribuição da mulher na construção da sua própria vida, quanto mais em relação ao resto, à empresa, à política, à cidade, ao estado, ao país.

Desde a minha mãe, tive a sorte de conviver com mulheres fortes, corajosas, inteligentes, estudiosas, competentes e muito conscientes de seus papeis. (Faço o reparo de que um pouco menos a minha mãe, hoje aos 89 anos, que teve um aprendizado patriarcal, tendo lhe faltado convivências e leituras suficientes para ir além do que foi). Não julgo necessário listar tudo o que fazem no seu dia a dia. Ou para o meu dia a dia. Mas, posso separar uma coisa: ensinar.

Elas, não apenas aquelas que eu conheço de casa, mas essas mulheres todas que têm mostrado que “lugar de mulher é onde ela quiser”, que “lutam como uma mulher”, ensinam, em especial aos homens, mas também a outras ainda retidas no jugo do machismo, encurraladas pelo preconceito ou reféns do medo, que a jornada é longa, parece não ter fim, mas tem alcançado vitórias.

Claro que elas são maioria da população (em Vitória da Conquista são 52%, segundo o Censo 2022), mas têm menos empregos, ganham menos e são desrespeitadas no trabalho e fora dele. São minoria na política, a ponto de terem cota obrigatória nas eleições e ainda assim não aparecerem, pois são escanteadas e, geralmente, não formam nas fileiras partidárias como o mesmo peso (político-partidário) de um homem.

Ao trazer o tema “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, o Enem deste ano ajudou a jogar luz sobre um cenário que tem como marca o pouco valor que se dá a ele. Conheço mulheres que questionadas sobre o que acham dessa “jornada sem fim”, elas mesmas respondem que é seu papel, que é como aprenderam e que não sabem como mudar. Ou não querem. Na verdade, desistem. Muitas para agradar, outras por não saber como reagir e outras tantas por medo.

Talvez essa jornada seja fim para tantas mulheres, por falta de cultura, no sentido de informação geral e ausência de interatividade com quem possa ajudar em sua formação psicológica e, até, intelectual; medo de perder a condição de sobrevivência. Ou a vida.

Não é uma luta que as mulheres fazem de hoje, essa para vencer as dificuldades em uma sociedade que não as valoriza como deveria. Em muitas situações, a mulher trabalha tão bem ou melhor que os colegas homens e ganha menos. São demitidas após cumprirem licença maternidade; são rejeitadas se são casadas e pretendem ter filhos; demoram mais na fila das promoções; ouvem piadas misóginas e são assediadas no ambiente de trabalho. Não são todas as mulheres que passam por isso, mas são sempre mulheres, muitas.

E existem aquelas que passam por situações de constrangimento, pressão, ameaça, desrespeito e não ganham nada ou ganham quase nada pelo que fazem. Seria insano dizer que é sempre assim. Há ambientes pacíficos, calmos, de convivência tranquila, segura e até prazerosa para a mulher. Nos ambientes domésticos, em especial. Onde milhões de mulheres laboram o “cuidado”. Trabalham pelo bem-estar físico e emocional de outras pessoas, com ou sem remuneração, Cuidam de casa, do marido, dos filhos, dos sogros, dos parentes, de filhos e parentes de outros, dos pets…

Segundo a Oxfam Brasil, as mulheres são responsáveis por 75% do trabalho de cuidado sem remuneração e no mundo todo mulheres e meninas trabalham nisso 12,5 bilhões de horas, todos os dias. No caso das trabalhadoras domésticas Somente 10% delas são protegidas por leis trabalhistas gerais como as demais categorias. E apenas cerca de metade dessas trabalhadoras desfrutam da mesma proteção em termos de salário mínimo, de acordo com a entidade.

As informações existem, os números estão nos bancos de dados das instituições que pesquisam os cenários, mas esse é um trabalho invisível para a imensa maioria. Invisível porque não recebe a devida iluminação da mídia, da academia ou dos governos – ou por mera conveniência dos que se beneficiam. E é essa jornada, aparentemente sem fim, que um sem-número de mulheres fazem sozinhas na maior parte do tempo, uma das mais injustas, cansativas e causadoras de doenças físicas e mentais. Talvez por isso não seja, exatamente, uma jornada sem fim…

Link para a edição do Jornal do Sudoeste com vários artigos sobre o mesmo tema, escritos por homens e mulheres que entendem do que fala, o que tornou muito honroso o meu texto também estar ali: AQUI.

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