Pesquisa eleitoral | Há 20 anos, uma reeleição de virada entrou para a história

Pesquisa eleitoral | Há 20 anos, uma reeleição de virada entrou para a história

Em 2004, eu trabalhei nas eleições de São Luís (MA) e de Belém (PA), primeiro e segundo turnos. Quase teria participado da famosa campanha do “Mostra a fita, Zé!”, quando aconteceu a famosa virada de Zé Raimundo (PT) sobre Coriolano Sales (PFL), mas não deu.

Foi uma das eleições mais curiosas da história política de Vitória da Conquista. Eram quatro candidatos, mas ao final só chegaram três, porque o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) indeferiu a candidatura de Ferdinand Martins, do PSTU, e seus votos foram anulados. Concorreram Coriolano Sales, Zé Raimundo e Tico Oliveira – do bloco Ticronays e do jornal Impacto -, que terminou com 595 votos.

Zé Raimundo buscava a reeleição. Em 2000, ele foi eleito vice-prefeito na chapa de Guilherme Menezes, que renunciou em abril de 2002 para ser candidato a deputado federal. Cori já havia sido candidato a prefeito quatro anos antes, ficando em segundo lugar, com 34.001 votos, depois de Guilherme, que teve 67.903.

Durante a campanha de 2004, aliados de Cori afirmavam que ele tinha uma frente gigantesca nas pesquisas de intenção de voto. Falava-se em 50%, 60%, contra cerca de 30%. Era a aposta mais certa de eleição. A disputa em Vitória da Conquista era do interesse da Bahia. O PT já exercera dois mandatos, desde a eleição de Guilherme em 1996, e era uma vitrine para a sigla no estado e no Brasil. Tendo isso em vista, o governador Paulo Souto chegou a mandar para cá o marqueteiro João Silva, para “garantir que nada desse errado” para Cori.

Apesar da propalada goleada de Coriolano Sales nas pesquisas, a gestão de Zé Raimundo não era tão mal avaliada. Pesquisa feita em parceria pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) e Ibope, entre os dias 20 e 23 de agosto de 2004, mostrava que 37,7% da população entrevistada achavam o governo ótimo ou bom, e metade (19,2%) achava ruim ou péssimo. A avaliação regular ficou em 38,7%.

O mesmo levantamento confirmava a frente de Cori, com 48,5%, ante 36,20% de Zé Raimundo, uma distância de pouco mais de 12 pontos percentuais. Tico apareceu com 0,2%. Quando perguntados quem ganharia a eleição, independente do seu votos, os entrevistados responderam Coriolano, com 61%; Zé Raimundo. 23,2% e Tico – 0,7%. Era agosto.

Pouco mais de um mês depois, no dia 3 de outubro, foram às urnas 172.989 eleitores, destes, 70.759 reelegeram Zé Raimundo, correspondendo a 55,24% dos votos válidos; Cori teve 56.732 votos, equivalentes a 44,29%, A diferença entre os dois: 11 pontos percentuais, uma inversão em relação à pesquisa de agosto. Tico ficou com 595, 0,46%.

Vitória da Conquista já havia registrado uma virada eleitoral. Foi em 1988, quando Murilo Mármore venceu Sebastião Castro depois de ter ficado por meses atrás nas pesquisas. A diferença é que não se tratava de reeleição, que só foi instituída em 1997. Ali, contou a grande força de José Pedral Sampaio, que estava no cargo de secretário de Estado, mas retornou a Vitória da Conquista com o objetivo de impedir que Tião ganhasse.

Naquela eleição, uma conhecida pesquisa do Ibope, feita no fim de outubro, trazia Tião com 45% e Murilo com 34%. Urnas abertas e votos contados, venceu o candidato pedralista, com 25.252 votos, enquanto Sebastião Castro teve 20.315, e Walter Pires, pelo PT, 918 votos.

Como fiquei fora

Já que você chegou até aqui, continue lendo sobre a minha quase participação na campanha de 2004. São mais dois minutos de leitura. Perdão por essa breve concessão à minha vaidade.

Era o dia 30 de junho, uma quarta-feira quente, convenção do PSB que definiu a candidatura de Ricardo Murad a prefeito da capital maranhense, quando recebi uma ligação telefônica de César Lisboa, que cuidava da comunicação no governo de Zé Raimundo. Para atender, eu tive que sair do meio da multidão que lotava o Grêmio Lítero Recreativo Português, na Rua do Sol, onde o barulho era enorme. Fui me sentar em um banco da Praça João Lisboa, sob uma árvore, para me aliviar do calor.

Ele me convidou para voltar a Conquista e me juntar a Pola Ribeiro na campanha de Zé, sob a condução remota de Sidônio Palmeira. Eu não fazia uma campanha na cidade desde 1988, quando trabalhei com Sebastião Castro (PDT). Gostei da ideia. Para acertar os detalhes financeiros eu teria que parar o trabalho na capital ludovicense e viajar a Conquista no fim de semana. Tudo bem, era hora de rever meus filhos.

Comprei passagem cara, embarquei em um avião da Varig, às 5 da manhã, para uma conexão em Fortaleza, uma escala em Recife, até chegar a Salvador e de lá pegar um voo (não lembro se Passaredo ou Ocean Air) até Vitória da Conquista. Foram 13 horas de viagem.

Na chegada, avisei a César Lisboa, e ele marcou uma conversa na presença de Geraldo Reis. Fizeram uma oferta salarial de menos de um terço do meu contrato em São Luís. Mas, eu queria fazer mais uma campanha em Vitória da Conquista, ficar perto dos meus filhos. Fiz uma contraproposta, cerca da metade do que eu já tinha certo.

Aí, os dois sumiram: reuniões, aula na Uesb, agenda cheia. Nenhum e-mail respondido, nenhuma mensagem no celular (não havia WhatsApp, mas havia o Microsoft Messenger). Passada uma semana esperando, resolvi retornar a São Luís. Então, como diz Chico Buarque, não sei se por ironia ou por amor, dois dias depois César liga para mim: “Cadê você, o candidato está esperando”.

O meu também estava.

Link para a pesquisa Cesop-Ibope 2004: https://www.cesop.unicamp.br/vw/1JAGUzDA0_MDA_66f38_/TF_01897.pdf

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