Até onde conflito de agendas e broncas de Rui podem interferir na ‘boa relação’ de Jerônimo e Sheila sinalizada na reunião de abril?
Era uma terça-feira, 22 de abril. Na mesma data em que Pedro Álvares Cabral e caterva fundeou sua frota na proximidades de Pindorama* e ‘descobriu’ o que se chamaria de Brasil, o governador Jerônimo Rodrigues (PT), descobria o charme político da prefeita conquistense, Sheila Lemos (União), e a ela fez promessas de uma parceria para fazer todo mundo feliz.
O encontro com Sheila foi no Centro de Operações e Inteligência da Segurança Pública, em Salvador, onde o governador Jerônimo Rodrigues faz reuniões maiores com gestores do interior e políticos. Aquele dia poderia ser chamado de “a terça das mulheres”. Além da gestora de Vitória da Conquista, o governador recebeu em audiências outras três administradoras municipais: as prefeitas de Nilo Peçanha, Jacqueline Soares; de Ubaitaba, Gracinha Viana; e de Itatim, Daiane dos Anjos.
Foram reuniões objetivas, segundo participantes, mas muito cordiais, com o governador risonho, mostrando disposição para ajudar nos projetos municipais e, claro, no sucesso das gestões das quatro mulheres. Os encontros tiveram do mandatário baiano, além do verniz institucional, próprio do seu republicanismo, o cavalheirismo que se espera de um homem em uma conversa com mulheres, anotou uma fonte.
A diferença das outras três para a prefeita de Vitória da Conquista é que todas são aliadas do governador e seria mais natural a concordância e os afagos de lado a lado. Jacqueline Soares, de Nilo Peçanha, foi eleita pelo Podemos, com um vice do PT. Gracinha é do Avante e Daiane é do PSD.
Já Sheila é do União Brasil e tem dito, categoricamente, “sou ligada a ACM Neto, sou União Brasil e não tenho nenhuma intenção de sair”.
Mas quem esteve lá, fala em uma atenção especial à gestora conquistense. Muito por uma simpatia recíproca, porém, ainda mais, porque Jerônimo também sabe que os três municípios mencionados somam pouco mais de 37 mil votos, cerca de 15% do eleitorado de Vitória da Conquista. Em Ubaitaba, a prefeita teve 5.652 votos; em Itatim, Daiane foi reeleita com 7.295 votos e em Nilo Peçanha, Jaqueline também reeleita, teve 4.369 votos.
Nenhum dos municípios tem sua importância desprezada por causa do pequeno eleitorado, mas não dá para fechar os olhos para o fato de que Vitória da Conquista tinha 257.784 eleitores na eleição passada e que Sheila teve 116.488 votos. A conclusão permitida é que Jerônimo pode até saber que a prefeita não muda de lado, mas também sabe que tratá-la bem repercute bem no eleitorado de modo geral. Jerônimo perdeu no município em 2022, nos dois turnos, para ACM Neto (91.460 x 74.023; 119.665 x 82.995).
Em áudio enviado após a reunião com a gestora conquistense, o governador “se derreteu” em elogios: “gentil”, “educada”, “fino trato”. No final, ele coloca o enfeite que faltava na embalagem do presente: “Estamos juntos pra gente poder montar uma agenda de financiamentos e de apoio às políticas de Vitória da Conquista”. Vale lembrar que o governo do estado fala em investimentos de R$ 886 milhões já feitos ou em andamento, antes daquele encontro histórico cheio de afagos de lado a lado.
Logo depois da audiência, Jerônimo Rodrigues deu sinais claros de que, da parte dele, a ‘união’ prosperará. Mandou duas secretárias e um coordenador a Vitória da Conquista para fazer o que fosse possível para atender à prefeita, “porque assim, estaremos atendendo Conquista, que é que importa”.
Saulo Pontes, diretor-superintendente de Infraestrutura de Transportes da Seinfra, fez fotos com o Chefe da Casa Civil, Coronel Ivanildo da Silva, e o secretário municipal Jackson Yoshiura, na travessia do anel rodoviário em direção à Urbis VI.
A secretaria de Saúde, Roberta Santana, visitou o Esaú Matos e encontrou-se com a presidente da Fundação Pública de Saúde, que administra a unidade, Ceres Almeida, e com a secretária Fernanda Maron.
E Jusmari Oliveira, secretária de Desenvolvimento Urbano, esteve com a própria prefeita, no gabinete, em conversa sobre o aproveitamento do terreno do antigo aeroporto.

Porém, há sempre um porém, na hora de colocar a cereja no bolo – com um esperado encontro institucional de governador e prefeita em Vitória da Conquista -, não deu certo. Na verdade, deu muito errado. Jerônimo veio no dia em que Sheila já havia combinado receber ACM Neto, principal rival do PT na Bahia e provável adversário de Jerônimo na eleição de 2026.
O governador, provocado por aliados e pela imprensa, deixou clara a sua decepção, ele queria uma reunião. Convidado por Jerônimo para as inaugurações que fez na cidade, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, ficou bravo e não negou isso a ninguém.

“A prefeita deve ter uma agenda mais importante do que entregar leitos de UTI para a população, do que entregar viaturas, do que entregar equipamentos de imagem. Com certeza, eu não sei qual é a agenda da gestora municipal, mas ela deve ter uma agenda mais importante, então não sou eu que tenho que explicar porque ela não está aqui”, ironizou o ex-governador, que chegou a receber Sheila na governadoria, em 2021.
Jerônimo foi mais comedido. Disse que ele e a prefeita têm projetos políticos diferentes, mas que ele gostaria que essa diferença fosse na disputa política e não envolvesse momentos e questões em que a cidade fosse beneficiada.
De sua parte, a prefeita Sheila Lemos disse não acreditar que o choque de agendas venha a prejudicar a relação entre o governo do estado e Vitória da Conquista. “Eu não sou aliada política do governador, nem ele é meu. Nossa relação é estritamente institucional, não vejo porque minha ausência incomodou tanto. Mas quero, sim, poder recebê-lo em outra oportunidade com toda a deferência que o cargo exige”, afirmou a gestora.
Resta saber o que os dois lados farão para comprovar as intenções republicanas ou se o dia 6 de junho foi realmente o dia D, marco do início da pré-campanha eleitoral em terrenos conquistenses, com a escalada da rivalidade que foi fortemente expressada nas duas eleições, de governador, em 2022, e de prefeito, em 2024.
* Pindorama significa “terra das palmeiras” em Tupi. Afirma a história que assim era como os povos indígenas, principalmente os tupi-guaranis, chamavam o território do atual Brasil, antes da chegada dos europeus.
FOTO DESTAQUE: AMANDA ERCÍLIA/GOVBA (22 de abril de 2025)


