Coluna de Ronnie Peterson | Qual felicidade nós buscamos?



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador e quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática.
“Se quiséssemos ser apenas felizes, isso não seria difícil. Mas como queremos ficar mais felizes do que os outros, é difícil, porque achamos os outros mais felizes do que realmente são”. A famosa frase atribuída ao Barão de Montesquieu parece ter sido escrita nos dias atuais, mas reflete o pensamento do século XVIII.
As redes sociais, com foco na exposição de imagens e fotografias pessoais, quase sempre em momentos felizes, exibindo corpos perfeitos e riqueza material, é a tendência que dita o comportamento da maioria das pessoas. A vida feita de imagens, nem sempre reais, tornou-se o símbolo de uma era, mas que guarda, também, similaridades com o passado.
Ao trazer o reflexo de um pensamento de mais de 200 anos, revela-nos que a comparação de nossa vida com outras pessoas sempre esteve presente como aspecto motivacional do ser humano. Parece ser necessário uma “regua” que meça nosso estado de ânimo, nosso patrimônio e nossas aspirações, onde quase sempre o outro, seja qual for essa comparação, esteja em um patamar superior. Não basta estarmos bem conosco, é pa felicidade do outro será sempre melhor do que a nossa.
Esse espírito que nos move, tende a determinar, também, o comportamento social. O retrato do indivíduo e suas inter-relações, sua visão de mundo e seus desejos individuais acabam por moldar o tipo de sociedade que somos e o caminho que queremos seguir.
O sonho da direita brasileira, por exemplo, é o “american way of life”, o modo de vida dos norte-americanos, tomando por exemplo aspectos altamente danosos para nossa própria experiência de sociedade. Uma estilo de vida baseado no individualismo, na competição, na falta de solidariedade e no acúmulo de bens, representado pelo consumismo exacerbado.
A comparação com o outro pode ser positiva, pode nos ajudar a evoluir, mas, sobretudo, é necessário a valorização de nossa felicidade, de nossos momentos e daquilo que nós conquistamos. Precisamos valorizar nossa identidade e aprender com os erros e traçar a rota do nosso próprio caminho.
O Brasil dos brasileiros precisa ser construído pelos brasileiros, olhando para a frente, mas respeitando a cultura multifacetada que nos torna únicos como povo. Inclui-se aqui nossa forma de fazer política, para que o Estado que desejamos seja fruto das experiências vivenciadas, principalmente na luta por democracia e participação popular, aspectos que foram minimamente reativados a partir das manifestações contra a PEC da Blindagem. Outras pautas virão, há muito o que ser mudado, mas que o norte seja idealizado a partir de nossas vivências e necessidades sociais.
Iniciei este artigo com uma frase de um filósofo francês, e encerro com o pensamento de um autor brasileiro, indígena, Ailton Krenak “Por isso que os nossos velhos dizem: ‘Você não pode se esquecer de onde você é e nem de onde você veio, porque assim você sabe quem você é e para onde você vai’. Isso não é importante só para a pessoa do indivíduo, é importante para o coletivo, é importante para uma comunidade humana saber quem ela é, saber para onde ela está indo…”.
Texto revisado pelo autor.
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