Políticos querem novos hospitais para Conquista, mas Esaú Matos responde às demandas com dificuldade e poderia crescer com mais apoio


Nos últimos meses, políticos de Vitória da Conquista passaram a defender dois novos hospitais para a cidade, um como parte do campus conquistense da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e um pediátrico. O hospital universitário custaria algo em torno de R$ 300 milhões. A unidade pediátrica seria orçado em mais de R$ 100 milhões. Caso fossem viabilizados e a construção começasse agora, nenhum estará funcionando antes do final de 2027.
Antes disso, um hospital municipal considerado da maior importância, que funciona e atende a uma clientela de mais de 40 municípios, além da população conquistense, carece de apoio e decisão política para resolver problemas estruturais e financeiros, podendo ser ampliado desde que tenha recursos – e conte com o interesse dos políticos com poder de decisão e influência.
O Hospital Esaú Matos é uma referência regional em maternidade de alto risco e atendimento pediátrico, sendo o único hospital municipal da Bahia com UTI Neonatal. Em agosto deste ano, realizou 4.200 atendimentos nas áreas de obstetrícia e pediatria, com 689 internações e 418 partos. Em setembro, o número subiu para 4.459 atendimentos, incluindo 462 partos e 658 internações, das quais 89 pediátricas.
O Hospital Esaú Matos foi o único hospital municipal da Bahia a alcançar 100% de conformidade às práticas de segurança do paciente, na avaliação nacional realizada em 2024, segundo as informações enviadas pelo estado para a Anvisa. Ficou em 21º, em uma relação com 36 unidades estaduais e privadas. O Hospital Municipal de Salvador, também relacionado, é administrado pela Santa Casa de Misericórdia da Bahia (Santa Casa da Bahia).
O Hospital Esaú Matos atendeu nos últimos dois meses pacientes, milhares de mães e filhos, de cerca de 50 municípios da região e do Norte de Minas, e até das distantes Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador; Juazeiro, no norte do estado, divisa com Pernambuco; e Bom Jesus da Lapa, além de municípios de outros estados, como Santa Helena (PR), Vitória (ES), Mauá (SP), São Paulo (SP), Taboão da Serra (SP) e Ibiraci (MG), lá na divisa de Minas Gerais com São Paulo.
Mas, o Esaú Matos não passa bem.
A entidade mantenedora do hospital é a Fundação Pública de Saúde de Vitória da Conquista (FSVC), criada em 12 de dezembro de 2011, e que passou a funcionar em janeiro de 2013. A instituição pode receber recursos financeiros de uma lista grande de fontes, mas só chega dinheiro via Município, maior parte, com recursos próprios e do SUS, e Estado. E esse financiamento não está dando conta.
O déficit mensal gira em torno de R$ 1 milhão e meio. Historicamente sempre houve uma diferença entre a receita e os custos de operação do hospital, mas ela vem aumentando desde 2020, principalmente por causa da pandemia, com os aumentos nos preços dos insumos, materiais e equipamentos hospitalares e do custo com pessoal. Para agravar, nesse período o serviço de obstetrícia do SUS do Hospital São Vicente de Paulo foi fechado. Como consequência, o número de partos no Esaú aumentou. Tendo como referência no ano de 2017, o crescimento foi de aproximadamente 40%, segundo a Fundação Pública de Saúde.
Um dos fatores que elevam o custo do Esaú Matos são os partos de alto risco, 60% das operações feitas na unidade. É que, como muitas das gestantes têm complicações antes ou no pós-parto, os bebês também podem ter após o nascimento, o que eleva o custo da internação, quase sempre ultrapassando os valores propostos pelo SUS.
Apesar disso tudo, de forma geral, a prestação de serviço no hospital não cai, em comparação com o tempo em que havia serviços de parto pelo SUS em outros hospitais e a dificuldade financeira era menos profunda. De acordo com a direção da FSVC, em termos de qualidade dos profissionais, dos recursos disponibilizados para a assistência aos pacientes, não tem diferença. “O que mais impacta hoje é a demanda elevada e a estrutura física, que não corresponde ao quantitativo de atendimentos realizados, explica Ceres Almeida, diretora-geral da instituição, nomeada pela prefeita Sheila Lemos em fevereiro deste ano.
Ela relaciona ainda a dificuldade de contratar profissionais de obstetrícia, anestesia e pediatria, em razão dos valores dos plantões em relação ao que é pago pelas unidades contratadas pelo Estado, que são muito mais elevados. Ceres alerta que “a demanda elevada leva a dificuldades financeiras, à maior demora no atendimento e a maior risco de eventos adversos, ou seja, de resultados não esperados”.
Uma das queixas feitas ao Esaú Matos hoje diz respeito à estrutura física que, de acordo com a FSVC, também impacta na demora do atendimento e eventual desconforto para as pacientes atendidas, mas isso não tem impedido o acolhimento. “Nenhuma gestante deixa de ser atendida na obstetrícia”, assegura a diretora.
Outro gargalo seria a quantidade de leitos de neonatologia, que não é suficiente para atender à demanda gerada pelo próprio hospital, ou seja, quem já está internado. “Isso leva a precisarmos ter uma enfermaria montada com equipamentos de semi-intensiva e/ou UTI neonatal, para atendimento dos recém-nascidos que não tenham vagas disponíveis na UTI ou na semi-intensiva no momento do nascimento”, conta Ceres.
Para muita gente que não tem necessidade de usar o hospital, o Esaú Matos ou só é uma maternidade ou só uma unidade para atendimento de crianças. E é tudo isso junto. Mães chegam todos os dias, grávidas ou com seus bebês precisando de atendimento. Em relação à quantidade de leitos para internamento pediátrico, Ceres esclarece que não essa é a maior dificuldade, mas sim o suporte do pronto-socorro. “Temos condição para realizar as internações das crianças, a dificuldade neste caso é na porta de urgência/emergência, pois temos uma demanda elevada de pacientes e somos a única de alto risco da região “.
Diante da importância do hospital municipal de Vitória da Conquista e da complicada situação financeira por que passa a fundação, surge a pergunta: Existe uma razão pela qual os recursos atualmente disponíveis não permitem uma situação tranquila e/ou ampliação do atendimento?
A resposta é sim. Os recursos financeiros não são suficientes para manter o atendimento e quitar parte dos débitos anteriores, o que dificulta, inclusive, aquisição de insumos para a unidade, isto é, falta material para os procedimentos. “Se forem comparados os valores recebidos por outros hospitais para tipos de atendimentos semelhantes, verifica-se que os mesmos recebem valores muito acima do que o Esaú recebe, mesmo com produção muito menor”, diz Ceres Almeida. A partir dessa conta, é possível concluir que o custo financeiro do Esaú Matos não é exorbitante, mas, ao contrário, é baixo, pois entrega mais atendimento recebendo menos.

RECURSOS FINANCEIROS E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
E do que o hospital municipal que é referência regional em maternidade de alto risco e atendimento pediátrico e se destaca pela qualidade do atendimento de sua UTI neonatal, precisa para poder prestar o atendimento que a demanda pede? Recursos financeiros.
Precisa entrar mais dinheiro no Esaú Matos, em quantidade suficiente para atender os custos e despesa, pagar os fornecedores em atrasos e adquirir insumos e materiais com preços mais em conta (a dificuldade de pagamento e os atrasos, contribuem para elevar o custo dos insumos, em uma lógica compreensível de mercado).
Com mais recursos, ainda de acordo com a direção da Fundação Pública de Saúde, haverá tranquilidade para manter o atendimento à população e regularizar os pagamentos aos médicos, ao mesmo tempo em que melhora a remuneração dos profissionais, garantindo o valor de mercado para ter sempre a melhor equipe. “Além disso, precisamos de recursos para fazer melhorias básicas na estrutura física e abrir o Centro de Parto Normal (CPN), o que ajudaria muito na qualidade do atendimento e ampliaria a oferta de leitos no hospital”, conclui Ceres Almeida.


