Da polêmica non sense de Havaianas às relações interpessoais, 2026 promete! Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática
O ano de 2026 mal despontou no calendário e o clima de tensão já parece saturar o oxigênio das interações sociais no Brasil. Não se trata apenas de mais um ciclo eleitoral, mas da culminação de um processo de polarização afetiva que transformou a divergência política em uma barreira existencial. Se 2022 foi o ano da ruptura, 2026 promete ser o ano do “filtro total”, onde cada gesto, palavra ou escolha de consumo será escrutinado sob a lente binária da ideologia.
Nada ilustra melhor esse cenário do que a recente polêmica envolvendo a marca Havaianas. O que começou como um trocadilho publicitário inofensivo — uma peça com a atriz Fernanda Torres sugerindo não começar o ano apenas com o “pé direito”, mas com “os dois pés” — rapidamente se transformou em uma trincheira ideológica. Em um ambiente onde a neutralidade morreu, o “pé direito” deixou de ser uma metáfora de sorte para ser lido como um símbolo partidário.
Esse episódio é um sintoma pedagógico: em 2026, não existe mais o “fora de campo”. Se até um chinelo de borracha pode ser transformado em um artefato de guerra cultural, o que sobra para as relações humanas mais íntimas? O boicote a marcas e a patrulha estética indicam que o diálogo será substituído pela decifração de códigos: “O que ele quis dizer com isso?”, “Aquela cor é uma provocação?”.
Nas relações familiares, o desafio será hercúleo. Após anos de grupos de WhatsApp silenciados e jantares de Natal evitados, a fadiga mental é evidente. No entanto, a proximidade do pleito de 2026 tende a reabrir feridas. O fenômeno do viés de confirmação fará com que parentes ignorem pontos em comum para focar exclusivamente no que os separa.
O risco real não é apenas a discussão acalorada, mas o isolamento emocional. Quando o ambiente doméstico se torna um tribunal, o indivíduo perde seu porto seguro. A tendência para este ano é o surgimento de “bolhas familiares”, onde a convivência só é possível através da omissão de temas fundamentais ou da exclusão definitiva de quem pensa diferente.
No ambiente profissional, a situação é ainda mais delicada. Se em casa o afeto pode (às vezes) amortecer o golpe, no trabalho a hierarquia e a produtividade estão em jogo. O aumento de relatos de assédio eleitoral e a criação de ambientes tóxicos são preocupações reais para o RH das empresas em 2026.
A necessidade de colaboração entre colegas de visões opostas será testada diariamente. Polêmicas como a das Havaianas ou debates sobre pautas sociais infiltrar-se-ão nas pausas para o café, transformando colaboradores em adversários. A saúde mental do trabalhador brasileiro, já pressionada pelas próprias condições laborais, enfrenta agora o peso de um ambiente social instável e vigilante.
Outro fator essencial será a propagação de notícias falsas usando Inteligência Artificial, principalmente usando imagens e vídeos bem realísticos, com foco nos políticos. Os órgãos da Justiça Eleitoral terão trabalho redobrado para fiscalizar o uso destes mecanismos, principalmente no intuito de tumultuar o processo e enganar pessoas mais simples.
Para atravessar 2026 sem sacrificar a saúde mental e os laços afetivos, será preciso exercitar uma inteligência emocional cívica. É necessário reconhecer que a política é uma parte importante da vida, mas não é a totalidade da nossa identidade. Se permitirmos que a “guerra das sandálias” dite quem pode sentar à nossa mesa, estaremos entregando nossa humanidade em troca de um dogmatismo estéril.
O ano será difícil, sem dúvida. As urnas decidirão o destino do país, mas nossas escolhas diárias de empatia decidirão o destino de nossas famílias e amizades. Que em 2026 possamos, de fato, entrar com os dois pés — mas que sejam pés dispostos a caminhar em direção ao outro, e não apenas a chutar portas.
Texto revisado pelo autor
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