Caso do adolescente que se fantasiou de nazista e formatura no RN: Vitória da Conquista teve episódio parecido em colégio particular. Relembre

Caso do adolescente que se fantasiou de nazista e formatura no RN: Vitória da Conquista teve episódio parecido em colégio particular. Relembre

No sábado (10), um adolescente de 13 anos apareceu vestido com um traje nazista na festa de formatura de duas primas, em Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte. Um vídeo circulou nas redes sociais com o menino usando o traje e fazendo a saudação nazista com o braço direito estendido, como era reverenciado Adolf Hitler. As imagens causaram choque e repercutiram na internet e na mídia.

Em um vídeo gravado depois do episódio, o adolescente se desculpou e disse que comprou a fantasia em uma feira de Fortaleza, capital do Ceará, e não pensou que causaria o impacto que causou. “Eu não sabia que repercussão poderia tomar, até onde poderia ter levado, até aonde isso aconteceu. Essa fantasia eu comprei em uma feira aqui em Fortaleza, só pensando que fosse mais uma fantasia que eu usasse”.

O adolescente falou que gostava de se fantasiar e comprou o traje nazista como uma fantasia qualquer. “Eu peço desculpas a quem se sentiu ofendido, a quem se sentiu triste com essa situação, com as minha atitudes. […] Sempre gostei muito de me fantasiar de vários personagens históricos como Napoleão, até o próprio Jason ou Capitão América. Eu pensei que seria só mais um personagem, mas como vocês viram, não é”.

O caso está sob investigação da Polícia Civil e do Ministério Público. No Brasil, fazer qualquer tipo de apologia com símbolos nazistas é crime previsto na Lei 7.716/1989, a pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa. Como o adolescente é inimputável penalmente, mas responde pelos atos infracionais, aplicam-se medidas socioeducativas, que podem ir de advertência e prestação de serviços à comunidade até semiliberdade ou internação.

Nas redes sociais, internautas questionaram a responsabilidade dos pais e da organização da festa. A empresa Master Produções e Eventos, promotora do evento, repudiou o ocorrido e afirmou que o adolescente chegou usando roupas normais e vestiu o traje nazistas depois, para fazer as imagens. A Faculdade de Enfermagem Nova Esperança de Mossoró (Facene) também manifestou repúdio. O BLOG não encontrou manifestações dos pais. Por envolver menor de idade o caso segue sob em segredo de Justiça.

EM VITÓRIA DA CONQUISTA

Em maio de 2019, em um colégio particular localizado no bairro Candeias, em Vitória da Conquista, três adolescentes se envolveram em uma polêmica com o mesmo tema. Em uma rede social, fotos de dois deles fazendo a saudação nazista, usando uma faixa no braço com um desenho de suástica.

A publicação atraiu os protestos da Comunidade de Estudos Judaicos de Vitória da Conquista e de entidades como a Clínica de Direitos Humanos (CDH) vinculada ao Departamento de Ciências Sociais Aplicadas (DCSA) da Uesb. Poucos meios de comunicação tocaram no assunto e alguns que chegaram a mencionar o episódio retiraram a publicação, inclusive este BLOG, depois de longas conversas com a direção da escola.

Ao relembrar o episódio conquistense, a partir da provocação quem vem de Mossoró, o BLOG fez contato com o antigo diretor da unidade de ensino, para saber o que aconteceu com os estudantes – que, quase seis anos depois, estão adultos e, provavelmente graduados em curso superior – , se eles continuaram no colégio e se, eventualmente, fizeram mais alguma coisa parecida. Não tivemos retorno ainda.

Á época, a direção do colégio (cujo nome não será citado) postou uma nota no Instagram e no Facebook, informando que a postura dos alunos não combinava com a filosofia do estabelecimento e que tomaria as medidas cabíveis. A opção foi pedagógica, além de suspensão de uma semana, os adolescentes receberam tiveram que fazer um trabalho de dez laudas sobre nazismo, ver quatro filmes temáticos, incluindo A Lista de Schindler e o Menino do Pijama Listrado, e ler três livros, entre os quais O Diário de Anne Frank, que, aliás, era retratada em ilustração na entrada do colégio.

Ao BLOG, o diretor informou que o promotor de Justiça da Infância e Juventude de Vitória da Conquista havia considerado satisfatória a medida adotada e elogiado o colégio, a exemplo do que teria feito o Grupo de Estudos Judaicos de Vitória da Conquista, que, depois de se considerar ofendido e manifestar indignação com a atitude dos dois adolescentes, divulgou uma carta em que agradecia e elogiava o colégio por “promover o debate e a liberdade religiosa”.

VEJA A MATÉRIA ORIGINAL (SEM MENÇÃO DE NOMES)

Episódio em que alunos fazem saudação nazista em colégio de Conquista não pode passar em branco

Poderia ser apenas mais uma foto inofensiva, em que jovens trolam outros com uma brincadeira do momento. Poderia ser um beijo e shallow now ou até, não tanto inofensiva, mas muito comum, a expressão de alegria em uma festa de camisa, com garrafas long neck de cerveja nas mãos. Mas, não.

Os rapazes, aparentemente menores de idade, estavam em uma sala de aula e ao invés de uma camisa de festa, vestiam a farda de um colégio particular da cidade. E não jogavam beijo ou se davam um abraço festivo, estavam com os braços estendidos, imitando a saudação nazista a Hitler, e um deles tinha uma faixa branca em volta do braço direito, onde aparece desenhado o símbolo do nazismo, a suástica.

A imagem foi postada em uma rede social e causou indignação, principalmente da Comunidade de Estudos Judaicos de Vitória da Conquista, que, no dia 15 deste mês [maio de 2019], ofendida, fez uma nota de repúdio, que fez circular pelo WhatsApp, e levou sua indignação ao conhecimento da escola e do Ministério Público. Na nota, a entidade condena a apologia ao nazismo praticada dentro do colégio e lembra que o nazismo foi o “regime que dizimou milhões de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos, entre outros grupos minoritários, o que, por si só, causa absoluta indignação, ainda mais vindo de dois jovens estudantes em um ambiente conhecido como ‘casa do saber’ – escola”.

Também a Clínica de Direitos Humanos (CDH), vinculada ao Departamento de Ciências Sociais Aplicadas (DCSA), com a participação de estudantes do curso de Direito da Uesb, se solidarizou com a comunidade judaica e expressou seu repúdio “diante da postura dos dois estudantes de determinada escola da cidade, que postaram foto aparentemente fazendo apologia ao nazismo”. Apesar de usar o termo “aparentemente” em sua nota, a CDH/Uesb descreve a fotografia dizendo que na “imagem, dois jovens posam com a insígnia suástica e com os braços na posição de saudação típica do nazismo”. Na sequência, a CDH produziu e publicou em seu perfil no Instagram um vídeo educativo, como parte da campanha “Lembrança do Holocausto: exija e defenda os seus Direitos Humanos”.

Sobre o assunto, o colégio postou uma nota no seu perfil do Instagram e na página do Facebook, informando que a postura dos alunos não combina com a filosofia da mesma e que tomaria as medidas cabíveis. No Instagram, a postagem teve 510 curtidas e nenhum comentário. No Facebook, teve 53 reações, dois compartilhamentos e dois comentários, mas estes não estão disponíveis para leitura.

O caso chegou a sair em um blog de Vitória da Conquista, mas, avisado, o Ministério Público recomendou que o mesmo tirasse a foto dos estudantes, pois se tratava de menores e não podiam ser expostos. O blog mencionado, então, optou por excluir a notícia completa. Fora isso, pouco se falou no assunto, apesar do seu teor e da necessidade fundamental de discutir episódios dessa natureza, pelo que contêm de preconceituosos, ofensivos, potencialmente perigosos e, por isso mesmo, combatidos por lei.

Monitorando as redes sociais encontramos no Facebook somente dois perfis abordando o assunto. Um compartilhou a nota da CDH/Uesb e o outro comentou a atitude dos alunos, chamando-os de racistas e relatando que o colégio fez (na terça, 22, pela manhã) um evento focado no tema, constando palestras – com um psiquiatra, um psicólogo, um representante da Comunidade de Estudos Judaicos e uma professora de História – para os alunos do ensino médio, incluindo os dois estudantes que fizeram os gestos nazistas.

ORIENTAÇÃO SOCIOEDUCATIVA

O BLOG entrou em contato com o Colégio xxx, onde os dois jovens foram fotografados, para saber mais informações sobre o episódio e quais as medidas tomadas em relação aos alunos. Recebemos, de volta, uma ligação do diretor pedagógico da instituição, xxx, que explicou as medidas adotadas pelo colégio diante do caso. De acordo com ele, a opção foi pedagógica. Os alunos foram suspensos por uma semana e estão tendo que participar de atividades sobre os horrores do holocausto e de conscientização acerca dos preconceitos.

“Entendemos que educar é antes de tudo acolher. De acordo com o nosso pensamento, um ato não define uma pessoa, se ele não foi completamente delituoso ou intencional, por isso, a escola partiu, com o endosso da própria comunidade judaico-cristã e do Conselho Regional de Psicologia, para tomar medidas socioeducativas”, explicou o diretor. A alternativa foi chamar os pais, conversar com os dois jovens e dar a eles tarefas que os ajudassem a compreender a gravidade do erro, propiciando o entendimento sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas a quem homenagearam em sala de aula.

Os dois alunos não tinham advertência anterior e, segundo xxx, a transferência compulsória foi considerada injusta e “nem havia embasamento no regimento para poder fazê-lo”. Além da suspensão de uma semana, os alunos receberam a incumbência de fazer um trabalho de dez laudas sobre nazismo, com a obrigação de ver quatro filmes temáticos, incluindo A Lista de Schindler e o Menino do Pijama Listrado, e ler três livros, entre os quais O Diário de Anne Frank, que, aliás, é retratada em ilustração na entrada do Colégio xxx.

Fora essas atividades, os jovens e os demais estudantes do ensino médio do colégio participaram de palestras. “Reunimos toda a escola, por quase três horas, para abordarmos a cultura do não-ódio, porque tinha gente dizendo ‘vamos matar’, ‘vamos dar uma surra’, ‘a escola tem que expulsar’. No primeiro, foi o discurso de ódio [como reação ao que fizeram os dois alunos], o que, para mim, enquanto educador, era pior do que o ato dois estudantes, já que falava em matar alguém por um ato impensado. Então, fizemos o caminho educativo todo, fizemos um documento relatando ao Ministério Público todas as nossas ações entregamos ao Dr. Marcos, que já arquivou o processo”.

ARREPENDIDOS E CHOROSOS

Para o professor, os jovens não tinham noção do que estão fazendo. Segundo ele, na visão do colégio, o objetivo, agora, é ajudar que os dois estudantes – “arrependidos, chorosos, sabendo da grande coisa errada que fizeram” – possam se tornar cidadãos de verdade”, já que a expulsão, de acordo com ele, poderia levá-los a optarem pelo nazismo. “A expulsão seria a pior coisa, no sentido lato falando, porque poderiam se revoltar e se tornar nazistas de verdade, por enquanto são só adolescentes que fizeram uma grande bobagem”, acredita.

Além da suspensão de uma semana, do trabalho de dez laudas, da obrigação de ver filmes e ler livros sobre o nazismo e o holocausto, os dois alunos, já reincorporados à sala de aula, vão participar da elaboração de um sarau literário e histórico sobre o chamado holocausto brasileiro, ocorrido no Hospital Colônia de Barbacena (MG) – onde teriam morrido por maus tratos 60 mil pessoas que eram levados para o local com objetivo de afastá-las do convívio social -, e sobre a luta antimanicomial, informou xxx.

O caso já teria sido arquivado pelo Ministério Público. O diretor disse que o promotor de Justiça da Infância e Juventude de Vitória da Conquista, Marcos Almeida Coelho, considerou satisfatória a medida adotada e elogiou o colégio, a exemplo do que fez o Grupo de Estudos Judaicos de Vitória da Conquista, que, depois de se considerar ofendido e manifestar indignação com a atitude dos dois adolescentes, divulgou uma carta em que agradece e elogia o colégio por “promover o debate e a liberdade religiosa”. Para o grupo, as medidas socioeducativas foram “adequadas ao contexto do comportamento de alguns de seus alunos” e que o “colégio se esmerou, nos últimos dias, em plantar uma semente de avaliação, de tolerância, de conhecimento. Uma semente de futuro foi plantada”.

* O colégio não informou se o aluno que fez a foto também foi incluído nas medidas socioeducativas.

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