Partidos políticos ou legendas de aluguel? A crise do sistema partidário brasileiro. Coluna de Ronnie Peterson

Partidos políticos ou legendas de aluguel? A crise do sistema partidário brasileiro. Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática

​Na teoria política clássica, um partido político é definido como uma organização que agrega indivíduos com interesses, valores e ideologias semelhantes, com o objetivo de alcançar o poder político para implementar um projeto de sociedade. Eles deveriam atuar como pontes vitais entre a população e o Estado, traduzindo as demandas sociais em políticas públicas. No entanto, ao observarmos o cenário brasileiro atual, essa definição parece pertencer a uma realidade distante. O que vemos é um sistema distorcido, marcado por uma fragmentação excessiva, pragmatismo vazio e legendas que operam mais como empresas do que como agremiações ideológicas.

​O Brasil convive com uma das maiores fragmentações partidárias do mundo. Com dezenas de partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitor se vê perdido em uma “sopa de letrinhas” onde as distinções ideológicas são, na maioria das vezes, inexistentes. Diferenciar o programa de um partido de “centro”, “centro-direita” ou “centro-esquerda” tornou-se uma tarefa quase impossível, pois a maioria abandonou a doutrina em favor da conveniência.

​Essa falta de identidade clara resulta em um fenômeno nocivo: a desconexão absoluta entre o político e a bandeira que ele carrega. Aqui em Vitória da Conquista, tivemos vereador autodeclarado de direita, eleito por um partido ideologicamente de esquerda, sem falar naqueles que estão em partidos de oposição e se comportam como situação. O partido deixa de ser um lar ideológico para se tornar um mero trampolim eleitoral. A fidelidade partidária é frágil, e as trocas de legenda ocorrem ao sabor das janelas eleitorais e das negociações de bastidores, e não por alinhamento de princípios. O eleitor vota em um candidato por sua imagem pessoal, ignorando que, no sistema proporcional, seu voto ajuda a eleger outros membros daquela legenda com os quais ele pode não ter nenhuma afinidade.

​Talvez o sintoma mais grave dessa patologia democrática seja a existência dos chamados “partidos de cartório”. São agremiações que existem juridicamente, possuem estatuto e registro, mas não têm base social, militância orgânica ou votos significativos. Eles sobrevivem artificialmente, muitas vezes controlados por caciques políticos que utilizam a estrutura partidária como moeda de troca.

Essas legendas funcionam como “barrigas de aluguel”, oferecendo seu tempo de televisão e, principalmente, o acesso aos fundos públicos para candidatos que precisam de uma sigla para concorrer. Em troca, a direção do partido ganha influência e poder de barganha em coligações, sem nunca precisar apresentar um projeto real para o país.

​A raiz desse problema está profundamente ligada à forma de financiamento. O Brasil movimenta bilhões de reais através do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. Embora o financiamento público seja, em teoria, uma ferramenta para democratizar a disputa e evitar a influência excessiva do poder econômico privado, na prática, ele acabou sustentando estruturas zumbis.

​O dinheiro do contribuinte muitas vezes financia burocracias partidárias de legendas que não representam ninguém. Isso cria um ciclo vicioso: cria-se um partido para acessar o fundo, usa-se o fundo para tentar eleger qualquer candidato puxador de votos, e mantém-se a estrutura viva para a próxima eleição. A falta de critérios mais rígidos de desempenho (embora a cláusula de barreira venha tentando mitigar isso gradualmente) permite o desperdício de recursos públicos em agremiações irrelevantes.

​A democracia brasileira clama por uma reforma política profunda. Não se trata apenas de reduzir o número de partidos, mas de qualificar a representação. É necessário endurecer as regras para a criação e manutenção de legendas, vinculando o acesso ao dinheiro público à existência de uma representatividade real e comprovada.

Enquanto os partidos forem vistos como balcões de negócios ou cartórios burocráticos para registro de candidaturas, a crise de confiança entre a sociedade e a classe política continuará a se aprofundar. Para que a democracia funcione plenamente, os partidos precisam voltar a ser escolas de formação política e espaços de debate ideológico, e não apenas chaves para acessar os cofres públicos.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

As opiniões manifestadas pelos artigos publicados não representam, necessariamente, a opinião deste BLOG. São uma forma de estimular o debate e o pensamento, estando o espaço aberto para outras manifestações de articulistas (independente de partido ou ideologia política) interessados em discutir o momento da vida nacional.

Deixe uma resposta

Você não pode copiar conteúdo desta página

Descubra mais sobre BLOG DE GIORLANDO LIMA

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo