Evolução das campanhas eleitorais: do corpo a corpo analógico ao labirinto digital – Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.
Há pouco mais de 60 dias para o início das campanhas eleitorais, o cenário no Brasil passou por uma metamorfose radical nas últimas décadas. Quem caminha pelas ruas em período de eleição hoje encontra um ambiente muito diferente daquele de trinta ou quarenta anos atrás. A tradicional festa cívica, marcada pelo barulho das massas e por grandes mobilizações físicas, cedeu espaço a uma disputa silenciosa, travada centímetro a centímetro nas telas dos smartphones.
Para compreender essa mudança, é preciso olhar para o passado. Até o final do século XX, as campanhas dependiam crucialmente da presença física e do carisma direto dos candidatos. O auge desse modelo consolidou-se na era dos showmícios: grandes eventos que misturavam discursos políticos inflamados com apresentações gratuitas de artistas consagrados. O eleitorado era atraído pela promessa de entretenimento e, entre uma música e outra, consumia a proposta política. No entanto, em 2006, essa prática foi proibida pela legislação eleitoral sob o argumento de que desequilibrava o pleito, favorecendo candidatos com maior poder aquisitivo para contratar os grandes nomes da música.
Com o fim dos showmícios e o endurecimento das regras para o uso de brindes e outdoors, o coração das campanhas migrou definitivamente para duas frentes: o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral no rádio e na televisão, e os tradicionais comícios de rua. Durante anos, o tempo de rádio e TV foi o ativo mais valioso de um partido. Ter a maior coligação significava dispor de preciosos minutos diários para construir uma narrativa, emocionar o eleitor com produções cinematográficas e desconstruir adversários. Esse tempo ditaria o ritmo de vitórias e derrotas presidenciais e municipais por gerações
Paralelamente, os comícios de rua mantinham o calor do corpo a corpo. Contudo, nos últimos anos, esses grandes atos praticamente desapareceram. A imagem do candidato discursando em cima de um imenso palanque para uma multidão perdeu força. Em seu lugar, surgiram as plenárias pequenas e setorizadas. Hoje, as coordenações de campanha preferem reuniões focadas em nichos específicos, como encontros com profissionais da saúde, lideranças de um bairro ou coletivos jovens. Quase sempre sem festejos, sem bandas ou fogos, essas reuniões funcionam mais como laboratórios de escuta e gravação de conteúdo do que como demonstrações de força popular. O foco mudou: não se busca mais lotar uma praça, mas sim gerar o “corte” perfeito para o vídeo que vai viralizar na internet.
Essa transição nos leva diretamente à era das novas tecnologias. A internet, as redes sociais e os aplicativos de mensagens revolucionaram a comunicação política, facilitando um contato direto, hipersegmentado e de baixo custo com o eleitor. Se antes era preciso panfletar de porta em porta, hoje algoritmos entregam a mensagem certa para o eleitor certo, baseando-se em seus interesses pessoais. O candidato está literalmente no bolso do cidadão, conversando por meio de vídeos rápidos nos stories ou mensagens de áudio encaminhadas.
No entanto, essa proximidade trouxe consigo perigos profundos, disfarçados principalmente na forma de fake news. A desinformação tornou-se uma arma de destruição em massa de reputações e um desafio de proporções gigantescas para a própria democracia. Com o avanço recente da Inteligência Artificial e das ferramentas de deepfake (tecnologia que altera rostos e vozes com precisão assustadora), ficou difícil para o eleitor comum distinguir o fato da ficção. Boatos criados em laboratórios digitais espalham-se de forma viral, influenciando decisões de voto antes mesmo que qualquer checagem oficial possa contestá-los.
A evolução das campanhas eleitorais mostra que o campo de batalha mudou de endereço. A política desceu dos grandes palanques e entrou no ecossistema digital. Se por um lado a tecnologia democratizou o acesso à informação e permitiu um debate mais dinâmico, por outro exige um eleitorado muito mais vigilante e crítico para não ser manipulado por ilusões digitais.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
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