A descaracterização do São João: quando o forró vira coadjuvante na sua própria festa – Coluna de Ronnie Peterson

A descaracterização do São João: quando o forró vira coadjuvante na sua própria festa – Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças.

O mês de junho no Nordeste sempre foi sinônimo de fogueira, canjica, o chiado do chinelo e o lamento dolente da sanfona. Historicamente, o forró foi o carro-chefe que conduziu os festejos juninos a se tornarem uma das principais e mais ricas manifestações culturais do Brasil. No entanto, quem percorre os grandes pátios do povo hoje se depara com um cenário profundamente modificado. As festas públicas de São João têm se transformado em megafestivais musicais genéricos onde tem de tudo: grandes produções de artistas sertanejos, trios de axé e até DJs de música eletrônica.

Enquanto os holofotes do palco principal miram o que está em alta no topo das plataformas de streaming, o autêntico forró — aquele de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Marinês — fica de escanteio. Essa realidade não é exclusividade de um município isolado, mas sim uma tendência mercadológica que engoliu gigantes como Caruaru e Campina Grande, e se repete em cidades referências como Santo Antônio de Jesus e Vitória da Conquista. Nesses locais, para se ouvir a sanfona e o triângulo, muitas vezes é preciso migrar para os palcos alternativos, polos culturais secundários, na madrugada ou palhoças periféricas. O ritmo que gerou a festa foi rebaixado a coadjuvante.

Diante disso, precisamos nos indagar com urgência: o quão importante é valorizar a tradição? A desculpa quase sempre gira em torno do retorno financeiro e do turismo. Contudo, cabe o questionamento: será que o turista que sai do Sul e do Sudeste para passar uma festa junina no Nordeste quer realmente ver o mesmo que ele já tem em seu cotidiano? É pouco provável que alguém viaje milhares de quilômetros para assistir ao mesmo show de sertanejo ou de pop que lota as arenas de Barretos ou os festivais paulistas. O que atrai o visitante é a alteridade, a singularidade da experiência, o sabor da comida típica aliado à cadência do zabumba. Quando pasteurizamos a identidade junina, perdemos o nosso maior diferencial competitivo.

A reciprocidade cultural tampouco existe nesse mercado. Dificilmente veremos no palco principal da Festa do Peão de Barretos um artista nordestino do forró tradicional cantando sobre a seca e o xaxado, da mesma forma que no Carnaval do Rio de Janeiro ou de Salvador raramente ouvimos o som da sanfona comandando a massa. Por que, então, os pátios juninos precisam abrir mão de sua soberania cultural para abrigar o que já domina as rádios o ano inteiro?

A raiz do problema toca na responsabilidade governamental. Qual é a dificuldade do poder público em resguardar nossa tradição e valorizar os artistas locais? Festas públicas são custeadas com o dinheiro do contribuinte e deveriam funcionar como mecanismos de salvaguarda do patrimônio imaterial. Em vez disso, prefeituras seguem gastando milhões de reais em atrações estranhas às nossas tradições, justificando que estão “atendendo ao gosto do público”. O que se ignora é que esse público é condicionado a escutar aquilo que o mercado impõe por meio de algoritmos e massificação midiática. O papel do Estado não deve ser o de replicar a lógica puramente comercial das produtoras privadas, mas sim o de fomentar a cultura de raiz, garantindo a sobrevivência de sua própria história.

Não se trata de pregar um purismo cultural cego ou proibir a diversidade, mas de garantir a centralidade de quem construiu a base da festa. O São João corre o risco de virar apenas mais um evento no calendário de shows do país, despido de sua alma. Preservar o forró no palco principal não é um ato de nostalgia passadista; é uma postura de resistência e soberania cultural para que as próximas gerações ainda saibam o verdadeiro significado de celebrar a noite de São João.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

FOTO DESTAQUE: ILUSTRAÇÃO PRODUZIDA COM AJUDA DO CHATGPT

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