Pós-eleição: ACM Neto e o melancólico crepúsculo de uma dinastia. Coluna de Ronnie Peterson

Pós-eleição: ACM Neto e o melancólico crepúsculo de uma dinastia. Coluna de Ronnie Peterson

Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças-feiras

Nestas próximas semanas, vou me debruçar para analisar o resultado das eleições, em todas as esferas, os impactos para futuro, a partir de uma visão crítica particular, sem ter a pretensão de encerrar o dabete mas, justamente o oposto, abrindo espaço para diálogos construtivos, iniciando pela derrota de ACM Neto.

​Olho para o cenário político da Bahia após a confirmação da reeleição de Jerônimo Rodrigues e não vejo apenas mais um resultado das urnas. Testemunho a consumação de um longo ciclo histórico. A terceira derrota consecutiva de ACM Neto na disputa pelo Palácio de Ondina marca, com traços definitivos, o crepúsculo do carlismo, aquele movimento que, por décadas, orbitou em torno do punho de ferro do seu avô, Antônio Carlos Magalhães.

​O velho ACM herdou o caminho aberto por seu pai, mas foi no ambiente sombrio da ditadura militar que projetou sua influência de forma exponencial. Entre a astúcia política e o controle brutal das estruturas do Estado, construiu um verdadeiro império midiático. A rede de comunicação construída por ele e hoje sob o controle de sua família, lapidou sua caricatura como o “maior líder baiano”. Governou o estado em três oportunidades, embora apenas uma tenha ocorrido pelas vias verdadeiramente democráticas. Seu poder se alimentava do receio, de perseguições veladas e de alianças que alçaram figuras sem brilho próprio aos mais altos cargos públicos, contanto que seguissem fiéis à sua tutela.

​Entretanto, a pretensa aura de imbatibilidade começou a ruir em 2006, quando o mito naufragou na histórica vitória de Jaques Wagner sobre Paulo Souto. Ali se anunciava o início do fim. O império balançou e políticos com DNA genuinamente carlista entenderam que os ventos mudavam de direção. Otto Alencar e tantos outros debandaram da antiga base, reorganizando-se para compor e fortalecer as fileiras do petismo no estado.

​Com o trágico falecimento de Luís Eduardo Magalhães, o filho predileto e herdeiro natural do projeto nacional do avô, a responsabilidade de manter o espólio político caiu sobre os ombros de ACM Neto. Houve momentos em que o herdeiro pareceu capaz de reescrever a história, após bem avaliadas gestões como prefeito de Salvador. Mas uma sequência de decisões estratégicas equivocadas e a incapacidade de se reconectar com o interior baiano o levaram a acumular reveses contra as candidaturas do PT.

​Se avaliarmos isoladamente o desempenho das urnas, os números do pleito não chegam a ser uma catástrofe eleitoral absoluta. Contudo, quando a poeira da campanha baixar, o horizonte que se desenha para Neto é profundo e turbulento. O ex-prefeito precisará prestar contas sobre as incômodas denúncias de repasses financeiros ligados ao escândalo do Banco Master e, principalmente, responder sobre a teia de relações com o empresário Jose Marcos Moura, conhecido como o “rei do lixo”. Desdobramentos graves que ameaçam arrastá-lo diretamente para o banco dos réus.

​É verdade que a família Magalhães preserva seu alcance na mídia, operando a maior rede de comunicação da Bahia. Mas a política real não se dobra apenas às telas de televisão ou ao rádio. O peso do sobrenome Magalhães já não amedronta adversários nem paralisa aliados. O temor respeitoso deu lugar ao pragmatismo, selando a última pá de cal sobre as ruínas do carlismo.

TEXTO REVISADO PELO AUTOR

FOTO DESTAQUE MERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA COM AUXÍLIO DO CHATGPT

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