O que projetam os resultados da eleição de domingo para a disputa pela Prefeitura de Conquista em 2028, que já está na cabeça de políticos e eleitores


No domingo à noite, quando já havia votos contados o suficiente para conhecermos quem teve sucesso ou encarou a frustração, apenas uma etapa das eleições estava se acabando. No caso de Vitória da Conquista, não por causa do segundo turno para presidente da República, mas porque os números apontavam para um futuro já não distante.
A contagem de votos produziu pistas sobre as eleições de 2028, que já despertam o interesse de políticos e de grande parte da população. Os resultados ajudam a medir a força de projetos pessoais e alteram o peso dos personagens que estão na fila para a sucessão da prefeita Sheila Lemos (União).
Alan e Doutora Lara
Por ser o vice-prefeito, Dr. Alan está colocado como uma das peças destacadas do tabuleiro de xadrez da sucessão municipal. Seu nome é tido como natural em qualquer lista de prefeituráveis. Mas os movimentos da política nos últimos meses tornaram essa condição menos automática.
A virada no botão veio com a confirmação da candidatura de Doutora Lara no final do ano passado. Alan chegou a declarar apoio a Wagner, mas não teve como mantê-lo quando a esposa anunciou que a candidatura a deputada estadual era para valer. Na ocasião, disse a este BLOG que só pensaria em 2028 a partir de janeiro de 2027, mas sabe que na política o calendário costuma se adiantar aos desejos.
A votação de Doutora Lara no domingo deu um recado claro de que ele pode se construir fora da sombra do cargo de vice-prefeito. E mesmo sem assumir candidatura, Alan já aparece entre os mais citados em pesquisas que antecipam o cenário de 2028. Há quem pense diferente e as redes sociais estão cheias de opiniões para contestar, mas os 10.415 votos de Doutora Lara emprestam musculatura ao casal, que chega ao pós-eleição com estrutura para negociar 2028 em outras condições.
Waldenor, Zé Raimundo e o PT
Depois do segundo lugar na eleição de prefeito, Waldenor foi dado como carta fora do baralho por muita gente, de jornalistas a políticos, inclusive da esquerda. Até a véspera da eleição de domingo, entretanto, seu nome ainda podia ser considerado na hipótese de sua reeleição ao quinto mandato de deputado federal. Se Waldenor desejasse ser candidato a prefeito, como lhe negar tal condição, com o acúmulo de sete mandatos parlamentares, incluindo dois de deputado estadual (2002-2010)?
Com a realidade das urnas, contudo, mesmo tendo superado a votação local anterior, de 32.071 para 33.269 votos, para Waldenor pode ter sido o fim da linha considerando a disputa pela Prefeitura.
Mas, e Zé Raimundo? Em todo levantamento de opinião pública sobre as ainda longínquas eleições de prefeito, o nome do deputado continua sendo lembrado espontaneamente. Ele foi reeleito, apesar da redução na votação em Conquista, mas o que consta é que ele mesmo não deseja mais entrar na disputa.
Para o PT, independentemente dos resultados de Waldenor e Zé Raimundo, a questão é decidir se o partido seguirá recorrendo às lideranças que comandaram sua política municipal nas últimas décadas ou se abrirá espaço para outro nome.
Quinho sonha mais alto
Quinho sempre foi explícito ao falar de sua pretensão de disputar a Prefeitura de Vitória da Conquista. A candidatura a deputado estadual também teria o papel de criar as condições eleitorais para ir para o início da fila. Ex-prefeito de Belo Campo e ligado à base estadual de Jerônimo Rodrigues (PT), ele precisava mostrar que tem força própria dentro de Vitória da Conquista.
E a verdade incontestável é que ele mostrou, com 17.791 votos, o equivalente a 9,20% dos eleitores do município. Isso dá a Quinho elementos suficientes para que ele continue a sonhar alto e se torne um potencial candidato a prefeito da cidade que é mais de 20 vezes maior que a sua Belo Campo.
Ivan ganhou poder
Apesar de não ter concorrido nas eleições gerais deste ano, Ivan Cordeiro terminou a semana eleitoral com uma demonstração de poder político. Ele se tornou, na sexta-feira (2), o primeiro presidente da Câmara de Vereadores reeleito no mesmo mandato. E com os votos de todos os 22 vereadores.
A unanimidade obtida coloca em suas mãos um ativo que nenhum dos demais pretendentes possui: ele continuará presidindo a Câmara até o fim do mandato municipal, exatamente quando a eleição de 2028 estará sendo decidida.
Mas a avaliação do tamanho de Ivan Cordeiro não deve se restringir apenas à reeleição para presidente. Na Câmara, ele mostrou capacidade para construir maioria política, mas em um universo restrito de 22 pessoas. Por isso, também está sendo considerado o seu papel na articulação e liderança do apoio à candidatura de Carlos Muniz, eleito deputado federal. Estreante, Muniz teve 5.022 votos no município.
Para Ivan, o seu desafio agora é mostrar se consegue transformar relação institucional, exposição e articulação partidária em força eleitoral suficiente para avançar e tornar-se opção viável para a disputa de 2028.
Lúcia Rocha
Há ainda gente suficiente para impedir que 2028 seja reduzido a Sheila, Alan, PT, Quinho ou Ivan, e Lúcia Rocha é o exemplo mais evidente. Ela foi vereadora oito vezes seguidas, já disputou a Prefeitura e aparece à frente em pesquisas sobre possíveis prefeituráveis. A questão é que a resposta das urnas foi muito ruim para Lúcia.
A questão agora é saber se sua reconhecida tenacidade a manterá na fila e em qual posição. Afinal, foram dois grandes revezes em duas eleições, com intervalo de dois anos de uma para outra. Na eleição para prefeita, ela começou pontuando à frente dos adversários e terminou em terceiro, com 22.052 votos, 11,14% dos votos válidos. No domingo, as urnas lhe deram apenas 12.159 votos. Não há comparação direta entre os dois tipos de eleição, para prefeita e para deputada, contudo, a diferença de quase dez mil votos não deixa de ser um sinal de que o fôlego eleitoral de Lúcia Rocha pode não dar para uma candidatura de prefeita em 2028.
E Fabrício vai?
Depois de três quedas seguidas em Vitória da Conquista, Fabrício Falcão quase dobrou a votação este ano. Saiu de 10.141 em 2022 para 21.456 votos no domingo. Foi a oitava eleição disputada por Fabrício, com sete vitórias e apenas uma derrota, justamente para prefeito. Em 2016, ele ficou em quarto lugar, com 11.502 votos. No PCdoB, partido que ele lidera em Vitória da Conquista e na região Sudoeste, há quem queira uma candidatura, mas a voz mais ouvida diz que ele não entrará na disputa pela Prefeitura, mesmo com o expressivo crescimento.
Marcos Adriano
Entre os que foram candidatos a deputado, ainda há Dr. Marcos Adriano. A novidade da política há dois anos, ele continua ocupando espaço próprio na oposição e é lembrado como possível candidato de novo em 2028. Sua votação para deputado estadual foi inferior à que ele obteve em 2024 e isso é significativo, mesmo que sejam eleições diferentes em quase tudo. Há dois fatos a considerar em se tratando de Marcos Adriano: ele não teve recursos financeiros nem apoio partidário e, se o efeito da campanha focada na administração municipal não foi o esperado, ele fez o nome. Além disso, independente e jovem, ele tem energia e disposição para outras jornadas.
Diogo Azevêdo
O futuro político parece ser mais incerto para Diogo Azevêdo. Vereador mais votado em 2024, rompeu com o União Brasil, filiou-se ao PSDB e se vinculou ao projeto eleitoral de Tiago Correia, saindo candidato a deputado federal. O nome de Diogo chegou a ser ventilado entre prefeituráveis por conta dos embates diretos com a prefeita Sheila Lemos. Na eleição de domingo, ele teve 5.910 votos em Vitória da Conquista e o deputado foi reeleito, com a contribuição conquistense de 7.238 votos. Se a meta era ajudar Tiago, pode ter sido cumprida, mas, se havia uma meta política própria, considerando a votação depois da perda do mandato, essa fidelidade terá custado a Diogo mais do que o mandato.
É cedo para saber quais desses nomes estarão realmente na urna de 2028. Não é cedo, porém, para observar o que cada um está construindo.


