Além dos números: o que as eleições revelam sobre a liderança de Sheila Lemos e o futuro do seu grupo – Coluna de Ronnie Peterson



Ronnie Peterson é advogado, se assume como quase historiador, quase filósofo e ativista por uma política verdadeiramente democrática. Sua coluna sai sempre às terças-feiras
Há algumas semanas, dediquei esta coluna para analisar o cenário político do grupo que hoje tem na prefeita Sheila Lemos sua principal liderança. Na ocasião, abordei o racha que se tornou público com a saída do vereador Diogo Azevedo e, posteriormente, da vereadora Lara Fernandes. Naquele momento, afirmei categoricamente que o resultado das urnas seria o teste de fogo para mensurar, na prática, a real força da liderança política da prefeita.
Pois bem, as urnas se abriram e o veredito do eleitorado foi dado. A base política, visivelmente fragmentada, não conseguiu eleger nenhum representante local, seja para a Assembleia Legislativa da Bahia, seja para a Câmara dos Deputados.
Uma análise superficial, tomando por base estritamente a conquista de um mandato, poderia levar à conclusão apressada de uma derrota acachapante da prefeita, materializada no desempenho do seu companheiro e candidato a deputado estadual, Wagner Alves. No entanto, na política, a verdade raramente habita na superfície, é preciso focar a lupa nos detalhes que o resultado revela.
Quando olhamos para as entrelinhas das urnas, o cenário ganha nuances muito mais complexas. ACM Neto, o candidato a governador apoiado por Sheila, obteve vitória no município, ainda que, proporcionalmente, menor do que no pleito de quatro anos atrás. Destaca-se também o desempenho de João Roma, que se consolidou como o senador mais votado na cidade.
Mas o dado mais impressionante reside na votação de Wagner Alves. Mesmo sendo um marinheiro de primeira viagem nas disputas eletivas, ele alcançou a marca de mais de 30 mil votos, sagrando-se o candidato local a deputado estadual mais votado em Vitória da Conquista.Já era sabido que Wagner enfrentaria uma tarefa árdua na montagem e no desempenho de sua chapa proporcional. No entanto, o que de fato lhe tirou a vaga na Assembleia Legislativa, no meu entender, foi a falta de uma maior integração e coesão dentro do seu próprio grupo político. A pulverização de votos em candidatos vindos de fora, patrocinados por vereadores da base e cabos eleitorais profissionais, enfraqueceu o projeto local.
Para somar a isso, pesou a falta de uma conexão mais sólida com a direita tradicional, fortemente alinhada ao bolsonarismo. Essa desconexão permitiu que a vereadora Lara Fernandes atingisse mais de 10 mil votos. Embora insuficiente para elegê-la, essa votação teria sido decisiva caso houvesse uma candidatura única e unificada dentro do mesmo campo político.
A poeira das urnas ainda não baixou e os ânimos seguem exaltados nos bastidores do grupo governista. Contudo, ao contrário de artigos antagônicos e apressados publicados neste mesmo blog e escritos por Alexandre Xandó e Chico Estrela, recuso-me a carimbar o resultado como uma derrota (ou vitória) individual e isolada da prefeita Sheila Lemos. O que assistimos foi uma cisão pública que prejudicou a todos. Mesmo contando com carisma, engajamento e inegável potencial político, as lideranças permitiram que querelas e vaidades internas se sobrepusessem a um projeto coletivo. O resultado não poderia ser outro, ou seja, todos perderam. Perdeu o grupo e, sobretudo, perdeu a cidade, que continua carecendo de uma representatividade forte e direta nas esferas estadual e federal no campo político em que habitam Sheila e seus aliados.
Entretanto, seria um erro crasso interpretar a derrota de hoje como um sinal vermelho definitivo para 2028. O eleitorado mostrou que o grupo preserva uma força eleitoral gigantesca, ainda que, no momento, esteja pulverizada. O resultado de agora funciona, na verdade, como um vívido sinal amarelo.
A partir de hoje, o cenário exigirá da prefeita Sheila Lemos o exercício pleno de sua capacidade de diálogo, habilidade de articulação e, acima de tudo, a reconexão com seus aliados históricos e com as bases que sustentam seu projeto. Se a lição das urnas for compreendida e a casa for reorganizada, o futuro político da cidade ainda reserva capítulos de grande protagonismo para este grupo, mesmo que em 2028 o timão mude de mãos.
TEXTO REVISADO PELO AUTOR
FOTO DESTAQUE MERAMENTE ILUSTRATIVA CRIADA COM AUXÍLIO DO CHATGPT
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