Sheila, fazendo história e vencendo preconceito: 184 anos e 39 prefeitos depois, o diploma é de uma mulher

Sheila, fazendo história e vencendo preconceito: 184 anos e 39 prefeitos depois, o diploma é de uma mulher

O prefeito Herzem Gusmão já estava no Hospital Sírio-Libanês da capital paulista havia 81 dias, desde o dia 26 de dezembro e, na sexta-feira, 12 de março, precisou ser intubado. Empossado por meio virtual no dia 8 de janeiro, Herzem estava licenciado do cargo e em seu lugar respondia a vice-prefeita Sheila Lemos (DEM), como prefeita em exercício. Ela foi a primeira mulher a ficar tanto tempo à frente da Prefeitura de Vitória da Conquista como vice. No dia 17 de março, Sheila completara 86 dias respondendo na ausência do prefeito eleito.

Até 2019, Vitória da Conquista nunca tivera uma mulher no cargo principal da gestão municipal. Em outubro daquele ano, Herzem tirou a primeira licença e Irma Lemos – também a primeira a vice-prefeita a exercer o cargo na história do município – o substituiu. Irma esteve por 37 dias como prefeita, incluindo as duas últimas semanas de 2020, quando Herzem já estava internado e coube a ela encerrar a gestão e fazer a transmissão do cargo a Sheila, no dia 1º de janeiro.

Ter mulheres duas mulheres no cargo de prefeita por 1.483 dias seguidos –  uma na gestão que se encerrou em 31 de dezembro de 2020 e a outra até esta data, 17 de dezembro de 2024 – é um fato histórico, ao qual ainda não foi dada a devida importância por uma única razão: o preconceito. Preconceito, sem exclusividade, da esquerda e da direita, de fora e até de dentro do governo.

Um preconceito que se expressava, no início, nas críticas abertas ou sussurrantes que rechearam os discursos da oposição, ganharam eco em setores da imprensa e alimentavam a indiferença de boa parcela dos que faziam parte do grupo que apoiou a eleição do prefeito Herzem Gusmão e da sua vice, Sheila Lemos.

É de uma emblemática lembrança o discurso de estreia de um vereador, então na oposição – que no primeiro ano da gestão anterior de Herzem Gusmão, dizia serem precipitadas as cobranças feitas ao prefeito, que era cedo para criticar o antigo aliado – que cobrou, justamente no comecinho, uma tal celeridade da prefeita em exercício. Isso no dia 12 de fevereiro, com menos de 45 dias de gestão. “Espero que a nossa prefeita desça do salto e venha governar Vitória da Conquista, pois foi pra isso que ela foi eleita. Queremos celeridade”, afirmou o parlamentar. O leitor vê, na figura de linguagem do “salto alto”, algum sentimento?

E assim, Vitória da Conquista seguiu ouvindo de radialistas, jornalistas e blogueiros que a prefeita em exercício não comandava, não tinha força, não mandava no governo, não fazia nada diferente.

E a pergunta era: qual o parâmetro utilizado pela oposição e parte da imprensa para avaliar a capacidade de Sheila realizar uma boa administração àquela altura? Ela estava realizando uma administração dela? O que fariam se eles estivessem substituindo o Chefe de Executivo estando ele vivo e em contato frequente com a equipe antes da intubação, sendo ele prefeito de direito e a quem todos desejavam que retornasse para tocar o projeto que os uniu e elegeu, ele e a vice-prefeita?

A primeira resposta para o comportamento de Sheila Lemos, sem arrogância e sem posar de liderança ou prefeita titular, foi lealdade. A política e as amizades pedem isso. E respeito. Naquele momento, Herzem Gusmão era o líder vivo do grupo do qual a vice-prefeita fazia parte. A condição dela à frente da administração era temporária, legalmente e de fato.

E Sheila sempre afirmou que permaneceria leal, respeitosa e solidária por quanto durasse a enfermidade de Herzem e depois dela, com ele presente.

Internamente, o preconceito não era tão manifesto, mas sussurrado. Muitos membros do governo e do grupo apoiador do prefeito ainda viam em Sheila apenas a pessoa do sexo feminino que servia ao objetivo da eleição. Agiam como se o prefeito fosse voltar no outro dia cedo e reassumir, sobrando para a vice uma sala pequena ao lado da antessala do gabinete.

Seria compreensível que os agentes políticos do governo quisessem que Sheila tivesse sucesso na sua temporária passagem pelo cargo, mas era perceptível uma pressa de que terminasse logo a sua interinidade. Isso escapava ao “mundo externo” e acabou gerando diversas teorias, que tomaram conta das conversas políticas.

Uma teoria era de que Sheila seria conduzida por esse ou aquele secretário ou que quem mandava era o presidente da Câmara de Vereadores, Luís Carlos Dudé. Uma fantasia que não se sustentou. Uma tese infantil, mas de adultos, que trazia intrínseco o horroroso preconceito: uma mulher à frente do governo municipal tem que ser dependente de alguém que mande nela, que tome conta da administração até que o verdadeiro prefeito volte.

A resposta à pergunta se Dudé ou qualquer vereador ou político, mandava na prefeita (ou no governo, além de Herzem) eram várias perguntas: Manda em quê? Nomeou quem? Mudou qual projeto? Começou qual obra? Alterou qual decisão?

Era uma bobagem do tamanho da Serra de Periperi. O governo era de Herzem Gusmão. Ele era o prefeito eleito e empossado, embora licenciado, que deixou tudo o que existia de projeto e de obra que a Prefeitura fazia então. Mesmo que Sheila abrisse mão da lealdade, educação política e respeito pessoal (e ela já havia demonstrado que não faria isso), ela não teria o que fazer como gestora em exercício. No máximo, poderia trocar algumas pessoas de lugar, substituir um ou outra. Não se deve esquecer que ela foi eleita junto com Herzem, defendendo os mesmos projetos. E a mãe dela era a vice antes.

Sheila Lemos não era como o principal adversário da eleição de 2020, Zé Raimundo, nem Romilson, nem Salomão, e sua semelhança com Maris Stella é apenas de gênero. Portanto, do ponto de vista político, ela não tinha obrigação de mudar nada, pois, com Herzem, defendeu durante a campanha a continuidade do projeto e da gestão. Venceram e o compromisso dela era e foi com essa continuidade. Por isso, manteve-se leal ao líder com quem ganhou a eleição e que estava doente, afastado do cargo, mas era o prefeito de direito.

A morte de Herzem, em 18 de março de 2021, trouxe, além de tristeza e saudade, uma realidade não cogitada por quem fazia parte do governo e nem pela cidade, que manteve a esperança na recuperação do prefeito: a mulher se tornaria a prefeita de fato e de direito.

É verdade que não houve alvoroço, até porque a comoção pela perda de Herzem não dava lugar, mas a perceptível desconfiança e um certo desprezo pela interinidade de Sheila deram lugar à preocupação fora e dentro da prefeitura. Fora: ela vai dar conta? Dentro: ela vai me manter aqui? Não existia um crachá de herzista, mas é como se uma grande parte da gestão passasse a usar um, como espécie de aval de pertencimento ao grupo de Herzem (que, refresque-se a memória, era o mesmo da prefeita).

E isso gerou fantasias e teorias de conspiração. As versões misturavam o “desamor” de Sheila por membros do governo anterior que ficaram e “planos” destes para desequilibrar a prefeita e não deixar ela administrar com autonomia, sem ouvir os “herdeiros” de Herzem.

Não se pode dizer que essa segunda parte não tenha amparo factual. Uma minoria, realmente, se pudesse obrigaria Sheila a trocar a máscara de proteção à Covid-19 por uma com a cara de Herzem. Mas eram poucos. Uns saíram, outros ainda estão lá, mas se adaptaram. Como a cidade se adaptou.

Não houve sobressaltos. Sem dar spoilers, sem qualquer boquirrotismo, ouvindo todo mundo e dizendo só o que lhe interessava – e a poucos, Sheila Lemos foi colocando o preconceito no porão. Seguiu leal a Herzem, sem negar sua dívida de gratidão, deixou o time no lugar, tocou os projetos, mas do jeito dela, sem enfrentamentos ao legado do prefeito que a colocara na chapa e vencera a eleição para ela.

Porém, chegou uma hora que Vitória da Conquista precisava ver a gestora, ela mesma, sem que fosse um reflexo do herzismo. E ela fez. Tropeçou mais de uma vez, mas não perdeu a caminhada. De repente, no último trimestre de 2022, a gestão viu tudo escurecer e só acordou na padiola, doente, sem dinheiro, sem planos (tudo o que fazia era geração da gestão anterior) e cheia de temores quanto ao futuro político.

Os conselhos do que fazer choviam na mesa da prefeita, como as tempestades que escavaram a cidade, arrasaram estradas e fizeram estragos na imagem do governo. Alguns se desesperaram, todo mundo tinha uma pergunta. Era a saída da pandemia, havia dúvidas e ameaças. Metade do tempo de governo passara e era preciso reagir. A esperança residia em um pedido de financiamento internacional de US$ 71,44 milhões, cerca de R$ 435 milhões na cotação atual. Só que esse empréstimo não veio.

Como a Prefeitura precisava de dinheiro ou a gestão estaria fadada a fazer os serviços básicos, limpar a cidade, trocar lâmpada, cadastrar Bolsa Família e manter a educação e a saúde funcionando como desse, Sheila fez o que Herzem não fez: assegurou emendas parlamentares, para custeio no começo, para investimentos, depois. E, como ele, foi ao banco buscar um empréstimo menor, mas que chegasse a tempo da necessária reação.

Com aprovação da Câmara de Vereadores ela tomou R$ 160 milhões emprestados na Caixa, pelo programa Finisa. Até aqui, nada inédito, todos os prefeitos pegaram financiamentos bancários. E em novembro veio o alívio: contrato assinado, Sheila poderia fazer obras pela cidade e responder à angústia da população por melhoria em vários bairros.

O resto, todo mundo viu. Já certa de seu protagonismo, ela mesma construindo um legado, a prefeita se aproximou mais da memória de Herzem, expôs com mais ênfase seu reconhecimento. Um passo necessário no ano eleitoral, já que a adversária Lúcia Rocha reivindicava a memória política do ex-prefeito. Dava para perceber uma Sheila mais aguerrida, aqui e ali meio troncha da coluna, mas com um semblante de confiança, mais altivez.

Foi quando se viu, além da gestora – paciente, enigmática, resiliente diante das dificuldades surgidas no meio do caminho – a política. Ambas atuando, talvez Ana por um lado e Sheila por outro, como ela mesma brinca vez ou outra.

Mostrou-se enxadrista, mesmo sem saber para que servem torre, cavalo e como um bispo pode se mover apenas na diagonal, mas ir até onde quiser e o rei apenas uma casa por vez. E quem viu o resultado de sua articulação na formação da coligação com a qual disputou a eleição, teve que tirar o chapéu. Ou resmungar, já que ficou sem o chapéu.

Quando o ano começou, a pesquisa mais otimista para a prefeita lhe dava 20%. Aparecia em segundo lugar. Para muita gente, era tarde. Para Sheila, era o começo. Se balbuciou algum temor no final de 2022 e início de 2023, soletrava confiança, vitória e primeiro turno de trás para frente, como as crianças do quadro Pequenos Gênios do Domingão com Huck. E deu no que deu: o velocímetro passou rápido de 20% para 25%, 30%, 35%… 59%, 116.488 votos. A primeira eleição decidida no 1º turno, desde a implantação dos dois turnos em Vitória da Conquista.

Não há dúvida que os adversários tiveram grande contribuição na vitória da primeira prefeita eleita de Vitória da Conquista. Seja por falta de força de grupo e de discurso, de um lado, seja por mil outros motivos do outro, com destaque para a insistência em tratar a mulher como incapaz, com linguagem inadequada, ausência de rigor técnico, e de criatividade, em se tratando de marketing político, e pouca capacidade de captar o sentimento das ruas, das mulheres, em especial.

E ainda há o mérito da boa escolha do vice, Alan Fernandes.

Mas, foi ela. Com o começo respeitoso a Herzem, com o cumprimento dos planos dos dois, pela ausência de vaidade explícita, de soberba ou destempero. Depois, com a capacidade de vencer a crise que as chuvas trouxeram, o momento financeiro ruim na passagem de 2022 para 2023, o temor interno de que o projeto político naufragasse.

Foi um governo divido em duas partes e cada parte em dois momentos. No primeiro  momento aprendizado, paciência, continuidade e lealdade; no segundo, fortalecimento do grupo, resiliência e meta. No terceiro momento, obra, presença na cidade, confiança; no ano da eleição, estratégia, coragem, ousadia, a política à frente da gestora, em um governo que já não mancava.

Deu no que deu.

E hoje, ao participar, pela primeira vez, de uma cerimônia de diplomação de eleitos, a mulher prefeita, Ana Sheila Lemos Andrade, sabe que a política ainda tem porão e muitos monstros para empurrar para lá, mas já ajuda as pessoas a entenderem melhor, sem saber nada de xadrez, porque a dama é mais forte que o rei.

N.R.: Na conta dos prefeitos, o BLOG considera os que assumiram em definitivo o cargo, desde o primeiro intendente

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