Quer conhecer uma pessoa, dê-lhe poder. Sobre os dias em que Luís Carlos Dudé esteve prefeito de Vitória da Conquista

Há três anos, nesta data, o vereador Luís Carlos Dudé (União) devolvia à prefeita Sheila Lemos (União) a cadeira que ele ocupara por 12 dias, no exercício do cargo de prefeito, pelo período em que a gestora esteve de licença para uma breve viagem de descanso ao Uruguai.
Dudé assumiu no dia 4 de julho de 2022, com pompa e circunstância, em evento no auditório do Cemae, com a presença de autoridades, correligionários, amigos e a família. Ele era presidente da Câmara Municipal e, nessa condição, era o substituto imediato em eventual afastamento da prefeita que, eleita em 2020 vice de Herzem Gusmão, não tinha o próprio vice.
O governo de Sheila, ainda que passados mais de 13 meses desde a posse definitiva dela como prefeita titular, em razão da morte de Herzem, ainda engatinhava, estava sob a avaliação e vigilância direta de herzistas e outros grupos desconfiados ou atulhados de preconceito. E essa desconfiança se estendeu a Dudé.
Como ele agiria ao sentar-se na cabeceira da grande mesa do gabinete? Como usaria a caneta, pregaria algum susto? E quais seriam sua atitude e seu comportamento investido no maior cargo eletivo da terceira maior cidade da Bahia, com arrogância ou com humildade? Eram temores sussurrantes, mas muito presentes nas horas antes e nos primeiros dias depois da festa de posse.
A crônica abaixo escrevi algumas horas depois que Luís Carlos Dudé voltou a ser o presidente da Câmara e Sheila Lemos retomou o lugar dela.
Não foi a primeira vez e nem será a última de transmissão temporária do cargo de prefeito em Vitória da Conquista. Tampouco foi a primeira vez que um presidente da Câmara de Vereadores chegou à cadeira principal do poder político municipal.
Posso listar três casos: Alexandre Pereira, em 2006, em razão de medida judicial que afastou temporariamente o prefeito José Raimundo e seu vice, Gilzete Moreira; José William Nunes, em 1987, quando José Pedral Sampaio, prefeito eleito, estava em cargo estadual e o vice, Hélio Ribeiro, tirou férias; e Orlando Leite, em 1964, quando Pedral foi cassado pela ditadura e não havia vice-prefeito eleito.
Porém, à exceção da assunção de Orlando Leite, considerando as circunstâncias, nenhuma outra substituição do Chefe do Executivo pelo do Legislativo gerou tanta expectativa – diria até ansiedade e angústia – que a realizada entre os dias 4 e 16 deste mês, quando Luís Carlos Dudé assumiu a cadeira que fica em frente à planópia de bandeiras, na ponta da mesa do gabinete, para que a prefeita titular pudesse tirar uns dias de merecido descanso.
A começar pela pompa. Diferente das dezenas de vezes em que houve transmissão temporária de cargo, no período democrático, a de Sheila para Dudé teve um ato solene digno de uma posse para valer. Embora valesse, é bem verdade, seria tão transitória a governança de Dudé que teve gente que achou exagero aquela solenidade no auditório do Cemae.
Depois, pensando bem, a maioria deve ter entendido. Como se entende o gesto do atleta ganhador da medalha mostrando orgulhoso o prêmio do alto de um carro de bombeiros. Ou na caçamba de uma picape.
Dudé é um homem de origem e história simples. O menino do Alegria, que escolheu a política como forma de realizar sua missão de transformar o meio em que vive, sabe o que representou o fato histórico de sua chegada ao cargo de prefeito. Não apenas ele, qualquer um que alcançasse o que ele alcançou iria fazer uma festa.
É um incontestável fato histórico, memorável também pela representatividade de um homem negro e pobre, não um doutor, chegar a ocupar a posição principal da mesa da sala grande onde passaram J. Pedral, Guilherme Menezes e Herzem Gusmão, sob o olhar de todos os 38 intendentes e prefeitos da história conquistense que, não se enganem, vigiam no silêncio de suas fotos pintadas por Orlando Celino, os movimentos dos que dirigem os destinos de sua terra, ainda que por uns dias.
Dudé tem o DNA do pai e da mãe no sangue, mas na alma de político há uma mistura de DNAs herdados da convivência com gigantes da articulação política, da sagacidade, da oratória de palanque e da capacidade de fazer coisas aparentemente pequenas ou curtas virarem grandiosos eventos históricos.
O último professor de Dudé foi Herzem. E foi justamente Herzem um dos maiores, senão o maior responsável pela sua diplomação, o certificado de político pronto, agora já um professor para a geração seguinte (e para alguns retardatários que não se formaram a tempo).
Conheço Luis Carlos Dudé há mais de três décadas. Já o vi errar muitas vezes. E a acertar outras tantas. Acertar, errar, acertar, ao ponto de deixar dúvidas e gerar desconfiança, como qualquer um e em tudo na vida.
Depois de 35 anos em que, desde adolescente, milita na política, Dudé foi posto à prova mais uma vez. A prefeita Sheila Lemos, que poderia usar os fins de semana para descansar, passar uns dias na praia de Ilhéus, Ipitanga, Boipeba, se não quisesse passar o cargo, optou por demonstrar sua confiança no cara que ela conhece de muitíssimo tempo atrás. Se a prefeita não confiasse, o presidente da Câmara, o menino do Alegria, não sentaria na cadeira como prefeito em exercício.
Confiança dada, confiança requerida. Como Dudé se comportaria, quais seriam suas atitudes tendo a chave da prefeitura e uma caneta à sua disposição?
Com certeza, todas as pessoas que vivenciam a política e acompanham seus cenários e movimentos prestaram atenção no prefeito em exercício por 12 dias e nove horas, até 9 horas da manhã deste sábado, quando Sheila reassumiu. Fora e dentro do governo havia expectativa e ansiedade. E até angústia. Afinal, quem tem cargo comissionado tem medo.
Medo é palavra forte? Então, digamos que quem têm noção do que significa demissível ad nutum. E se Dudé mudasse um decreto, cancelasse um contrato ou exonerasse um secretário? Até a prefeita retornar do Uruguai, onde ficou por sete dias, o panavueiro já teria sido grande.
Mas, o que fez Luís Carlos Dudé? Deu a mais inequívoca prova de lealdade. Mais que Zé Raimundo com Guilherme, que Hélio Ribeiro com Pedral ou Clóvis Flores com Murilo Mármore, até quem sabe?, como Irma Lemos foi com Herzem.
Ele desfez as angústias. Se a prefeita demorasse mais dias para voltar, no que dependesse do discurso e dos atos representativos de Dudé, seria como se ela nunca tivesse saído. O seu substituto soube marcar presença, atuar com desenvoltura e personalidade enquanto prefeito, mas com a humildade e respeito dos que são leais e afeitos à ética nas relações e na política. Citou, ressaltou, elogiou, representou e confirmou a liderança da amiga prefeita.


O menino do Alegria, então vereador de segundo mandato e presidente da Câmara Municipal, entrou bem e saiu melhor. Não usou expedientes para se engrandecer e por isso saiu maior do que entrou. Ele e sua careca brilhosa estarão registrados na memória da imprensa e nos registros da história: foi prefeito e, calçado em um estilo suave, sem arroubos, demonstrou que merece mais. Porque não destoou como gestor, ainda que temporário. Não se curvou à vaidade, mantendo o que já estava estabelecido e ajudando muitos céticos a verem que é possível confiar na política.
Dudé deu um passo do tamanho das pernas. Demonstrou maturidade política e afirmou, com suas atitudes no exercício do cargo de prefeito, que o grupo político da prefeita Sheila Lemos se consolida com união.
Quer conhecer um homem dê-lhe poder. Quando se diz essa frase expressa-se um conceito ruim sobre a pessoa. Na passagem pelo cargo de prefeito, Dudé deu à frase outra interpretação.


