Intelectuais, coronéis, heróis nacionais e heroínas locais | Ruas e praças de Vitória da Conquista: a história pelo caminho – Parte 4
Em dez minutos de leitura, apresentamos a breve história de mais 12 personagens que deram nome a ruas e avenidas de Vitória da Conquista. A reportagem original foi publicada na edição de março de 2018 da revista Conexão. Algumas fotos são da época, outras de pouco depois, quase nenhuma é atual.
Laudicéia Gusmão: Via extensa que começa na esquina da Rua Nilton Gonçalves até chegar na Praça da Bandeira, é um homenagem a uma das primeiras mulheres da família Gusmão em Vitória da Conquista. Era neta de Plácido da Silva Gusmão, o primeiro com o famoso sobrenome a chegar aqui, quando ainda era a Vila Imperial da Conquista. Nascida em 1862 e falecida em 1948, dona de casa, religiosa, casada com Porfírio de Oliveira Freitas e mãe de 12 filhos, Laudiceia também foi parteira. Mas, sua história ficou marcada mesmo foi pela sua atuação na ‘Guerra dos Meletes (grupo político de Maneca Moreira) e os Peduros (grupo de Ascendino Melo)’, conflito armado que se registrou em Conquista em janeiro de 1919.
Depois de intensos tiroteios e do registro das mortes de jagunços e de um fazendeiro, Laudiceia Gusmão, juntamente com outras mulheres, destacando-se ela, Henriqueta Prates, Joana Angélica e Fulô do Panela, saiu às ruas para pedir o fim do conflito. Com uma bandeira branca amarrada a um rifle 44, elas se dirigiram aos coronéis Ascendino Correia e Maneca Moreira e apelaram por paz. O gesto interrompeu a ‘Guerra de Meletes e Peduros’. Por esse gesto, Laudiceia Gusmão recebeu o título de ‘A Medianeira da Paz’”.
Laudionor Brasil: Esta rua no bairro São Vicente tem o nome de um intelectual que nasceu em Vitória da Conquista em 1901 e faleceu em 1950, sendo professor, poeta e jornalista, com um viés humanista e libertário. Era filho do carpinteiro Manoel de Sena Brasil e da dona de casa Henriqueta Andrade Brasil. Foi casado com Áurea Celina Brasil e tiveram nove filhos. Autor do livro “Vinte anos de amor e de tortura”, escreveu para o jornal A Palavra, foi um fundadores do Grêmio Dramático Castro Alves, da Ala de Letras (anterior à Academia Conquistense de Letra) e também do jornal O Combate; trabalhou com Euclydes Dantas no Educandário Sertanejo, de onde foi diretor, e, mais tarde, criou a escola Externato Brasil.
Em 1960, quando se completaram dez anos de sua morte, a memória de Laudionor foi homenageada com um busto de bronze na Escola Normal (Instituto de Educação Euclydes Dantas), mas, o busto sumiu logo depois da implantação da ditadura militar de 1964. Entre os descendentes de Laudionor Brasil está o artista plástico Sílvio Jessé.


Lauro de Freitas: a antiga Avenida Municipal, no centro de Vitória da Conquista, teve o seu nome substituído em homenagem ao engenheiro civil e político baiano Lauro Farani Pedreira de Freitas. Na Avenida Lauro de Freitas esta localizada Estação Herzem Gusmão, de embarque e desembarque de passageiros do transporte coletivo. Lauro de Freitas nasceu em Alagoinhas, mas completou os seus estudos em Salvador, formando-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Bahia. Iniciou a carreira política em 1945, quando foi eleito deputado federal pelo PSD. Ele tinha 49 anos e era candidato a governador da Bahia quando morreu em um acidente aéreo no dia 11 de setembro de 1950, em Bom Jesus da Lapa. O deputado federal e ex-prefeito de Vitória da Conquista, Régis Pacheco foi candidato no lugar de dele e foi eleito.
Lions Club: O Lions é uma associação surgida no estado de Memphis (EUA) em 1917 e que se tornou internacional em 1920. Chegou ao Brasil em 1952, com o Lions Clube de Rio de Janeiro. O primeiro de Vitória da Conquista, que teve dois, foi o Lions Clube Centro, hoje a representação é feita pelo Mongoiós. O Lions Clube se apresenta como uma instituição com o objetivo de “promover o entendimento entre as pessoas em escala mundial, atender causas humanitárias e promover trabalhos voltados às comunidades locais”.

Luís Eduardo Magalhães: Foi deputado estadual e federal, tendo sido presidente tanto da Assembleia Legislativa da Bahia como da Câmara dos Deputados. Chegou a assumir a presidência da República em duas ocasiões, em 17 de outubro de 1995, e de 5 a 8 de novembro de 1995. Filho do meio do ex-governador Antônio Carlos Magalhães (ACM), morreu de infarto em 21 de abril de 1998, em Brasília, meses antes das eleições para governador, quando aparecia como favorito. A avenida foi asfaltada pelo Governo do Estado e inaugurada em 2005, pelo então governador Paulo Souto. O trecho já existia e havia sido projetado pelo ex-prefeito José Pedral Sampaio como uma avenida de contorno, hoje é uma das mais importantes artérias da cidade, tendo ajudado a impulsionar a economia.
Maneca Grosso: Nascido em Vitória da Conquista em 1869, Manoel Fernandes de Oliveira foi professor, jornalista e poeta. Era filho de Manoel Fernandes de Oliveira e Umbelina Maria de Oliveira e sobrinho do coronel José Fernandes de Oliveira Gugé. Com a morte do tio, publicou um artigo censurando a conduta dos oposicionistas e, após isso, sofreu uma emboscada em que ficou gravemente ferido e seu amigo Cirilo morreu. O episódio foi a gota d’água para o conflito conhecido como Guerra dos Meletes e Peduros, em janeiro de 1919.
Maneca morreu em fevereiro de 1919 em decorrência dos ferimentos da agressão sofrida. Ele é mencionado em uma das mais belas canções de Elomar, ‘Canto de um guerreiro mongoió’: “Adeus, vou embora pra Tromba, lá onde Maneca chorou…”. O Morro da Tromba fica a cerca de 15 quilômetros da cidade, na direção oeste, local onde Maneca Grosso escreveu um de seus mais belos poemas “Do cimo do Morro da Tromba”.

Maximiliano Fernandes: Na década de 40, a Rua Grande foi dividida em duas: a Zeferino Correia e a Maximiliano Fernandes, que faz uma homenagem a José Maximiliano Fernandes de Oliveira, conhecido como Coronel Cazuza Fernandes, nascido em 29 de outubro de 1867 e falecido em 27 de março de 1940. Ele sucedeu a Sá Barreto no governo municipal, de 1908 a 1911. Maximiliano Fernandes era sobrinho do Coronel Gugé, casado com Ana Santos Silva, irmã de Francisco Santos, e um grande fazendeiro na região.
O Coronel Cazuza Fernandes faleceu no dia 27 de março de 1940. Com boa formação intelectual, aluno que fora do professor Ernesto Dantas, seu padrasto, Maximiliano Fernandes, entre outras funções, antes de ser intendente, foi juiz de paz e diretor da Companhia Rodoviária Conquistense, responsável pela primeira estrada de Vitória da Conquista até Jequié .
Nilton Gonçalves: Jurista, advogado de destacada oratória nos tribunais, poeta, foi prefeito de Vitória da Conquista entre 1971 e 1973. Além de uma rua no bairro Guarani, tem seu nome em um colégio estadual e no primeiro presídio da cidade. Nasceu em 4 janeiro de 1923. Nilton Gonçalves concorreu ao cargo de prefeito de Conquista pela primeira vez em 1954, em uma campanha que repetiu o mote do “tostão contra o milhão”, usado por Jânio Quadros na eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 1952. Na disputa, perdeu para Edvaldo Flores. Foi casado com Maria Yvone Borges Gonçalves e teve três filhos.

Olívia Flores: A avenida que hoje é uma das mais importantes da cidade tem o nome de uma mulher que contribuiu diretamente com a história conquistense. Olívia Ferreira Flores nasceu no dia 15 de setembro de 1894, em Aracatu (BA), em 1910, e se casou com Cândido dos Santos Flores. Como o seu marido fazia tratamentos cardíacos frequentemente, coube a Olívia Flores administrar os negócios da família. Eles se mudaram para Vitória da Conquista no ano de 1940.
Aqui, Olivia Flores foi uma importante líder política, como parte do grupo de Régis PachecoFoi presidente do Partido Social Democrático (PSD), apoiou a candidatura a prefeito de José Pedral em 1962 e, após o golpe militar de 1964, foi uma das organizadoras do “Clube do Tricô”. No clube, de forma secreta, o assunto discutido era a política. Olívia Flores também atuava em causas sociais. Consta que, aos domingos, levava café da manhã para os presos na cadeia pública. Ela teve 18 filhos, entre eles Dalva Flores, que se destacou na cidade pelo trabalho social que realizou. Olívia Flores faleceu em 17 de março de 1976.

Otávio Santos: Por muitos anos, a Antiga ‘Nova Rua’, foi uma requisitada área residencial da cidade até os anos 1990, depois se transformou uma das mais movimentadas de Vitória da Conquista, quase que exclusivamente comercial, com destaque para escritórios de advocacia e clinicas de saúde. Otávio José dos Santos Silva, que também era conhecido por Tavinho Santos, foi o último intendente de Vitória da Conquista, de 1928 a 1930. O pai dele era José Sátyro dos Santos Silva, mas é a mãe que está presente na memória da cidade, com nome de rua: Henriqueta Prates.
Otávio Santos não chegou a concluir o mandato, pois foi deposto pelo Movimento Outubro de 1930, que colocou o jornalista Bruno Bacelar em seu lugar. A família de Otávio Santos era influente na política. Seu irmão, Leôncio, genro do Coronel Gugé, também foi intendente, e o filho, Humberto Flores, que foi um dos mais importantes memorialistas de Conquista, vereador, secretário particular do ex-governador Régis Pacheco e do prefeito José Pedral Sampaio.
Padre Palmeira: Apesar de sua importância histórica, o Padre Palmeira dá nome a uma ruazinha curta, entre a Avenida Frei Benjamin e a Rua São Roque. É também nome de um colégio estadual. Luiz Soares Palmeira foi sacerdote, professor e político e sua história está mais identificada com o Ginásio do Padre, que ele transferiu de Caetité para Conquista, em 1939, e por onde passaram várias personalidades importantes da cidade, e e pelo seu mandato de deputado estadual.
Nascido no Rio de Janeiro em junho de 1906, foi criado em Alagoas. Ordenado padre em Caetité, no ano de 1932, se mudou para Vitória da Conquista em 1939. Em 1944, fundou o jornal ‘A Conquista’. Entre 1950 e 1954 foi vereador e depois da secretário estadual de Educação. Foi cassado pela ditadura e anistiado apenas em 1979, no governo do general Figueiredo. Padre Palmeira era de uma família de políticos e alguns se destacaram, como o Rui Soares Palmeira, que foi senador da República por duas legislaturas (de 1954 a 1962); Guilherme Palmeira, sobrinho dele e filho de Ruy, foi governador de Alagoas de 1979 a 1982 e também senador por dois mandatos e Vladimir Palmeira, outro sobrinho, irmão de Guilherme, deputado federal constituinte de 1987 a 1990, quando foi reeleito.
Plácido de Castro: Considerado um herói brasileiro, chamado de Libertador do Acre, José Plácido de Castro nasceu em São Gabriel (RS), em 9 de setembro de 1873, e morreu em 9 de agosto de 1908, em Seringal Benfica (AC). Tem seu nome em uma rua do bairro Guarani. Em 1899, Plácido buscava fortuna com a extração de borracha no Acre, que pertencia à Bolívia, mas quase todo mundo que estava lá era seringueiro brasileiro. Ele ficou sabendo que havia um acordo de arrendamento da região para um grupo anglo-americano e considerou que isso seria uma ameaça à integridade do Brasil.
Plácido de Castro, então com 27 anos, liderou um exército na luta pela independência do Acre e sua integração ao Brasil. A vitória final aconteceu em Porto Acre, quando o Estado Independente do Acre foi proclamado, o que levou o governo boliviano a preparar um ataque fulminante para retomar a região, fazendo com que o Brasil enviasse o Barão do Rio Branco para negociar um acordo. No fim, o Brasil pagou pelo Acre 2 milhões de libras esterlinas, além de terras no Mato Grosso e se comprometeu a construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Plácido de Castro foi governador do Estado Independente do Acre entre de 1902 a 1904, e depois prefeito do município de Alto Acre, onde acabou morrendo em 11 de agosto de 1908, depois de ser baleado em uma emboscada dois dias antes.
Na próxima publicação: Praças Barão do Rio Branco, Desembargador Mármore Neto (Do Boneco); Escola Normal; Gerson Sales; Joaquim Correia: Norberto Aurich; Orlando Leite; Sá Barreto; Tancredo Neves; e Pracinha do Gil, e as avenidas Presidente Vargas e Régis Pacheco.



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